A Praça 14 de Janeiro, tecnicamente, possui cerca de 1,2 quilômetros quadrados e tem os seguintes limites: Sul, avenida Sete de Setembro; Norte, Boulevard Álvaro Maia; Leste, igarapé da Cachoeirinha; e Oeste, avenida Joaquim Nabuco. Possui um grande platô, onde se localiza a Igreja de Nossa Senhora de Fátima e vários baixios. No último censo do IBGE, a população do bairro, que comemora aniversário, claro, no dia 14/01, era de 14.447 moradores.
Desde o início da Década de 1880, a grande área compreendida entre o bairro da Cachoeirinha, a Vila dos Ingleses e o Centro de Manaus era um grande matagal, com dispersos moradores e sítios de “barões da borracha”. Aos poucos, levas de migrantes para ali se dirigiram e formaram pequenas comunidades. Mais precisamente, em 1884, alguns moradores advindos do Estado do Maranhão vieram, por meio de longa viagem, por navios a vapor, morar nessa área. Os Fonseca, os Beckman, os Medeiros, dentre tantos, já estavam ali, desde o começo.
A Alforria dos escravos, precocemente realizada pelos Estados do Amazonas e Ceará, quatro anos antes da oficialização nacional, em 13 de maio de 1888, pela filha do Imperador Pedro II, Princesa Isabel, veio, de certa forma, trazer mais e mais ex-escravos para estas terras. Nas grandes obras realizadas por Eduardo Ribeiro, eis que centenas de trabalhadores da Praça 14 lá estavam, como auxiliares de pedreiros e carregadores. Tanto nas obras do Teatro Amazonas como a do edifício Palácio da Justiça, dentre outros, houve mão de obra da Praça 14 ali.
A princípio, a negritude maranhense se posicionou nas terras onde hoje se situam as ruas Japurá e Visconde de Porto Alegre, sendo que, aos poucos, desciam para a Nhamundá e Duque de Caxias. A parte central do futuro bairro pertencia a alguns portugueses, que lotearam estas terras, em terrenos de aproximadamente 600 metros quadrados, pela avenida Paes de Andrade (futura Tarumã), parte da Jonathas Pedrosa, Emílio Moreira e, mesmo, a Visconde de Porto Alegre.
Em 14 de Janeiro de 1892, houve um levante dos funcionários públicos do Estado do Amazonas contra o governador, por causa do atraso nos salários. Na nascente república, comandada pelos militares, eis que o tenente maranhense Eduardo Gonçalves Ribeiro, que já havia sido interventor federal no Estado, meses antes, volta ao cargo, em abril de 1892, três meses depois do acontecido.
Esta data ficou na memória dos primeiros moradores do bairro, que, à época, era chamado de Vila Maranhense. Depois de alguns anos, transformou-se em Praça Fernandes Pimenta, Praça 14, Praça Portugal e, finalmente, já na década de 1950, de Praça 14 de janeiro novamente, em homenagem à data revolucionária.
Eduardo Ribeiro, “O Pensador”, realizou melhorias no bairro, “abrindo os caminhos” até então, inexistentes. Com o passar dos anos, já se podia ver o trajeto das ruas, ainda no barro, depois na piçarra e, já depois de meados do século passado, no tão esperado asfaltamento. Melhorias estruturais também, aos poucos foram sendo feitas, como a delegacia, que era localizada na esquina da avenida Tarumã com Jonathas Pedrosa; o Mercado Municipal, na esquina da Emílio Moreira com Nhamundá, os colégios Luizinha Nascimento (Tarumã com Emílio Moreira), e Plácido Serrano, ao lado Mercado.
Vale ressaltar que este mercado era localizado, antes, na própria Praça do bairro, aonde hoje se localiza a quadra de desportos. Mais tarde, construíram no bairro, outros colégios, como o Primeiro de Maio, localizado na Duque de Caxias, e o Farias de Brito.
