
Caboclo do rio Juma vira ‘engenheiro’ solar e ilumina comunidade isolada
No interior do Amazonas, o ribeirinho Rubens Bezerra de Souza, 42, não esperou por políticas. Ele mora na comunidade Mamorizinho, no rio Juma, numa rota tão remota que exige barco, ramal de barro e lancha para chegar. Rubens é casado e tem seis filhos.
Lá, a energia depende de fios frágeis que cruzam igarapés e matas — um vendaval, e lá se vai a luz da casa.
Para driblar isso, ele instalou um sistema solar que alimenta freezer, geladeira e TV sem ajuda da rede.
Gastou cerca de R$ 65 mil e hoje opera de forma autônoma.
E não parou por aí: já instalou cerca de 30 sistemas em comunidades entre os rios Juma e Madeirinha — dez delas a “horas de distância”, considerando o padrão amazônico.
Energia solar reduz gasto e elimina dependência do diesel
Em estudo recente da Amazônia Legal, o custo médio por unidade habitacional em sistemas off-grid era estimado em R$ 47 000 para ~45 kWh/mês.
Outro levantamento nacional indica que, para residências, o custo de instalação de kits solares varia de R$ 15 000 a R$ 40 000, dependendo do consumo e da complexidade.
Levando isso em conta: se uma família ribeirinha gastava com gerador a diesel ou esperava pela rede pública instável, agora ela tem energia confiável.
Se Rubens monta 30 sistemas a custo médio estimado de R$ 35 mil cada, ele mobilizou aproximadamente R$ 1,05 milhão em recursos privados.
Para cada família, uma economia significativa — menos gasto com combustível ou a espera constante pela luz pública.
A iniciativa assume mais força quando comparada às políticas públicas de eletrificação rural.
O programa federal Luz para Todos já investiu bilhões, mas segue com muitos brancos na cobertura em zonas remotas.
Enquanto isso, Rubens, com ensino autodidata no YouTube, foi lá onde a rede não chegava e desenvolveu a solução. “Liguei e funcionou TV e DVD… Aí fui pesquisando… fui aprendendo”, relatou.
“A fama saiu da vizinhança”, como ele mesmo diz: não são mais apenas os vizinhos próximos que o contratam. No rio Juma e no rio Madeirinha, “vizinho” pode morar a duas, três horas de lancha dali. Ele instalou sistemas em famílias distantes, nos rincões da floresta.
Essas distâncias “amazônicas” mudam o conceito de isolamento: entre barco, ramal, escadaria e lancha, o mundo conectado de Rubens se torna raro e valioso.
A narrativa dele mostra que, no campo da inclusão — seja de energia ou de internet —, o serviço privado que funciona pode valer mais do que o “grátis” que não entrega.
Em outras palavras: se a comunidade aceita pagar por algo que funciona, talvez o problema não seja o custo, mas a garantia.
No Mamorizinho, a placa solar brilha onde a rede falha, o freezer gira, a TV exibe filmes — e a luz deixa de ser privilégio urbano para virar conquista ribeirinha.
Tags: #EnergiaSolar, #Amazonia, #InovacaoRibeirinha, #RioJuma, #Sustentabilidade, #LuzParaTodos, #TecnologiaCabocla