Durante a década de 80, na cidade do Rio de Janeiro, visitantes e boa parte da população da cidade maravilhosa, principalmente na Avenida Brasil, nas pilastras entre o cemitério do Caju e o terminal rodoviário, conviveram e aprenderam com os ensinamentos do paulistano José Datrino, conhecido nacional e internacionalmente como o Profeta Gentileza. Não que esse finado brasileiro, de parco currículo, mas de simples, porém grande legado social tenha elaborado alguma lei, projetos ou, como atualmente está na moda, alguma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).
“Gentileza gera gentileza”, replicado, compartilhado, popularizado e grafado por grande parte da cidade, este mantra foi alçado, com merecido louvor, a enredo de escola de samba, na maior festa popular do mundo sem, contudo, ter sido suficiente para tocar os corações de nossos milhares de parlamentares, de norte a sul deste país, com raras exceções.
Bem que diante do período sombrio que passa o Brasil, nossos parlamentares bem que poderiam fazer a gentileza de dar um bom exemplo e cortar na própria carne, extirpando esse tumor maligno que causa uma enorme sangria nos cofres públicos ao alimentar uma Câmara Federal ao custo de R$ 1 bilhão por ano (auxílio moradia, cotões, aposentadoria privilegiada, por exemplo). Naquela casa de leis estão engavetadas pelo menos três PEC’s que poderiam trazer uma economia de R$ 218 milhões/ano, com a redução do número de parlamentares tanto na Câmara quanto no Senado.
Agora, em época de crise na economia, como eles justificam, o questionado e criticado Congresso Nacional prefere sacrificar o trabalhador, os direitos adquiridos, as minorias e as conquistas alcançadas para continuarem se lambuzando como glutões no banquete pago com o sangue e suor do povo. Já que o momento exige sacrifício, por que então não reformam a previdência parlamentar, que amarga um rombo de mais de R$ 2 bilhões? Ao invés de empurrar uma regra que a grande maioria de quem propõe – pasmem, nunca obedeceu.
Não, não é vergonhoso assimilar a máxima do profeta que andava maltrapilho e respondia a cada um que o chamava de maluco: “Sou maluco para te amar e louco para te salvar”. Pelo visto, tinha um âmago muito cândido e valioso, ao contrário dos criminosos de colarinho que permeiam aquelas hostes do Planalto Central. A ideia é simples, basta o parlamentar se colocar no lugar do trabalhador, da dona de casa, do estudante, do desempregado, do paciente no corredor de um hospital, da criança com fome, da vítima assaltada e fazer aquilo, apenas aquilo que ele gostaria que fizesse por ele. Que ele (o parlamentar) fizesse uma gentileza ao próximo através de seu trabalho e, como um galo em cada manhã, ouvindo o outro a cantar, também cantasse… – parafraseando João Cabral de Melo Neto (em Tecendo a Manhã, 1999).
Neste exato momento, enquanto você lê, o parlamento está aprovando leis que retiram, à luz do dia, direitos de trabalhadores, de mulheres, das populações tradicionais, das minorias, dos segmentos profissionais. O Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) aponta, através de um levantamento, que pelo Congresso Nacional tramitam matérias como sendo importantes pontes para um futuro promissor para o Brasil, mas na verdade não passam de uma séria ameaça à democracia e aos direitos conquistados. Uma espécie de túnel direto ao passado, ao Brasil Colônia talvez, com a revogação do voto feminino, da República e também da Lei Áurea.
*Auditor Fiscal da Sefaz.
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* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.