24/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Simas Vieira

Publicado em 06 de agosto, 2015

A noite manauense está sem luar e um luto profundo se abateu sobre ela. Calou-se a voz de seu eterno seresteiro. Partiu para a viagem sem retorno João Bosco Simas Vieira. Sua cabeleira era alva como a do poeta que viu no orvalho da madrugada a causa do embranquecimento. E talvez fosse, porque cantar, para Simas, era tão natural quanto respirar e as noites sempre foram curtas para ouvir sua voz, harmônica e melodiosa, espalhar-se pelas ruas e praças desta cidade que o viu nascer e que ele amava. Uma coisa curiosa: não tocava violão. Mas não era preciso. As cordas plangidas por Domingos Lima, Luís Osvaldo, Rinaldo Buzaglo, Ornan Bugalho ou Zico conheciam de longe o seu parceiro e com ele derramavam o som que encantou gerações, festejando a lua, o amor, a alegria ou a tristeza de viver.

Desde o tempo da Maloca dos Barés e da Festa da Mocidade. Para os mais jovens: a primeira ficava na frente de Manaus, ali onde funcionou a Capitania dos Portos, e era propriedade da Rádio Baré. A outra, na avenida Getúlio Vargas, funcionava sob o comando da Rádio Difusora. Isso nos anos cinquenta. Eram ambas locais de shows musicais, onde se apresentavam os melhores artistas amazonenses, muitas vezes como preliminar de nomes nacionais como Nelson Gonçalves e Dalva de Oliveira. Simas Vieira lá estava. Jovem, muito jovem, já revelava a predileção pelo gênero que o consagrou. Era seresteiro de nascença.

Herivelto Martins quis levá-lo para o Rio de Janeiro. Dona Judite, a mãe afetuosa, não deixou. Para a província de cem mil habitantes a capital federal passava a ideia de um mundo estranho e devasso onde, por certo, seria desvirtuada a juventude do rapazola de dezesseis anos, que nem ainda servira ao Exército. Pudores e temores maternos que se autojustificam e que não podem merecer censura por terem privado o restante do Brasil de conhecer o artista que surgiu entre igarapés e igapós. O certo é que Simas ficou entre nós e aqui levou a vida típica da classe média c, trabalhando no comércio, até a conquista do emprego no Banco do Brasil que, naquela época, ainda era sonho luminoso. A ditadura ainda não tinha aviltado salários nem perseguido trabalhadores, até reduzir o banco oficial à condição de simples tamborete comercial, afastado de sua destinação original. Foi lá que conheci Simas Vieira, iniciando uma amizade que se estendeu por mais de meio século e da qual me restou um afilhado, Lúcio Flávio, que, como o pai, enveredou pelos sonoros caminhos da música, da qual ele é hoje professor. Deu-se a inversão: o filho não canta, mas toca e assim está mantida a marca registrada da família.

Não mais que dez amigos temos um ponto de encontro, certo e imutável, onde, sem falhas, nos reunimos a partir dos sábados à tarde. Fica no quintal da casa de nosso irmão Eurivan Reis de Paula e é respeitosamente conhecido como A Sede. Dominó, sinuca, cerveja, uísque e vinho não podem faltar e funcionam sob a supervisão da Dorinha, única mulher a deter o galardão de sediana efetiva. Simas Vieira foi um dos fundadores e sua eventual ausência provocava um vazio imenso porque o momento musical da Sede não atingia sua plenitude sem que sua voz se erguesse, fazendo calar o aparelho de som e interrompendo até o mesmo o jogo de futebol da seleção brasileira.

O seresteiro dava o tom e o pinho, a partir de Zico ou Rinaldo, lançava no ar os acordes que nos embalavam. Não importava quem fosse o cantor original. O repertório de Simas era quase infindável. E vinham então as canções de Orlando Silva, Augusto Calheiros, Nelson Gonçalves, Pixinguinha, todas elas sem qualquer resquício de imitação, pois recebiam a marca registrada do cantor amazonense. Era o Simas demonstrando todo o vigor de sua arte, transmitindo, com singeleza, a essência do cancioneiro popular nacional.

O Carrossel da Saudade foi seu último programa de apresentação pública. Desde os tempos em que funcionava nas dependências da TV Cultura até se tornar itinerante, o programa não podia prescindir do concurso de Simas Vieira que, com sua eterna amiga Kátia Maria, embalava os corações saudosistas dos que frequentam a terceira idade. O Carrossel também já não será o mesmo. Simas já não cantará Zíngara, O Pequenino Grão de Areia ou a Valsa da Despedida. Já não cantará nada. Nem a Canção do Mar, a partir da qual parecia que o acompanhávamos na viagem pelo batel, onde ia bailar além do mar cruel, que, bramindo, afirmava ser propósito do cantor “roubar a luz sem par de teu olhar tão lindo”.

Teu batel partiu, velho seresteiro, querido amigo e compadre. Levou-te com ele e nos deixou a nós todos no cais da saudade e da lembrança. E nem nos disseste aonde ias bailar, sorrir, viver, sonhar e cantar. Simplesmente foste e nós ficamos sem tua voz, sem teu carinho, sem tua bondade. Sem tua voz, não é bem verdade. Meu afilhado Lúcio Flávio me presenteou com a caixa de um dos discos que gravaste. Parca lembrança e triste consolo. Mas quando a Sede avançar pela noite, quando os violões se calarem, quando a última dose de uísque estiver nos estertores, podes ficar certo de que do aparelho de som vai sair tua voz forte, marcante, incomparável e que, então, te visualizaremos no teu batel. Cantando, sorrindo e vivendo. Tudo porque nasceste para cantar. E como o fizeste bem!

 

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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