19/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Elson Farias: A decadência do tic-tac

Publicado em 21 de junho, 2014

O objetivo do futebol é o gol. Tudo é feito em razão do gol. Realizado e assistido com paixão. É a prática esportiva mais popular do mundo. O jogador de futebol usa integral e exaustivamente o corpo no contato com a bola. Só não pode usar os braços e as mãos. Quanto ao mais tudo é permitido, aí residindo um dos atrativos dos seus apreciadores.

Os dribles ou fintas de corpo, em que era mestre o nosso inesquecível Garrincha, compõem uma das suas mais requintadas formas de expressão, como a espetacular bicicleta inventada por Leônidas, o Diamante Negro, na conclusão das jogadas de área.

Formas requintadas como o remate a gol de Zizinho, então chamada “folha seca”, um chute executado com tal maestria que infundia à bola um efeito assustador aos melhores goleiros, mais usado agora pela maioria dos bons craques nos chutes de três dedos, chamado hoje de trivela.

O toque de calcanhar, aperfeiçoado por Sócrates, e também adotado pelos jogadores de classe daqui e de além-mar, traz surpresa nos bons lances.

Tudo isso que constitui alguns elementos de linguagem do futebol no domínio da bola, como o passe e a recepção, na direção do gol. O passe realiza-se nos toques curtos, em triangulações mágicas, ou nos lançamentos largos, geralmente concluídos com cabeçadas ou voleios.

E o que é o tic-tac dos espanhóis? É a técnica dos toques curtos, em triangulações mágicas usadas a exaustão, até a conclusão da bola dentro do gol. Claro que na realização dessa técnica há necessidade da presença de bons e habilidosos craques nas equipes. Foi o que fez o treinador Pep Guardiola, que, recentemente, levou o Barcelona ao máximo de posição do clube espanhol no pódio desse esporte de elite.

A seleção da Espanha adotou essa mesma técnica e foi campeã mundial, pela primeira vez, em 2010. A partir daí, os técnicos adversários isolaram o sistema dos passes curtos em triangulações mágicas, com o princípio de marcação homem a homem, e passaram a criar dificuldades tanto para o Barcelona como para a seleção espanhola. Deu no que deu, o Barcelona perdeu as últimas competições que disputou e a seleção da Espanha começou a arruinar-se, desde a última Copa das Confederações, sendo eliminada hoje na primeira fase da Copa do Mundo no Brasil.

No primeiro jogo do certame, ao enfrentar a Holanda de lances largos, a goleada de 5 a 1 decretou a falência total do modelo espanhol. No jogo de sua desclassificação, com a aguerrida seleção do Chile, observou-se que a seleção espanhola abandonou, num esforço de salvação, o exaustivo sistema de passes curtos apelidado de tic-tac, e passou a usar os passes largos em que seus atletas não são bons, porque, segundo pode-se observar, não foram treinados para a conclusão das cabeçadas ou dos voleios em que são mestras, por exemplo, as seleções da Alemanha e da própria Holanda, além do Brasil, que é versado em todas as linguagens do futebol, modéstia a parte.

Eis a questão, no meu fraco entender. Os espanhóis do flamenco e do “cante jondo”, da música maravilhosa de um Joaquim Rodrigo ou de Manuel de Falla, da poesia de um Gôngora ou de um Garcia Lorca, da pintura de um Velázquez ou de um Goya, da rara voz de um José Carreras ou de um Plácido Domingos, posta nos ombros toda uma enorme tradição de cultura e arte, saberão renovar o seu futebol e ressurgir nas canchas com surpreendentes novidades, como foi o caso do sistema tic-tac.

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Autor
Elson Farias

* Elson Farias é jornalista, poeta, escritor, membro da Academia Amazonense de Letras.

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