Cheguei em casa por volta das 4h30 da manhã, fui direto para o quarto. Estava exausto. Liguei a televisão e, quase instantaneamente, dormi. Havia acabado de presidir longo e desgastante julgamento realizado perante o Tribunal do Júri Popular, na Câmara Municipal de Humaitá, onde o réu foi, inclusive, absolvido. Pela manhã, a notícia. Não estava totalmente acordado, e ouvia uma voz distante anunciando o ocorrido; nem parecia real, então, me virei e comecei a prestar atenção ao noticiário.
Ainda sou capaz de me ver assistindo as imagens dos prédios pegando fogo, de ouvir as especulações dos jornalistas sobre os responsáveis e suas motivações, de sentir o clima de insegurança que se seguiu a tudo isso. E, depois, os prédios desabando…. E com eles parte dos alicerces de uma das maiores e mais sólidas democracias do mundo.
Ninguém mais estava seguro. Em nome do combate ao terror, liberdades começaram a ser suprimidas, guerras foram travadas e mesmo hoje continuam, vejamos o ocorrido com o Iraque. E George W. Bush, o político cujo governo não deu importância para as informações que poderiam ter evitado a tragédia, pasmem: foi reeleito graças a ela e a sua política antiterror com as infindáveis buscas por “armas de destruição em massa” que jamais foram encontradas.
O assassinato de Yitzhak Rabin, Primeiro-Ministro de Israel, no dia 4 de novembro de 1995, pelo estudante judeu ortodoxo Yigal Amir, militante de extrema-direita que se opunha às negociações com os palestinos, quando participava num comício pela paz na Praça dos Reis (hoje Praça Yitzhak Rabin) em Tel Aviv, talvez tenha sido o fato que mais diretamente contribuiu para o surgimento da crise de liderança em favor da paz no mundo, abrindo caminho para o 11 de setembro.
É assustador: como podem uns poucos homens terem causado tanto estrago, pondo abaixo tantas certezas e conduzido a humanidade ao impasse liberdade versus segurança? Dez anos se passaram e essa pergunta continua a nos assombrar.
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* Luis Cláudio Chaves é juiz de direito.