
Sem conseguir se reeleger deputado estadual, Serafim anuncia que não disputará mais nenhum cargo. Foto: Marcelo Araújo
Os números que emergiram da eleição deste ano representam o fim de toda uma geração de políticos. Sem citar nomes, o deputado estadual Serafim Corrêa dá a entender que nomes como Amazonino Mendes e Arthur Virgílio estão fora dos próximos embates políticos. Ele próprio, Serafim, anuncia que não concorrerá mais a nenhum cargo. “É o fim de um ciclo geracional”, sentencia. Nesta entrevista, exclusiva, o deputado estadual do PSB revela uma conversa íntima que teve com o ex-governador Gilberto Mestrinho. Depois de perder, em 2006, o Boto concluiu que o prazo de validade de um político é 30 anos. “Meu primeiro mandato foi em 1988 e o último em 2018”, atesta Serafim. Veja a íntegra da entrevista:
Serafim Corrêa – Sim. É o fim de um ciclo. Aceitei o resultado, tranquilamente, compreendendo que a nossa geração fez muito, mas o ciclo geracional venceu. Isso está valendo nacionalmente. Olha o (senador José) Serra. Teve 38 mil votos para deputado federal, em São Paulo. Foi governador, senador, deputado federal, ministro… Por quê? A geração dele passou.
Serafim – Prefiro não falar em nomes, até porque são todos meus amigos e não conversei com eles sobre projetos futuros. Ocorre que os últimos sobreviventes da geração de 1980 são o Lula e o Fernando Henrique que, filiado ao PSDB, aos 90 anos, não deve almejar cargos.
Serafim – Tive uma conversa com o Gilberto, no dia seguinte à eleição de 2006, que ele perdeu. Fiz uma visita a ele. Fui dar um abraço. Ele disse que estava bem e que “a vida do político dura 30 anos, a partir do primeiro mandato”. Ele, por conta dos 20 anos que ficou afastado na Ditadura, teve 50, mas os 20 não contam. O ciclo geracional se encerra e vêm as novas gerações. É natural. Tinha acontecido com ele, mas vai acontecer com todos.
Serafim – Meu primeiro mandato foi em 1988 e o último em 2018, exatamente 30 anos depois. Isso vale para mim e vários outros. É só você pegar as fotos dos anos 80 e ver quem está lá e comparar com o que estão fazendo hoje. Foi uma geração vitoriosa. Pegamos o fim da inflação, mudança de poder, alternância de poder. Se você olhar pro palanque das Diretas, só estão vivos Lula e Fernando Henrique, da geração dos anos 1980. Agora é um novo ciclo que se levanta. Não sou candidato a mais nada. A não ser criar os netos, dois rapazes e uma moça. São muito queridos e amados. Mas político eu não vou deixar de ser, mesmo sem ser candidato.
Serafim – Não reivindico e ninguém falou comigo. É um cargo que deve ficar à disposição do presidente Lula. Cabe a ele dar a definição. Ano que vem faço 76 anos. Não devo mais ficar na linha de frente de gestão. Nessa idade, só o Lula, que é um político excepcional, com 77, um ponto fora da curva. Até as próprias regras do serviço público dizem que, aos 75 anos, você se aposenta compulsoriamente. A partir de fevereiro retomo contatos no meu escritório jurídico, fazendo palestras, debatendo a Amazônia…. mas sem ser candidato.
Serafim – O auge foi na Prefeitura de Manaus. Sou muito tranquilo de que fiz tudo que podia para que Manaus fosse uma cidade mais justa. Se você tem 50 prioridades, você não tem nenhuma. Concentrei, com orçamento de R$ 1,1 bilhão no primeiro ano e R$ 1,8 bilhão no último ano, em cinco pontos: 1) resolver o problema da água; 2) coleta e destino final do lixo. O aterro de Manaus é exemplo para todo o Amazonas e diria até o Brasil; 3) transporte coletivo, onde criamos tudo de mais moderno que existe na cidade, bilhetagem eletrônica, passa-fácil… tudo da minha época; 4) iluminação pública. Manaus não tinha. E, progressivamente, Manaus está bem iluminada; 5) facilitação do trânsito. Sem os três viadutos, Miguel Arraes (Mário Ypiranga com Darcy Vargas), Gilberto Mestrinho (Bola do Coroado) e a passagem de nível Antônio Simões (Umberto Calderaro com Ephigênio Sales), ninguém andaria em Manaus. Todas essas prioridades não se traduziram em votos e eu perdi a eleição para o Amazonino.
Serafim – Vou te contar uma história fantástica. A maior reclamação do Zumbi dos Palmares era água. Porque não tinha nem rede de distribuição. Foi feito um reservatório de 40 milhões de litros, no São José, bem na entrada do Zumbi. Fizemos rede, ligações e Zumbi teve água, em junho. No dia da inauguração andei o Zumbi de ponta a ponta, com as mulheres me dando banho de mangueira, uma festa. Quando sai o resultado, eu fui o quarto mais votado: Amazonino primeiro, Omar segundo, Praciano terceiro e eu o quarto. Fizeram uma qualitativa no Zumbi: “Qual era o pleito de vocês?” “Água”. “E o Serafim não fez?” “Fez, mas veio uma conta de R$ 18”. Na compreensão do povo tinha que ter água e não podia ser cobrada. Seria o céu, mas a Prefeitura não tinha e não tem condições de fazer o abastecimento grátis em Manaus.
Serafim – Procurei ser um ponto de equilíbrio. Tive uma postura de independência em todos os governos, respeitei os governantes e procurei votar de acordo com minha consciência. Tenho a consciência tranquila. Mas são coisas que ficaram para trás. Serei um observador atento ao momento político que vamos viver, a partir de 2023. Creio que será um momento de crescimento, desenvolvimento, retomada da alegria. Precisamos distensionar mais ainda. É assustador o nível de agressividade de setores, principalmente bolsonaristas. Inclusive eu brinco que eles ficam pedindo anulação da eleição e vão anular as eleições de governador, senador, deputado federal, estadual… Que vocês acham? O PL fez a maior bancada do Senado. Vai anular essa eleição também?
Serafim – Uma eleição você ganha ou perde por erros, acertos, leituras. Ele foi o antipresidente. Era contra vacina, ciência, estabelecendo uma pauta de ódio, armamento… pautas contra o sentimento do povo brasileiro. O povo quer vacina, saúde, paz, alimento… Ele defende as armas e isso implica em aumento do crime. Temos que buscar a paz, com respeito ao Judiciário, que nunca foi tão agredido, tão vilipendiado. Tem que respeitar e recorrer. Não pode é jogar os fanáticos contra o STF, ofendendo ministros, porque quando ofende um ofende à Corte inteira. É diferente de discordar da decisão de um ministro. Isso se faz com respeito. O Brasil precisa de amor e paz. Basta seguir o Evangelho, como Cristo pregou, e tá tudo bem.
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