Há certas coisas que fazem a gente duvidar da própria sanidade. Incidentes corriqueiros, desses a que não se dá importância, mas que provocam momentos de ansiedade diante da impotência para equacioná-los corretamente. Veja o raro leitor o que se deu com este ancião que lhe escreve. Navegava eu pelas águas tranquilas do lago do Mamori, a convite do meu amigo e ex-aluno Jayme Pereira Filho, que ali possui um flutuante, mantido em parceria com o doutor Alfredo Mota Santiago. Tudo corria conforme o que sói acontecer: os peixes não davam a mínima confiança para a isca artificial do meu corrico, na medida em que manifestavam clara preferência pela do proprietário, talvez em razão da intimidade que entre eles se estabeleceu de longa data. Efeitos, talvez, do exercício abusivo do direito de propriedade, coisa a ser resolvida pelos civilistas. E o próprio Jayme o é.
Pois muito que bem. Abria eu uma lata de Itaipava para lhe acondicionar o líquido no meu copo térmico (pescaria sem cerveja é tão inútil quanto mulher sem peito), o sol moreno nos queimava a tez (lembrança de Chico da Silva) e o motor de vinte e cinco fazia a canoa deslizar suavemente. “De repente, não mais que de repente”, vem-me à cachola a palavra “apotegma”. Por quê? Não sei. Mas a danada se infiltrou com firmeza, qual aquela ideia fixa que se balançava no trapézio da mente do Braz Cubas, levando-a cogitar da criação de um emplastro curador de todos os males já vistos e vividos pela humana gente.
Apotegma. Eu já tinha ouvido falar disso. Onde e quando não lembrava e muito menos conseguia atinar com o seu significado. O que, diabos, seria apotegma? Pelo jeitão do termo, vinha-me a sutil percepção de que a coisa tinha origem na Grécia. Descartei logo a possibilidade de se tratar de um descendente de Zeus. Pode até ser bonito o nome, mas não ostenta o alumbramento que era a marca dos habitantes do Olimpo. Não. Definitivamente apotegma não podia ser irmão de Hércules e, muito menos, amante de Temis.
A proporção da angústia só fazia aumentar. Apotegma era a própria Esfinge, desafiando Édipo com a terrível ameaça: “Decifra-me ou devoro-te”. E, do jeito que a coisa caminhava, eu já me via sendo triturado e deglutido por um monstruoso apotegma, sem a mínima possibilidade de ter a sorte do Jonas bíblico que, saboreado por uma baleia, logrou ser expelido do seu ventre. Tudo me dizia que não seria assim e que o apotegma, uma vez saciada sua voracidade, me levaria pelo rio Estige até Hades, de onde nunca mais veria a luz do dia.
No flutuante não havia dicionário. Falha do meu amigo, relevada por conta da finalidade a que se destina o local, onde ninguém, com certeza, poderia ter qualquer preocupação com um apotegma. Cheguei até a tentar, perguntando timidamente da senhora que cuida da casa se ela já tinha ouvido falar da tal coisa. Ela me olhou como se estivesse diante de um extraterrestre, daqueles verdes e de um só olho, fez o sinal da cruz e foi enfática: “Vai-te, satanás! Aqui nunca apareceu peixe nenhum com esse nome e nem o compadre Zequinha, que é o maior mentiroso da região, me falou de ter visto um bicho desses”.
À noite, era imperioso contemplar a lua se refletindo no lago e mudar a navegação para os doces eflúvios do Johnnie Walker de rótulo vermelho. Nem isso adiantou. O apotegma continuava ali, surgindo do contorno da mata, emergindo das águas, voluteando sobre as árvores. “Estou de olho em ti, infeliz. Se insistes em não me reconhecer, não te darei um minuto de sossego e verás que a perseguição dos milicos durante a ditadura era apenas um refresco diante da minha determinação”.
Fosse eu um rei, imitaria o soberano inglês e bradaria em alto e bom tom: “Meu reino por um dicionário”! Perdi a vergonha e perguntei aos circunstantes: “Algum de vocês sabe o que é um apotegma?” Nada. Ninguém sabia e ainda me cantaram o samba do Zeca Pagodinho: “Você sabe o que é caviar? Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”. E lá fui eu para a rede, transportando minha água mineral com gás, na certeza de que Morfeu, apesar de grego, não aliviaria o meu transe. Dito e feito. Não posso dizer que sonhei com o apotegma, porque, sem saber o que era, ele não tomava forma e, sadicamente, apenas se insinuava.
Iniciamos a volta para Manaus num dia belíssimo, cuja luz só era toldada pela única visão que me atingia: o apotegma. Tão logo o telefone celular acusou a existência de sinal, consegui o milagre de, com as operadoras que temos, completar uma ligação. Estava em busca da minha assessoria especializada em assuntos universais. As duas assessoras, minhas netas Helena e Ayla, se achavam indisponíveis no momento, cuidando de administrar as aventuras da Pepa Pig.
Em casa, o Houiass salvador. Lá estava o fim do meu drama: “Apotegma.
Dito ou palavra memorável, lapidar, proferida por personagem célebre; máxima; aforismo”. Quanto tormento me causaste, maldito apotegma. Podes ser lapidar e de origem célebre, mas não tinhas o direito de te imiscuir na minha pescaria. Dou-te uma sugestão: vê se obténs que, pelo menos uma vez na vida, a Dilma consiga te proferir. Terás salvo todo um povo da idiotice mais atroz.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...