Durante os mutirões que realizamos, na Comissão de Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa (CDC-Aleam), tenho notado um dado fundamental: a carência das comunidades periféricas de Manaus.
No último mutirão, sábado (20/08), das 8h às 15h, tivemos mais de 2,5 mil atendimentos. Embora tenhamos incluído também emissão de Carteira de Identidade (1ª e 2ª vias), questões relacionadas ao Bolsa Família, como o recadastro, além de corte de cabelo e manicure, a maioria absoluta dos casos diz respeito a problemas da relação de consumo.
Qual a razão dessa carência?
A primeira, que pode parecer pueril, é a distância física que separa o cidadão dos serviços públicos. Para alguém ir do São José 2 até o São José I, onde existe um Pronto Atendimento ao Cidadão (PAC), que, aliás, foi nosso parceiro no mutirão de sábado, é quase a mesma coisa que ir ao Centro da cidade. A falta de garantia da disponibilidade de um defensor público para atendê-lo, o que tornaria inútil o sacrifício da viagem – deixando filhos, trabalho doméstico e/ou fora de casa – é outro obstáculo. E, finalmente, a própria deficiência do transporte coletivo, afasta ainda mais o indivíduo da solução do seu problema.
Não é nada desprezível, por outro lado, para quem convive com a sobra de mês no salário, o valor de R$ 2,25 da passagem de ônibus. Lembremos que uma simples ida e vinda sai por R$ 4,5 e que isso, na maioria das vezes, desfalca seriamente o bolso do trabalhador. Não é porque eu ou você temos condução própria que vamos esquecer o que é parte das dificuldades na vida de nossa gente.
Quando o problema vai para o lado da saúde, aí então é que a coisa pega. A banda mais humilde da população, que é a imensa maioria, só consegue vaga quando está em emergência e contribui para lotar os prontos-socorros. Ultimamente, com a popularização do tal “sistema de saúde”, todos precisam passar pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS), antes de chegar ao hospital ou mesmo ao pronto-socorro. Como elas não funcionam e para essa gente levar “ralho” de médico é pior que apanhar do pai, o resultado é que o carente segura suas dores até onde não pode mais e acaba agravando problemas que normalmente a Medicina resolveria com facilidade.
Esse sistema precisa acabar.
A autoridade pública precisa ampliar os mutirões de cidadania, esteja em período político ou não. Sábado e domingo, de folga da ocupação semanal, a população pode, enfim, dar vazão aos seus próprios problemas e atender aos chamados desse tipo.
Não custa nada atender, com a sensibilidade que o bom-senso recomenda, a quem trabalha o ano inteiro, o tempo todo, para sustentar o grosso da vida de todos nós.
Tem aquela história do passarinho que voava até o lago, pegava uma gota d’água e jogava sobre o incêndio da floresta, sob os risos da bicharada, até que lhe perguntaram a razão do esforço inútil e ele respondeu: “Estou apenas fazendo a minha parte”. Pois é. A CDC-Aleam está se preparando para ir ao interior. Está fazendo sua parte, mas precisando muito de mais e mais companhia.
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* Marcos Rotta é deputado estadual, vice-presidente da Assembléia Legislativa e presidente da Com...