21/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Tapar o sol com peneira?

Publicado em 03 de dezembro, 2011

Lisboa – A  Zona Franca está em vias de sofrer outro golpe bastante rude. Basta que a Câmara confirme, em segundo turno, a aprovação da chamada PEC da “Música”, de autoria do deputado Otávio Leite (PSDB-RJ), e depois o Senado ratifique a decisão. A indústria fonográfica estará isenta de imposto para se instalar em qualquer ponto do território nacional, privilégio que, até o momento, tem sido exclusivo do Polo Industrial de Manaus. Em igualdade de condições, perderemos a competição para o Centro-Sul, muito mais certamente para São Paulo que para o estado do proponente da matéria, o Rio de Janeiro.

Dá para dizer que o deputado em questão é “inimigo” do Amazonas? Em sã consciência, não! Afinal, representando o Rio de Janeiro, procura cuidar dos interesses de sua terra, assim como é dever dos amazonenses barrar o avanço dessa proposta. Claro como água.

A bem da verdade, registre-se que Otávio só logrou êxito até agora, porque teve o apoio da base governista e, portanto, o sinal verde do Palácio do Planalto que, mais uma vez, optou pelo Centro-Sul, contrariando os interesses do Amazonas. Claro como a luz solar.

Onde Otávio Leite recolheria votos suficientes para aprovar sua PEC, sem a cumplicidade do governo? Sabendo-se que a diferença numérica que separa a força congressual governista das oposições é abissal?

Desejo todos os êxitos à nossa bancada de deputados e de senadores, que haverá de se distanciar de fantasias e contorcionismos de raciocínio. De golpe em golpe, o modelo que sustenta o Amazonas vai vendo o seu futuro comprometido e cinzento.

Certa vez, encontrei Paula Lavigne e duas dezenas de artistas bastante conhecidos. Ela me pediu para conversarmos e, imediatamente, levei-os à liderança do PSDB no Senado.

Depois de algumas trocas de gentilezas, ela foi direta, queixando-se da Videolar: “a indústria fonográfica brasileira irá à falência, se os incentivos permanecerem só no Amazonas. E haverá muito desemprego”. Respondi-lhe: “se os incentivos forem equiparados, haverá desemprego no Amazonas. Lealmente, afirmo a vocês que enquanto eu for senador, essa PEC, passando na Câmara, morrerá no Senado. Lamento, mas tocaram na porta errada”.

Num gesto mimado, ela saiu batendo os tamancos, sem ser seguida por seus colegas, que conversaram comigo por mais uma meia hora. Expliquei-lhes que, representando o Amazonas, seria até esquisito patrocinar o que Paula me solicitara. Disse-lhes que entendia perfeitamente o deputado Leite, mas que também já havia dito a ele que, pelo Senado, sua PEC não passaria. Percebi compreensão por parte dos interlocutores.

Tudo de que o Amazonas não precisa, em hora tão delicada, é de guerra de versões e inverdades. A Zona Franca está perdendo densidade, sim, e somente um esforço gigantesco e uno das pessoas públicas responsáveis poderá alterar o rumo das coisas.

O Amazonas e seu povo merecem respeito e não podem ser palco de atores do “salve-se quem puder”.

 

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Autor
Arthur Virgílio Neto

* Arthur Virgílio Neto é diplomata, ex-líder do PSDB no Senado e prefeito de Manaus

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