
Mulheres sem o benefício tiveram risco de mortalidade 17% maior. (Foto: Roberta Aline/MDS)
Mulheres de baixa renda beneficiárias do Bolsa Família que vivem em municípios com alto nível de desigualdade apresentam incidência menor de morte por câncer de mama em comparação com as não beneficiárias, apontou uma pesquisa do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde (Cidacs) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia. As conclusões foram publicadas na revista científica Jama Network e divulgadas pela Fiocruz nesta sexta-feira (2).
O estudo analisou informações de mais de 20 milhões de mulheres adultas registradas no Cadastro Único do governo federal e indica que, quanto maior a disparidade de renda nos municípios, chamada de segregação na pesquisa, maior é o risco de morte por câncer de mama.
Quando as pesquisadoras dividem essas mulheres de baixa renda entre aquelas que recebem e as que não recebem o Bolsa Família, constatam que as mulheres que não são beneficiárias têm um risco de mortalidade por câncer de mama 17% maior em comparação com as beneficiárias do programa.
O estudo resulta da colaboração entre pesquisadores do Cidacs/Fiocruz Bahia, da Faculdade de Epidemiologia e Saúde da População da London School of Hygiene and Tropical Medicine, do Ubuntu Center on Racism, Global Movements and Population Health Equity da Universidade Drexel, do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia e do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Foram utilizados dados de 2001 a 2015 do Cadastro Único do governo federal, que inclui mais de 114 milhões de brasileiros de baixa renda (quase 55% da população do país).
Das mulheres pesquisadas, 53,3% eram pardas, 32,8% eram brancas, 8,2% eram pretas, 0,5% eram indígenas e 0,4% eram asiáticas.
O estudo revela que a taxa de mortalidade por câncer de mama em municípios com baixa segregação foi de 6,4 mulheres a cada 100 mil habitantes. Em municípios com média segregação, a incidência atinge 6,7, enquanto nos municípios com alta segregação de renda, esse índice é ainda maior, com 8,2 óbitos a cada 100 mil.
Mulheres que recebem o Bolsa Família e residem em cidades mais desiguais têm um risco de morte por câncer de mama 13% maior que a média, enquanto aquelas que não recebem o benefício e vivem nessas cidades enfrentam um risco 24% maior. Os dados indicam que mesmo em uma cidade segregada, o programa reduz o risco.
A pesquisadora Joanna Guimarães, associada ao Cidacs/Fiocruz Bahia, destaca a importância do estudo ao abordar que a maioria das pesquisas sobre o impacto do Bolsa Família na saúde se debruça sobre saúde infantil e doenças infecciosas, explorando menos a saúde da mulher.
“A pesquisa mostrou o resultado de uma política pública, o Bolsa Família, na redução das desigualdades na mortalidade por câncer de mama em mulheres. Isso se deve possivelmente ao aumento da renda familiar e com isso maior acesso a medicamentos, alimentação de qualidade e acesso a serviços de transporte, permitindo a busca por serviços preventivos de câncer, como a realização de mamografia, em outros locais”, afirmou a pesquisadora à Agência Fiocruz de Notícias.
Ela defende que o estudo tem implicações políticas, pois sugere a inclusão do rastreamento e exame clínico das mamas entre as condicionalidades do Bolsa Família. A conclusão se dá a partir da constatação de que tais condicionalidades impõem uma maior utilização dos serviços de saúde, aumentando a detecção precoce e potencialmente reduzindo a mortalidade.
Agência Brasil
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