Pois bem, o bairro, em termos de linha de bonde, era servido, apenas nos seus limites, pois o mesmo “passava” na Joaquim Nabuco, Belém, na Cachoeirinha e na Sete de Setembro. Anos depois, já na década de 1960, é que surgiu a linha Praça XIV e, depois, já na década de 1970, quando o bairro tornou-se uma passagem importante do centro para outros locais, é que surgiram várias linhas, já bastante conhecidas. Vale ressaltar que, antes da construção da quadra poliesportiva da praça, que está localizada no bairro, eis que os espaços de lazer eram restritos aos campos de futebol. Quanto aos circos, quando vinham a Manaus se instalavam quase que frequentemente (até a década de 1980) no terreno situado na avenida Tarumã, com Duque de Caxias. Moradores com mais de 40 anos de idade viram por ali vários leões, girafas, chimpanzés e elefantes… era a alegria – junto aos palhaços – da garotada…
Em 1976, um comerciante advindo de Itacoatiara-AM montou uma pequena loja de peças e assessórios para motos, na avenida Tarumã, entre a Visconde e a Duque de Caxias. Adilson Benayon, anos depois, adquiriu dois grandes terrenos, avenida acima, e construiu, de 1977 a 1980, a maior loja de autopeças do Norte do Brasil. Anos depois, dezenas de lojas do ramo surgiram no bairro, tornando este o “bairro das autopeças”, como também ficou conhecido. Mais tarde, com o incremento forte do comércio, várias agências bancárias chegaram à Praça 14. Então, os terrenos de criação de porcos, galinhas e patos deram vazão à modernidade… Em vez do grasnar, o som de uma impressora, em vez do cacarejar, o som de um alarme contra roubos… Em vez de árvores frutíferas, como no sítio urbano de minha saudosa avó, insufilms, plásticos esvoaçantes, sons e buzinas de carro…
A Praça 14 também guarda em sua história o primeiro Cachorro Quente, confeccionado pelo “Seo Farias”, que morava ali na rua Japurá, quase atrás do Santuário de Fátima. Ele saia às ruas com seu carrinho, a vender os famosos sanduíches. Anos depois, em 1976, bem no meio da Praça, seu “Bira” abriu o carro-lanche “Mikão”, em contrapartida ao já afamado Kikão, do Centro da cidade, mas que era do mesmo modo preparado. Uma delícia…
Anos depois, Seo Bira se instalou na esquina da Praça, na rua Emílio Moreira com Tarumã, aonde permaneceu até 1993. A partir dali, outros comerciantes “arrendaram” o local. Na mesma Praça havia o famoso Zizas. E próximo ali, no “banco de areia”, fora construída, em 1988, a quadra da Escola de Samba Vitória Régia, saindo do quintal de Tia Lindoca…
Onde se localizava o mais antigo sapateiro do bairro, no barranco da esquina da Tarumã com a Jonathas, bem na ponta oposta da praça (e ao lado do Clube das Mães), se desbastou aquele imenso bloco de barro e, no início dos anos de 1980, se construiu ali uma locadora de veículos, a Ouro Veículos, do seu Oscar. Depois um minimercado e por fim uma agência do Banco do Brasil. No local da antiga Panificadora Pão de Ouro, na Duque de Caixas, aonde comprávamos pão e Leite da IPLAM, se fez o Bradesco. A Caixa Econômica Federal, que fora construída ao lado da Embratel, era também um barranco, ali na Leonardo Malcher com Emílio Moreira.
Igrejas pululam no bairro. As católicas, as evangélicas, a Fé Bahai e os terreiros de umbanda…
E falando em barranco, um dos que foram abaixo foi o Jaqueirão, uma espécie de Centro Cultural, que formou vários sambistas e ainda desfilou como Bloco de Enredo nos anos de 1980, na avenida Djalma Batista. Este local foi demolido para dar vazão a uma conhecida loja de Pneus, na esquina da Visconde Porto Alegre e Japurá. Próximo dali, na mesma artéria, eis que continua “firme e forte” uma comunidade negra aguerrida, conhecida por “Barranco”, que mantém fortemente os laços culturais dos primeiros moradores maranhenses. Foi ali que o culto a São Benedito se fez pujante e até hoje é referenciado. Com a morte, em 2003 de Tia Lurdinha, a líder do movimento – uma das mais famosas baianas do Brasil – eis que seus descendentes continuam a realizar os cultos e a festa do “mastro e frutas”, mantendo a secular tradição.
O primeiro edifício do bairro, construído na avenida Tarumã, foi o Robustelli, de quatro pavimentos, erguido em 1975, onde funcionou vários órgãos importantes como Emater, KA, Sesau e Funai. O bairro também possuía um grande horta, que era de propriedade da portuguesa Dona Rosa e que se localizava no quarteirão compreendido entre as ruas Duque de Caxias, Visconde de Porto Alegre, Doutor Machado e Tarumã, com entrada por esta última. A Maternidade Ana Neri (Balbina Mestrinho) também, localizada na Praça 14, é uma referência na cidade.
Até os anos de 1960, era comum as mulheres do bairro lavarem suas roupas no então límpido igarapé da Cachoeirinha, limite leste do bairro.
