14/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O protesto

Publicado em 19 de março, 2015

Não pretendia, mas acabei indo ao protesto. É que a Helena Beatriz, essa minha confiadíssima neta de dois anos, está se tornando especialista em me tirar da cama de madrugada. No domingo, acordou a avó que, por sua vez, se incumbiu de me convencer de comparecer à Praça do Congresso. E fomos, munidos dos respectivos guarda-chuvas, que o tempo não estava lá muito sereno, sujeito a muita água e trovoadas, talvez para botar à prova a firmeza e a resolução dos “protestantes”.

O carro ficou estacionado muito longe, o que já não foi bom. Como não faço parte da “geração saúde”, nunca me convenci dessa necessidade, tida como impostergável, de ficar praticando exercícios físicos, muito menos de andar a pé, atividade que a linguagem atlética apelidou de “caminhar”. Sempre tive presente que, se andar muito fosse sinônimo de vitalidade, os nossos queridos carteiros teriam vida eterna, ou, pelo menos, estariam concorrendo com o bíblico Matusalém. Aliás, o professor Valois nunca teve carro, não andava de ônibus nem de carona, trabalhava de manhã, de tarde e à noite, e foi-se com apenas sessenta anos de idade. Que fique o exemplo, pelo que puder valer.

Mas, sim, e voltando à vaca fria. O carro de som ficou estacionado na confluência da Eduardo Ribeiro com a Monsenhor Coutinho. Não sei quem lhe engendrou a montagem, mas sou forçado a confessar que não consegui entender uma palavra sequer do que disseram os ilustres oradores que se sucederam. Não me é dado, portanto, avaliar a conteúdo nem a dimensão do que foi dito, ficando eu apenas a ver o vai e vem das pessoas. Camisas com as cores da Pátria amada havia muitas. Em profusão, o que se me afigurou um saldo positivo, pois colocou de escanteio o que chamo de “patriotismo de Copa”, quando todos se lembram de que existe um pavilhão nacional. Na minha casa, o “auriverde pendão da minha terra” está permanentemente em exibição frontal.

Enquanto todos tiravam “selfies” (que apelido mais ridículo para autorretrato!), comecei a observar os dizeres que se estampavam nos cartazes espalhados ao longo da avenida. Aí, minha parca inteligência começou a entrar em órbita porque, se alguns eram óbvios e lógicos, outros tinham a marca do enigma, suscitando dúvidas que não logrei superar. Entendi, é claro, os que diziam “Fora, Dilma. E leva o PT contigo”. Também não chego a ser um demente, de forma que era fácil compreender a insatisfação da massa com esse governo caótico que, por mais de doze anos, vem infelicitando o país.

Já não foi tão simples assim quando vi uma alusão à suposta necessidade de privatização da Petrobrás. Por quê? – fiquei eu a me perguntar. Dúvida que se acentuou, e muito, quando a Helena, tatibitateando, me jogou na cara: “Vovô, quando tu eras jovem, vocês não defendiam o monopólio estatal do petróleo?” Verdade verdadeira. A campanha “o petróleo é nosso” foi a grande bandeira nacionalista dos anos cinquenta e início dos anos sessenta do último século. A Petrobrás surgiu como o coroamento da busca pela preservação dessa riqueza mineral e teve uma trajetória condigna. Foi assaltada, é certo. Parece que ainda continua a ser, desde que sejam procedentes as notícias da mídia. Mas, e daí? Será que a gatunagem, organizada ou não, terá o poder de desconstituir conquista tão memorável? Fio que estão confundindo viaduto com veado adulto, ou pato no tucupi com entupir o pescoço francês do pato.

Não foi o fato de a Petrobrás ser estatal que ensejou a roubalheira. A licenciosidade com que o governo a vem tratando talvez esteja mais próxima da origem do assalto. O sistema franciscano (e São Francisco não deve gostar nada dessa deturpação) do “é dando que se recebe” fez com que os apaniguados governamentais se encastelassem na empresa, fazendo jorrar, não Petróleo, mas um caudal de falta de vergonha e de abundância de dólares. Privatizá-la, como forma de solução para estancar a nefasta ação da quadrilha, há de ser tão eficaz quanto a providência do marido enganado, que mandou jogar fora o sofá em que a mulher foi flagrada na prática adúltera. Era, a seu ver, a forma de coibir a reiteração do gesto.

Mas a coisa ficou mesmo impossível de compreender, pelo menos para mim, foi quando vi um cartaz pedindo a volta dos militares ao poder. Que que é isso, minha gente? Ditadura de novo? Como diziam as crianças do meu tempo: quero que Santa Luzia me cegue se dá para assimilar tamanha asnice. É de tal vulto a estupidez da pretensão que proporcionou à acuada Dilma a oportunidade de revidar a ignomínia com um tapa desferido com luva de pelica: “Valeu a pena lutar pela democracia”.

De novo a Heleninha a me cutucar: “Vovô, na ditadura vocês não conseguiam fazer um protesto desse tipo, né?” Dei-lhe um beijo. Não que para isso eu precise de motivação tão grande quanto a embutida nessa demonstração de lucidez. Faço-o por brincadeira e a toda hora. Mas, no caso, foi pura emoção porque a conquista do estado democrático e de direito foi uma luta duríssima de toda uma geração, da qual muitos foram mortos ou torturados pela causa.

Sábia Heleninha. Alcançaste entender o que muito marmanjo de borla e capelo não consegue sequer lobrigar.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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