
Garantido gastou mais, diz presidente, anunciando apoio da torcida e “movimento” dos quatro principais apoios do Festival de Parintins: Governo do Estado, Prefeitura, TV A Crítica e Maná Produções (que recebe percentuais de patrocínio da Lei Rouanet)
“O Garantido está pronto. Está bonito, 90% pronto agora e 100% até sexta (23/06)”. A afirmação é do presidente do bumbá, Antonio Andrade, em entrevista ao radialista Gil Gonçalves, na manhã desta quarta (21/06). Ele desencadeou uma crise ao dizer, em carta, que o bumbá precisa de dinheiro suplementar para ser concluído. Hoje, Andrade, a diretora financeira, Ana Miranda, e a integrante da Comissão Geral de Espetáculos (DGE), Djanne Senna, disseram em coro, sobre o Garantido participar ou não do Festival, dias 30/06, 01 e 02/07: “É claro que participará!”
O Garantido tinha R$ 8 milhões, líquidos, para gastar com a apresentação deste ano. O valor, que teria sido o mesmo do ano passado, quando (os dirigentes disseram) o bumbá passou por um vexame, seria insuficiente. “Fizemos um grande cenário e não alegorias. Não deu certo”, em 2022, disse Andrade. Em 2023, o Garantido simplesmente botou para gastar, contando com os patrocínios da Petrobras (R$ 1,5 milhão para cada) e outras empresas, que não aconteceram. “Ficou para o ano que vem e este ano tivemos só os Correios a mais”, disse Andrade. Em resumo, o Garantido gastou mais do que recebeu.
Este ano, segundo os dirigentes disseram na entrevista, o Garantido está fazendo alegorias de três andares. “Só em ferro bruto, roldanas, movimentos etc. gastamos R$ 3,5 milhões”, informaram.
A já famosa carta com o pires na mão, só chegou ao conhecimento público por causa de vazamento. “Só eu e minha secretária tínhamos conhecimento. E ela é mais dura que eu. Não sei como vazou”, disse.
O documento, no qual o presidente revela a opção entre entrar na arena ou pagar o funcionalismo, teria sido dirigido apenas ao governador Wilson Lima, o prefeito Bi Garcia, o dirigente da Maná Produções, André Guimarães, e o diretor da Rede Calderaro/ TV A Crítica, Dissiquinha. Mas chegou à imprensa e às redes sociais.
O vermelho e branco recebeu, líquidos, R$ 12.336.569,00. O gasto projetado para este ano com a apresentação é de R$ 13,056 milhões, conforme a tesoureira do bumbá. Falta, segundo a calculadora, R$ 719.431,00. Por quê o bumbá pede até R$ 2,5 milhões? “É para a manutenção do patrimônio, como a Cidade Garantido”, disse Antonio Andrade.
Uma fonte, bem informada sobre o Festival Folclórico de Parintins, afirma que o valor líquido que cada bumbá recebeu, este ano, chega perto dos R$ 13,6 milhões. A diferença para o “líquido”, apresentado pela diretoria do Garantido, se refere a descontos obrigatórios que o bumbá tem, por dívidas anteriores.
Em determinado momento da entrevista, o presidente chegou a deixar escapar: “Tem outras coisas, até indizíveis”, mas não deu maiores detalhes. Ele disse que há um grupo de WhatsApp, onde participam presidente, financeiro e DGE, no qual são discutidas as prioridades para gastos.
Um momento curioso da entrevista foi quando os dirigentes falaram sobre o dinheiro do Grupo Samel. A empresa arrematou o curral do Garantido, por R$ 1,5 milhão. Agora, em acordo celebrado com a Justiça do Trabalho, ontem (20/06), o valor foi entregue para pagamento de dívidas trabalhistas.
“O Caprichoso também recebeu esse dinheiro”, disse Andrade. O presidente do azul e branco, Jender Lobato, que ouvia a entrevista, ligou, imediatamente, para negar. “Aceitamos, como contribuição ao Garantido, que a Samel nos pagasse R$ 600 mil, apenas”, revelou a este portal. A norma é que valores de patrocínios sejam divididos, meio a meio, em partes rigorosamente iguais, entre os dois bumbás.
Dos R$ 1,5 milhão recebidos pelo Garantido, R$ 170 mil foram liberados pelo juízo do Trabalho de Parintins, ano passado. Sobraram R$ 1,330 milhão, a parte agora entregue à Justiça.
O radialista Gil Gonçalves foi incisivo na entrevista. Lembrou que o dinheiro pago aos dois bumbás é igual e que, contra R$ 3 milhões em dívidas pagos pelo Garantido, o Caprichoso pagou mais de R$ 5 milhões.
Gil também “cutucou” Antonio Andrade ao dizer que, quando o governador era Amazonino Mendes, o também presidente daquela época, Antonio Andrade, fez a mesma coisa: disse que o boi não entraria na arena por falta de recursos.
Andrade, que, na noite de ontem (21/06), recusou um apelo para renunciar, afirma que está tendo apoio da galera e o dinheiro virá. “Estamos sentindo que há um movimento dos quatro (Governo, Prefeitura de Parintins, Maná e A Crítica) para ajudar. O prefeito adiantou o dinheiro do som. Maná também se movimenta. Há quatro dias, o negócio estava difícil, mas agora a torcida está doando coisas para o boi”, disse. Gil reagiu ironicamente: “Não vá me inventar, a essa altura do campeonato, livro de ouro de novo, pelo amor de Deus.”
O Garantido, definitivamente, está “pagando sem contar e recebendo sem conferir”. Antonio Andrade revelou que o bumbá está “importando” (de Manaus) 271 pessoas, só na parte cênica e coreográfica, precisando alimentá-los com comida e transporte. “Contando com os locais são mais de 400 pessoas”, revelou o presidente. São os integrantes de grupos de dança, profissionais, que participarão da cênica do bumbá.
Só os caçawerés, trabalhadores braçais, que empurram as alegorias entre a Cidade Garantido e o Bumbódromo, custarão quase R$ 400 mil, disse o presidente.
“Nós precisamos desse recurso ou o boi entrará todo mundo aborrecido, fazendo greve. Como é que vamos ganhar desse jeito?”, enfatizou o presidente.
“Ano passado o erro foi da DGE e este ano o presidente da Comissão de Artes é o Antonio Andrade. Não pode errar”, finalizou Gil Gonçalves.
Gastar mais do que recebe é, simplesmente, o princípio da má administração.
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