
O atentado em Nice, França, uma matança, é exemplo da estupidez de que fala Valois
Conta a História que Átila, tendo unificado as tribos hunas, no século V de nossa era, devastou a Europa no maior empreendimento imperialista de então. Considerado bárbaro pelo vigoroso império romano, suas ações lhe fizeram merecer a alcunha de “Flagelo de Deus”, pois desconhecia a divindade do florescente cristianismo, já erigido à categoria de religião oficial. Há divergências, pois alguns historiadores veem no huno a figura de um rei carismático e bondoso, revelando apenas o que hoje se chamaria de nacionalismo exacerbado. Com certeza não fez nada parecido com o que a própria Igreja Católica, por séculos detentora incontestável dos poderes temporal e espiritual, praticou durante a Inquisição, tida, até agora, como a maior e pior manifestação de intolerância religiosa.
A ressalva quanto ao tempo desse reconhecimento não é casual. Muito ao contrário, está ela posta diante do que vemos acontecer diuturnamente, agora, no século 21, permitindo inferir que a Europa (diria melhor: o mundo) sofre flagelo muito mais grave e de maior extensão, com a recidiva de ataques terroristas. Repete-se a História. De novo, à evocação da suposta primazia de uma crença, tortura-se, mata-se e se conclui a insensatez com um novo homicídio ou um suicídio, a permitir que o torturador/matador parta para as delícias do éden maometano, onde o aguardam as bênçãos do criador e o doce convívio com virgens. Matéria para os publicitários das agências de viagens aos quais incumbe esclarecer aos fanáticos que nem toda gente está tão sôfrega e ansiosa para conhecer as delícias desse resort celestial.
Um insano joga um caminhão sobre multidão reunida na festa nacional de França. Morre quase uma centena de pessoas. Crianças entre elas. Notem, por favor, que não disse “mulheres e crianças” (conquanto tenha sido essa a realidade) porque isso poderia parecer discriminação com o sexo feminino e estou longe de querer atrair ódio para mim, nesta época de “empoderamento das mulheres”, seja lá o que isso queira significar. (Aliás, o corretor de texto sublinhou em vermelho a tal palavra, que não consegui encontrar em nenhum dicionário. Evolução da língua talvez). Mas, voltando ao que interessa, o doente que dirigia o caminhão foi morto pela polícia. Completou-se o ciclo, mas o amargo travo do ódio ficou nas papilas gustativas da humanidade.
Também em terras de Carlos Magno estava um ancião de oitenta e seis anos posto em sossego. Cuidava ele apenas de levar ao seu rebanho as palavras e os ensinamentos do pastor maior, tal como lhe foram ditos e transmitidos. Quero significar: o velhinho, padre que era, celebrava a missa, ofício por excelência, através do qual os católicos se encontram (ou, pelo menos, pretendem fazê-lo) com a divindade que os apascenta e reúne. Eis senão quando, em cena digna de filme de terror de terceira categoria, duas figuras (acredito que sinistras) adentram a igreja, interrompem o ofício entre o ofertório e a comunhão, geram pânico entre os fiéis e, num clímax de mau gosto e estupidez, simplesmente degolam o sacerdote. Isso mesmo: cortam-lhe fora a cabeça, numa reedição macabra do delírio vivido por Alice no confronto com a Rainha de Copas, em pleno país das maravilhas.
Não fora pelo medo e pela tristeza que ficam no rastro de suas ações, quem poderia levar a sério essa gente? Mas o pior é que temos de levar, pois a coisa está tomando proporções imensuráveis. E em nome de que, por favor alguém me diga! Se é a busca de uma hegemonia religiosa, trata-se de sonho (ou pesadelo) que o mundo ocidental já experimentou e viu fracassadas todas as suas arremetidas e frustrados todos os seus anseios, por mais piedosos e camuflados que fossem. Seja, porém, qual for o motivo determinante, não existe justificativa para as execuções em massa, como não pode haver explicação para as exibições de pura barbárie em que se subsumem as divulgações televisivas de decapitações individuais.
Até por aqui já apareceram pândegos pretensamente participantes desses “ideais”. Uma dúzia deles, ao que me consta. Tristes figuras. A ignorância, já dizia minha avó, é a mãe de todos os males. E quem, por simples diletantismo, diz ser adepto do terrorismo, por certo tem firme relacionamento com a tal senhora (a ignorância, é claro, já que a velhinha não tinha nada a ver com isso). Mas o pior, numa prova de que a desgraça nunca anda sozinha, é que a imprensa noticia sobre as dificuldades que as autoridades brasileiras estão criando para os advogados dos supostos terroristas tupiniquins. Sendo o terrorismo uma idiotice e uma violência, uma atitude dessa ordem em nada lhe fica a dever. Façamos o seguinte: todos contra o terrorismo. E, para ampliarmos nosso repúdio ainda mais: todos contra qualquer forma de estupidez.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...