26/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O lanche e a ponte

Publicado em 04 de novembro, 2011

Há alguns anos, quando tinha escritório na rua Luís Antony, iniciei o retorno para casa por volta das 18 horas. Acessei a avenida Djalma Batista e dela quase não consigo sair, proeza que só logrei realizar lá pelas oito e meia da noite. O engarrafamento era monumental. Os carros se moviam dois metros a cada meia hora e não houve agente de trânsito que tivesse êxito na tentativa de colocar o mínimo de ordem naquele caos. Imaginei a ocorrência de gigantesco acidente. Era trágico demais. Pensei, então, que deveria estar acontecendo alguma passeata para homenagear o presidente da República em visita a Manaus. Ou mesmo, quem sabe, o Papa tivesse vindo desfrutar de alguns momentos de lazer na exótica Amazônia.

Palpites todos errados. Não era nada tão grandioso ou eloquente. Dava-se que ocorria a inauguração de uma casa de lanches, na esquina com a rua Pará. Tão somente isso. A massa afluiu aos borbotões para assistir ao início do funcionamento daquela máquina de fazer gordos. Era uma angústia insopitável e ninguém pensava em deixar para os dias futuros a satisfação de contemplar ao vivo aquela que, por certo, estava fadada a ser uma das maravilhas do universo. Continua lá a obra dantesca e já não se vê a confusão humana do primeiro dia. A maioria talvez já tenha conseguido os quilos de que necessitava e outros, tal qual eu, nunca sentiram precisão de degustar os manjares olímpicos que ali são servidos.

Manauense de carteirinha, por nascimento e convicção, chorei lágrimas amargas contemplando o espetáculo de provincianismo que o evento proporcionou. Ignorante como sou, não era (e ainda não é) do meu conhecimento que uma lanchonete tivesse tido, alguma vez e algum lugar, recepção tão calorosa e efusiva por parte dos gentios. Nem as caravelas de Cabral, com suas miçangas e bugigangas, foram tão atenciosamente admiradas e reverenciadas pelos índios do litoral baiano.

E não é que a coisa se repetiu em outro plano e em outro lugar desta risonha cidade? Os meios de comunicação mostraram à farta a multidão aglomerada, a impaciência da turba, a histeria que contaminava quantos participavam do feito histórico. Tudo para ver… uma ponte. Não foi possível conter os ânimos. Terminado o falatório e a distribuição de cocares, o novo colosso foi literalmente invadido por incontável número de curiosos, talvez na esperança de dar concretude à lenda bíblica do caminhar sobre as águas. E agora, mais persistente, o provincianismo provou que tem fôlego, já que a calma não se abateu mesmo depois de sete dias. Que o comprove o noticiário sobre o número de veículos que realizou a travessia no último fim de semana. Seus proprietários não puderam controlar a expectativa de contemplar o elevado grau de desenvolvimento de Iranduba, de ver a acadêmica organização urbana de Manacapuru ou o índice de escolaridade de Novo Airão.

De minha parte, vou esperar que a tempestade amaine para ir saborear uma tartaruga na casa de minha irmã Mimita, que mora ali pelas bandas do Miriti. Pode ser que, atravessando a ponte, consiga eu encontrar uma das muitas pepitas de ouro que nela estão encravadas e que, dizem, são as responsáveis pelo custo da obra. Vã esperança. Com tanta gente, os verdadeiros donos do ouro já o hão de ter encontrado e será inútil minha caça ao tesouro. Restar-me-á – e não é pouco – contemplar a beleza paradisíaca do Rio Negro.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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