Segundo a UNESCO, existem oitocentos milhões de analfabetos no planeta. Como Houaiss e Aurélio são concordes em que o termo diz respeito à pessoa que “não conhece (desconhece) o alfabeto” ou que “não sabe ler e (nem) escrever”, impõe-se a triste conclusão de que quase um bilhão de seres humanos estão impedidos de obter uma visão minimamente correta do universo em que vivem. E, sem esse conhecimento, de transformá-lo com o intuito de conseguir melhores condições de vida.
A quem pode interessar a manutenção de um quadro dessa ordem? Se houvesse uma eleição, minha primeira opção de voto seria para os fazedores de guerras, incluídos na categoria os governantes irresponsáveis e toda a malta da indústria bélica que, insaciável, não pode prescindir da perspectiva de que, em algum lugar e a qualquer hora, haja alguém disposto a tirar a vida de seus semelhantes, sejam eles soldados ou simplesmente mulheres, velhos e crianças.
Depois, olharia para os que se locupletam do trabalho alheio, vivendo à tripa forra com o vil produto da especulação financeira. Que interesse podem ter eles em que a maioria venha a compreender que dinheiro sozinho não tem condições de parir mais dinheiro? Já ouço ao longe o eco das severas repreensões.” É incorrigível esse tal de Valois”. E sou mesmo porque, por mais que me esforce, não me é dado alcançar uma razão que seja para a minoria desfrutar de benesses que chegam ao esbanjamento do luxo mais supérfluo, enquanto a maioria consegue apenas sobreviver com o mínimo de dignidade. E olhe lá!
Dos oitocentos milhões detectados pelas Nações Unidas, a notícia que me chegou às mãos não informa quantos estão radicados no Brasil, nem, muito menos, quantos pululam em nossos parlamentos e nos postos de mando executivos e judiciários deste imenso país, onde a mania de haver mais caciques do que índios parece ser um defeito de difícil reparação.
Seria conveniente (mas, contraditório, é claro) que as autoridades pudessem regionalizar os dados já obtidos. Talvez com isso pudéssemos vir a entender o que levou um deputado das Minas Gerais a apresentar um projeto de lei obrigando à “criação de cartão de identificação para transexuais e travestis junto ao SUS”, devendo constar “o nome feminino adotado pela pessoa, a data de nascimento, dados da carteira de identidade original e uma foto atualizada, em trajes de gala”. Neste último caso, o infeliz há de querer exibir para a plebe ignara seus luxuosos e parisienses modelos, recobertos de plumas e paetês.
Poderíamos também chegar a entender outro projeto, este na Câmara Federal, segundo o qual um gênio da raça propõe que os presidiários, condenados a penas de 30 anos de reclusão ou superiores, sejam obrigados a doar um dos órgãos duplos (pulmão, rim ou córnea), além da medula ou um terço do fígado, para os necessitados de transplante. Se fosse prevista, também, a doação de parte do cérebro, o autor da proposta, mesmo condenado a mil anos, podia ficar tranquilo que ninguém iria querer receber a sua inutilidade.
Como os autores dessas duas pérolas devem saber ler e escrever, já se vê que, para eles, só aplicando a outra definição de Houaiss, segundo a qual analfabeto também é alguém “que é muito ignorante, bronco, de raciocínio difícil”.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...