25/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O teorema da enchente

Publicado em 29 de maio, 2012

Lisboa – A enchente recorde, com números que assustam pela superioridade em relação a 2009, traz um grande desafio para autoridades e cientistas. Perguntas que são trazidas pela leitora Joyce Mara, preocupada com as origens do problema, precisam ser respondidas no menor espaço de tempo possível.

Qual o impacto de obras que mudaram os cursos de igarapés e aterraram grandes áreas de desambiguação dos rios na capital amazonense e ao longo de toda a bacia amazônica? As regras disponíveis para as autoridades ambientais e órgãos de classe, como o CREA, são suficientes para evitar agressões ambientais? Em que o novo Código Florestal pode interferir no processo – apesar de novo, nunca é tarde para emendá-lo?

Todos sabem, e isso foi fartamente mostrado na televisão, que o rio Amazonas nasce em uma rocha, que apenas goteja, a mais de três mil metros, na Cordilheira dos Andes. Todo o volume de água do grande rio é captado ao longo de seu curso até o Oceano Atlântico. Os cientistas já sabem que o volume d’água que o torna o maior rio do mundo, resulta de um processo complexo e que envolve várias nações, populações, etnias, interesses econômicos, lobbies ambientais etc.

Com o conhecimento científico, que precisa correr, os aproveitadores terão menos espaço para transformar o fenômeno natural, com o qual o caboclo amazônico convive secularmente, em catástrofes, e será possível maior sensatez no planejamento. A mudança de parâmetros, ocorrida agora, quando a cota 30 (o rio trinta metros acima do nível do mar) deverá ser superada, é muito importante. A engenharia tem considerado esse nível do rio como seguro e, ao contrário do que muitos pensam, esse nível não é considerado apenas nas margens dos rios, valendo para obras em áreas consideradas de terra firme. É a margem de segurança contra inundações repentinas. Quantos prédios públicos foram construídos sem os cuidados técnicos, à revelia dessa margem de segurança, e agora terão que ser reformados?

É muito fácil rotular a enchente de “fenômeno natural”, “vontade de Deus”, “fatalidade” ou coisa que o valha, para amortecer responsabilidades. O caboclo ribeirinho do Careiro da Várzea, obrigado a trocar a casa por um lar improvisado em uma balsa, quer respostas mais consistentes e não desculpas. Gente que construiu casas em áreas alagadiças não podem mais continuar constituindo uma massa de risco, que serve de manobra para estados de emergência e calamidade pública pouco republicanos. Vamos cuidar da emergência e resolver o problema de fundo.

A enchente recorde de 2012, que alaga o centro de Manaus, mostra que essas perguntas e essas ‘verdades’ precisam ser esclarecidas o mais rapidamente possível. Havia projeções de uma nova grande enchente em meio século, mas, com a pressa ambiental demonstrada este ano, o prazo ficou bem mais curto. As respostas precisam chegar já.

É preciso evitar xiitismos que engesse o desenvolvimento da região, mas as causas científicas precisam ser descobertas.

 

 

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Arthur Virgílio Neto

* Arthur Virgílio Neto é diplomata, ex-líder do PSDB no Senado e prefeito de Manaus

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.