23/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Os haitianos

Publicado em 30 de janeiro, 2012

O Amazonas assiste, não sem surpresa, à imigração maciça de haitianos. A Pastoral do Imigrante da Igreja Católica, solidária, exauriu as precárias condições de atendimento na igreja e comunidade de São Geraldo. É preciso encontrar uma solução humanitária e prática, urgente e justa, para evitar um problema maior. É preciso ir ao X da questão.

O Haiti é hoje um país sem governo e sem estrutura. Os militares brasileiros estão lá, à frente das tropas da ONU, na Mission des Nations Unies pour la stabilisation en Haïti (em francês, Minustah – Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti). Tentam, sob o comando do General Floriano Peixoto Vieira Neto, manter a ordem e combater os focos cada vez maiores de violência.

O Brasil foi escolhido para comandar essas tropas por ter o maior contingente e porque o governo, nos idos de 2004, já buscava cacife para pleitear uma vaga no Conselho de Segurança da ONU. Em 19 de agosto de 2004, início da Minustah, a Seleção Brasileira foi levada a Porto Príncipe e venceu a Haitiana por 6 a 0.

O governo fez de tudo para vender uma imagem do Brasil como Terra da Promissão. Esqueceu ter sido incapaz de resolver o abandono da gente do Alto Solimões, a porta escancarada por onde circula o narcotráfico. Fingiu não ver a miséria grassando na periferia de Manaus. Os haitianos, após os desastres do governo de Jean-Bertrand Aristide e do terremoto de janeiro de 2010, acreditaram piamente que as coisas por aqui são das mil e uma noites.

Foi assim que os habitantes da pequena ilha, insulada entre a República Dominicana e Cuba, passando pelo Mar do Caribe e vários países, desembarcaram em Tabatinga (AM). Lá, neste momento, cerca de 2 mil deles se engalfinham com caboclos e índios em busca da sobrevivência. Mais de 4 mil já estão em Manaus.

O Brasil precisa ser responsável com essa imigração. Os haitianos têm se mostrado dóceis, pacíficos, trabalhadores. Mas não podemos ignorar os lugares que percorreram, o sofrimento que vêm enfrentando, a brutalidade a que são submetidos – os biombos de paredes nuas onde moram e a onda de violência que os cerca, numa periferia onde não é incomum a cobrança de pedágio para atravessar uma ponte ou cruzar uma viela.

Nunca antes neste país estivemos tão próximos de perder a guerra por nossos jovens para o tráfico e a violência. Nunca antes neste país se ouviu tanto falar de jovens, meninos e meninas, de 16, 17 anos, integrando e até chefiando quadrilhas de roubo, sequestro relâmpago e homicídios.

Estamos travando uma nova guerra, agora pela mão de obra dos haitianos, sem parecer nos dar conta disso.

O Governo Federal cruza os braços e manda avisar que, “dia 2 de fevereiro, enviará funcionários a Manaus”. Parece esquecido de que hoje existe o avião comercial a jato ou mesmo o AeroLula, capazes de cortar a distância Brasília-Manaus em menos de três horas.

Os brasileiros, menos ainda os amazonenses, não são capazes de negar solidariedade. Os haitianos são uma realidade aqui e agora. Resgatá-los é um dever humanitário, que precisa, porém, ser compatibilizado com o amplo resgate de nossos jovens. Chega de o Governo Federal nos virar as costas em momentos decisivos.

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Autor
Arthur Virgílio Neto

* Arthur Virgílio Neto é diplomata, ex-líder do PSDB no Senado e prefeito de Manaus

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