Romerino e Solimões eram os clubes mais afamados da sociedade praçacatorzina e, anos depois, a The Tiger e a Ação Social da Praça 14, já na década de 1970, também deixaram suas histórias pra contar. A TV Educativa, quando lançou seu sinal, foi a pioneira, e é localizada no bairro. Alguns dos igarapés da Praça 14 foram canalizados, já nesse século, para dar vazão ao Prosamim.
A primeira Escola de Samba do Estado do Amazonas surgiu na Praça 14 de Janeiro. Se chamava Escola de Samba Mixta (Com x) da Praça 14 de Janeiro. Foi fundada em janeiro de 1946 e naquele ano mesmo desfilou desde o famoso bairro até a avenida Eduardo Ribeiro. À época, poucos abnegados adeptos iam sambando e cantando em bloco, descompromissadamente, e não havia rival para ela, até a chegada das efêmeras Voz da Liberdade, Unidos da Cachoeirinha e Boulevard. A escola pioneira, após ganhar tudo, se desfez em 1962, ano do seu último desfile. Somente em 01/12/1975, na casa de Tia Lindoca, que era situada na rua Jonathas Pedrosa, próxima à Leonardo Malcher, é que surgiu outra agremiação de samba no bairro, a verde e rosa, GRES Vitória Régia. O bairro da Praça 14, por isso mesmo, é conhecido como o “Berço do Samba” no Amazonas.
Na década de 1950, o nome do bairro já era conhecido por Praça 14 de Janeiro, mas eis que um decreto governamental o transforma em Praça Portugal. Mais uma vez o povo, em massa, ao chegar, pela Escola Mixta, próximo ao Palanque das autoridades, começa a cantar em mais altos brados, sob o comando de Zé Ruindade, presidente da Mixta:
Não é direito/ Não é legal/ Mudar o nome de Praça 14/ Para Praça Portugal…
Ouvindo isso, logo, logo, o governo teve que retroceder e voltar para o já consagrado e histórico nome de Praça 14 de Janeiro.
Melchiades Ligeiro, um dos conhecidos pesquisadores, folcloristas e mestres de bumba-meu-boi, afirmava ao autor destas linhas que, a batida da batucada da antiga Escola Mixta, era característica da época, um pouco mais lenta do que a atual, corrida, mas no mesmo compasso… Ligeiro, faleceu em 2008. Em sua casa, localizada na rua Japurá, ainda está guardado muito da antiga escola, como troféus e bandeiras. Ele era genro do último presidente da mais antiga agremiação de samba de Manaus, que já foi cantada em prosa e verso, como num samba, de 1993, da GRCES Primos da Ilha, do saudoso Nélson Medeiros, quando dizia:
Eunice Veste a fantasia/ E põe na passarela o que você sonhou/ Viva o Boi-Bumbá e Ciranda/ Com Fernando apoiando a Mixta escola de Samba…
Nélson, que fundou a Primos da Ilha, em 1990 no Bairro de São Francisco, foi um dos presidentes da Vitória Régia. A família Medeiros foi um braço hiper forte na construção da história cultural do bairro.
Outro samba, que falava sobre a Mixta, o da GRES Vitória Régia, de 1994, de autoria do saudoso Nivaldo Santos e de Nilson Jordão – “Dos tambores de Mestre Antão ao ecoar de uma nação”.
Canto…/ É preciso cantar/ Escola Mixta onde começou o samba…
Outro samba, é o de 2004 da também, Vitória Régia.
E o bairro do samba, do carnaval, da folia, é também bairro do trabalho e da dedicação. É o bairro da negritude, da arte e da poesia e também do futebol: Fluminense, Tuna Luso, Conflusão, Supermáquina e tantos outros. É o bairro do Comércio, da boêmia (Duque Bar, Antigo Romerino, Solimões, Amorikana, do Carriço, Bar Verde e Rosa, Nonatos e tantos outros).
Já não se ouve o bater das roupas nos igarapés
Nem o coaxar dos sapos nas beiradas de canaranas
Não mais se ouve o tilintar dos copos dos ébrios
Nem o som altissonante dos pássaros
Mas ainda se ouve o barulho dos tamancos e sapatos
E ainda se vê as calças brancas dos malandros
O rodopiar dos mestre-salas e porta-bandeiras
A sabedoria da velha baiana
Se toma o tacacá sem igual
O batuque bem tocado
E ainda se vislumbra o futuro do samba no sorriso de uma criança
Praça 14 de Janeiro, Berço do samba…
Teu futuro, teu ideal!
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* Daniel Sales é pesquisador cultural.