24/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Garantido gastou mais do que recebeu, diz Antonio Andrade

Publicado em 21 de junho, 2023

Garantido gastou mais

Garantido gastou mais, diz presidente, anunciando apoio da torcida e “movimento” dos quatro principais apoios do Festival de Parintins: Governo do Estado, Prefeitura, TV A Crítica e Maná Produções (que recebe percentuais de patrocínio da Lei Rouanet)

“O Garantido está pronto. Está bonito, 90% pronto agora e 100% até sexta (23/06)”. A afirmação é do presidente do bumbá, Antonio Andrade, em entrevista ao radialista Gil Gonçalves, na manhã desta quarta (21/06). Ele desencadeou uma crise ao dizer, em carta, que o bumbá precisa de dinheiro suplementar para ser concluído. Hoje, Andrade, a diretora financeira, Ana Miranda, e a integrante da Comissão Geral de Espetáculos (DGE), Djanne Senna, disseram em coro, sobre o Garantido participar ou não do Festival, dias 30/06, 01 e 02/07: “É claro que participará!”

O Garantido tinha R$ 8 milhões, líquidos, para gastar com a apresentação deste ano. O valor, que teria sido o mesmo do ano passado, quando (os dirigentes disseram) o bumbá passou por um vexame, seria insuficiente. “Fizemos um grande cenário e não alegorias. Não deu certo”, em 2022, disse Andrade. Em 2023, o Garantido simplesmente botou para gastar, contando com os patrocínios da Petrobras (R$ 1,5 milhão para cada) e outras empresas, que não aconteceram. “Ficou para o ano que vem e este ano tivemos só os Correios a mais”, disse Andrade. Em resumo, o Garantido gastou mais do que recebeu.

Este ano, segundo os dirigentes disseram na entrevista, o Garantido está fazendo alegorias de três andares. “Só em ferro bruto, roldanas, movimentos etc. gastamos R$ 3,5 milhões”, informaram.

 

Vazamento

A já famosa carta com o pires na mão, só chegou ao conhecimento público por causa de vazamento. “Só eu e minha secretária tínhamos conhecimento. E ela é mais dura que eu. Não sei como vazou”, disse.

O documento, no qual o presidente revela a opção entre entrar na arena ou pagar o funcionalismo, teria sido dirigido apenas ao governador Wilson Lima, o prefeito Bi Garcia, o dirigente da Maná Produções, André Guimarães, e o diretor da Rede Calderaro/ TV A Crítica, Dissiquinha. Mas chegou à imprensa e às redes sociais.

 

O dinheiro esmiuçado

O vermelho e branco recebeu, líquidos, R$ 12.336.569,00. O gasto projetado para este ano com a apresentação é de R$ 13,056 milhões, conforme a tesoureira do bumbá. Falta, segundo a calculadora, R$ 719.431,00. Por quê o bumbá pede até R$ 2,5 milhões? “É para a manutenção do patrimônio, como a Cidade Garantido”, disse Antonio Andrade.

Uma fonte, bem informada sobre o Festival Folclórico de Parintins, afirma que o valor líquido que cada bumbá recebeu, este ano, chega perto dos R$ 13,6 milhões. A diferença para o “líquido”, apresentado pela diretoria do Garantido, se refere a descontos obrigatórios que o bumbá tem, por dívidas anteriores.

Em determinado momento da entrevista, o presidente chegou a deixar escapar: “Tem outras coisas, até indizíveis”, mas não deu maiores detalhes. Ele disse que há um grupo de WhatsApp, onde participam presidente, financeiro e DGE, no qual são discutidas as prioridades para gastos.

“Compramos com oito, nove propostas. Se alguém desviou um centavo do boi deve receber um título de gênio”, enfatizou.

 

Dinheiro da Samel

Um momento curioso da entrevista foi quando os dirigentes falaram sobre o dinheiro do Grupo Samel. A empresa arrematou o curral do Garantido, por R$ 1,5 milhão. Agora, em acordo celebrado com a Justiça do Trabalho, ontem (20/06), o valor foi entregue para pagamento de dívidas trabalhistas.

“O Caprichoso também recebeu esse dinheiro”, disse Andrade. O presidente do azul e branco, Jender Lobato, que ouvia a entrevista, ligou, imediatamente, para negar. “Aceitamos, como contribuição ao Garantido, que a Samel nos pagasse R$ 600 mil, apenas”, revelou a este portal. A norma é que valores de patrocínios sejam divididos, meio a meio, em partes rigorosamente iguais, entre os dois bumbás.

Dos R$ 1,5 milhão recebidos pelo Garantido, R$ 170 mil foram liberados pelo juízo do Trabalho de Parintins, ano passado. Sobraram R$ 1,330 milhão, a parte agora entregue à Justiça.

 

Gil Gonçalves

O radialista Gil Gonçalves foi incisivo na entrevista. Lembrou que o dinheiro pago aos dois bumbás é igual e que, contra R$ 3 milhões em dívidas pagos pelo Garantido, o Caprichoso pagou mais de R$ 5 milhões.

Gil também “cutucou” Antonio Andrade ao dizer que, quando o governador era Amazonino Mendes, o também presidente daquela época, Antonio Andrade, fez a mesma coisa: disse que o boi não entraria na arena por falta de recursos.

Andrade, que, na noite de ontem (21/06), recusou um apelo para renunciar, afirma que está tendo apoio da galera e o dinheiro virá. “Estamos sentindo que há um movimento dos quatro (Governo, Prefeitura de Parintins, Maná e A Crítica) para ajudar. O prefeito adiantou o dinheiro do som. Maná também se movimenta. Há quatro dias, o negócio estava difícil, mas agora a torcida está doando coisas para o boi”, disse. Gil reagiu ironicamente: “Não vá me inventar, a essa altura do campeonato, livro de ouro de novo, pelo amor de Deus.”

O Garantido, definitivamente, está “pagando sem contar e recebendo sem conferir”. Antonio Andrade revelou que o bumbá está “importando” (de Manaus) 271 pessoas, só na parte cênica e coreográfica, precisando alimentá-los com comida e transporte. “Contando com os locais são mais de 400 pessoas”, revelou o presidente. São os integrantes de grupos de dança, profissionais, que participarão da cênica do bumbá.

Só os caçawerés, trabalhadores braçais, que empurram as alegorias entre a Cidade Garantido e o Bumbódromo, custarão quase R$ 400 mil, disse o presidente.

“Nós precisamos desse recurso ou o boi entrará todo mundo aborrecido, fazendo greve. Como é que vamos ganhar desse jeito?”, enfatizou o presidente.

“Ano passado o erro foi da DGE e este ano o presidente da Comissão de Artes é o Antonio Andrade. Não pode errar”, finalizou Gil Gonçalves.

Gastar mais do que recebe é, simplesmente, o princípio da má administração.

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