15/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Cinquenta anos depois

Publicado em 10 de dezembro, 2015

Na noite de 11 de dezembro do longínquo ano de 1965, recebíamos o diploma de bacharel em direito, ali mesmo, na sede da velha Jaqueira, fincada na Praça dos Remédios. Esqueleticamente magro, o diretor e professor Abdul Sayol de Sá Peixoto, à chamada nominal feita pelo eterno secretário, doutor Arnaldo Rosas, atribuía o grau a cada um dos formandos, encimando-lhes a cabeça com a borla e pronunciando a fórmula latina “tibi quoque”. Éramos apenas vinte e um rapazes e uma só moça, todos repletos de sonhos e esperanças, acreditando que, conhecendo os fundamentos do que se chama Direito, estávamos prontos para buscar a realização do que se chama Justiça.

Mas meio século é tempo mais que suficiente para materializar sonhos ou, o que é mais comum, fazê-los desvanecer. Já nos formamos com a ditadura militar a pleno vapor, talvez ainda preparando as bases do que estava por vir e que, por incrível pareça, se mostrou pior, muito pior, do que as preliminares. De fato, em 1968 a ditadura nos brinda com a edição do AI-5, documento que conseguia enfeixar em pouco espaço tudo o que havia de ruim, retrógrado e malévolo no pensamento político. Ficamos sem parlamento e os tribunais eram um arremedo de cortes de justiça, feridos que foram no seu âmago a partir da clara interferência no seu próprio órgão supremo. Eram a violência e o terror na sua expressão mais requintada.

Os que ficamos na advocacia, como Alfredo Cabral, Jessé Rocha e eu, estávamos perplexos. Principalmente este humilde escriba que, desde cedo, entabulou namoro firme com o direito penal. Tudo era ameaça à segurança nacional e, numa relação de causa e efeito, tudo era crime contra a dita cuja. Basta lembrar que o falecido senador Fábio Lucena, à época exercendo o mandato de vereador em Manaus, foi processado perante um tribunal militar pelo “nefando crime” de recomendar que o povo rasgasse as guias do IPTU, a seu ver lançado incorretamente.

Havia ainda coisa mais macabra. A garantia constitucional do habeas corpus foi sumariamente suspensa, em se tratando de crimes “políticos”, o que equivalia a bani-la de uma vez por todas, tamanha a profusão de delitos que diuturnamente entravam nessa classificação. Como advogar na área? Ruía a crença, adquirida nos  bancos escolares, de que os princípios do direito ainda permaneciam aqueles mesmos que deram sustentação a toda a civilização e ao império romano, traduzindo-se em “viver honestamente, não fazer mal aos outros e dar a cada um o que é seu”. Para os que têm sede de cultura: “honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere”. Tudo ilusão, porque a ditadura não conhecida princípios.

Depois de mais de duas décadas de escuridão, encobrindo torturas e homicídios, volta-se à legalidade, passo primeiro para a completa reformulação da ordem jurídica nacional, a se perfazer com a promulgação da Constituição da República, no ano de 1988. Estava implantado o que passou a ser conhecido como Estado Democrático de Direito. Novos tempos, é óbvio. Novas instituições e novas esperanças, todas elas supostamente voltadas para assegurar que o povo brasileiro pudesse novamente respirar o ar da liberdade.

Parecia que assim seria até que o primeiro toque de clarim da obscuridade soou aos ouvidos da nação. O primeiro presidente eleito pelo voto direto, depois da ditadura, se embrenha em confusas transações e acaba por perder o mandato por decisão do Congresso Nacional. É certo que foi radicalmente diferente dos tempos ditatoriais. Lá teria bastado o arroubo de um coronel mais façanhudo, com o apoio de um general estrelado e encasmurrado, para que a vontade popular fosse colocada de escanteio e simplesmente desconsiderada. Foi, porém, de qualquer sorte, o alerta inicial sobre o que viria a se erigir no inimigo comum, recebendo o genérico e singelo nome de corrupção. E como cresceu o inimigo!

Incentivou-lhe a tendência para o gigantismo a ascensão do PT ao poder, em 2002, com as políticas demagógicas e paternalistas, implantadas e fomentadas por essa triste figura que é o senhor Luís Inácio Lula da Silva. Sucedido por Dilma Roussef na presidência da República, a coisa degringolou de vez, levando o país ao estado desesperador em que se encontra. O mais grave, porém, e para o ponto que interessa a este texto, é que o combate à corrupção tem levado os organismos dela incumbidos a ultrapassarem de muito a fronteira do respeito aos direitos fundamentais, ao argumento de que, sendo o inimigo poderoso, a guerra contra ele há de ser sem quartel. Daí vêm as espetaculosas operações policiais, durante as quais foram expostas à execração milhares de pessoas, em favor das quais deveria prevalecer a presunção de não culpabilidade, mais conhecida como presunção de inocência.

Pois é. Cinquenta anos de formado para ver meu país, ao qual devoto todo o meu amor patriótico, entre à irresponsabilidade e à chacota. Os que, da minha turma, já se foram (Luís Augusto Santa Cruz Machado, Sidnei Trigueiro e Wenceslau Queiroz) estão livres do vexame. Aos demais que, como eu, permanecem neste “vale de lágrimas, transmito meus cumprimentos que, se não podem ser alegres, são pelo menos sinceros, transmitindo a certeza de que não é roubalheira exacerbada que pode macular o grau que recebemos. Ele há de estar, sempre e acima de tudo, a serviço do Brasil.

 

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.