
Momento de glória para o futebol amazonense, com o São Raimundo batendo recorde de público contra o Fluminense. Na foto, Luís Cláudio, capitão do time (esquerda) e Ademir (cabeceando) param o ataque do Flu
A temporada de 2025 teve três representantes do Amazonas na Série D: Manaus FC, Manauara e Princesa do Solimões. O Manaus, rebaixado da Série C em 2023, voltou a disputar a quarta divisão, enquanto o Manauara tentava consolidar espaço nacional. Nenhum obteve êxito, na missão de subir para a Série C. O Amazonas FC, que no mesmo 2023 foi campeão da Série C e chegou à Série B, agora luta desesperadamente para não cair, mas o público não ajuda.
O fato mais flagrante, do momento atual no futebol amazonense, é que o Amazonas FC, com os estádios Ismael Benigno e Arena da Amazônia disponíveis, prefere jogar no acanhado Carlos Zamith, tentando criar o clima de “alçapão” e intimidar os adversários.
O futebol amazonense teve momentos de paixão com a torcida. Em 9 de março de 1980, o Fast recebeu o Cosmos, de New York, o time em que jogava Pelé, marcando o recorde estadual de público. Foram mais de 80 mil torcedores, num estádio Vivaldo Lima ainda com arquibancadas de concreto, sem assentos individuais, com gente na marquise, que ameaçou ruir. Era um tempo, corriqueiramente, com públicos acima de 50 mil espectadores, mesmo em jogos locais, caso do Clássico Rio-Nal, entre Rio Negro e Nacional.
A partir daí, a memória mais vibrante do futebol amazonense, nas últimas três décadas, remete ao São Raimundo. Em 1999, o clube foi vice-campeão da Série C, garantindo lugar na Série B, onde permaneceu por seis temporadas seguidas. Era a época em que o governo estadual estimulava o futebol com o programa de troca de Nota Fiscal por ingressos.
Os estádios lotavam. O Vivaldão, já ma versão com assentos individuais, registrou recorde de público (dessa versão) no jogo São Raimundo x Fluminense, pela Série C de 1999, com cerca de 55 mil espectadores. E note que a Seleção Brasileira chegou a jogar várias vezes em Manaus, no mesmo local e no mesmo período.
O futebol era espetáculo coletivo e cotidiano, com arquibancadas pulsando como extensão das ruas da cidade.
Hoje, o cenário é outro. O Amazonas FC, único representante do Estado na Série B, enfrenta dificuldades para atrair torcedores e opta por mandar seus jogos no menor estádio da capital, o Carlos Zamith. Mesmo com o Ismael Benigno e a Arena da Amazônia disponíveis, as partidas da Onça-pintada ocorrem diante de arquibancadas quase vazias, em contraste com o passado de superlotações.
O time agoniza na segunda divisão, distante da vibração que poderia marcar a presença de um clube amazonense em competições de visibilidade nacional.
Paradoxalmente, o futebol amazonense vive um dos momentos mais organizados de sua história. Todas as categorias, do Sub-8 ao profissional, no masculino e no feminino, têm campeonatos estruturados. No interior, a antiga competição intermunicipal ganhou fôlego renovado com a Copa da Floresta, que hoje mobiliza comunidades e mantém viva a paixão local.
Mesmo assim, parece faltar consciência sobre a importância de ter um time do Estado na Série B — e, quem sabe, futuramente, na Série A. Em um cenário de transmissões nacionais, com o nome de Manaus exposto ao país, a ausência de público é um vazio que ecoa mais alto do que o grito de gol.
O futebol amazonense guarda lembranças de arquibancadas cheias e conquistas que projetaram o Estado no cenário nacional. Mas o presente pede reconciliação entre clube e torcida. Ter um time na Série B — e eventualmente na elite — não é apenas resultado esportivo: é vitrine para a cidade, identidade para o povo, projeção para toda a região.
Resta saber se os amazonenses voltarão a enxergar essa importância e a ocupar as arquibancadas, devolvendo ao futebol local o aplauso que ainda ressoa nas memórias do Vivaldão.
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