“Intitula-se beiradão a margem dos rios principais, onde se fixaram os primeiros desbravadores e permaneceram seus descendentes”, nos ensina Álvaro Maia em seu romance Beiradão.
Partimos do porto de Manacapuru por volta das 10h, em possante voadeira impulsionada por um motor de 150 HP, rumo ao Lago do Mundurucus. Depois de quase uma hora subindo o Solimões, chegamos ao paraná, que dá acesso ao lago, por onde navegamos outros 45 minutos até o nosso destino. Com GPS à mão, constatamos estar a 60KM da sede do Município. Convidamos os moradores para reunião, numa espécie de barracão, chamado por eles de sede, onde nos informaram a respeito de sua realidade.
A localidade tem pelo menos 200 famílias. Só na comunidade onde estivemos são mais de cinqüenta. Há um telefone público recentemente instalado pela Oi (ex-Telemar), mas não funciona. Antenas de celulares a essa distância, também, não são eficazes. Enfim, estão seus moradores privados de comunicação com o mundo exterior. Durante o apogeu da seca, lá pelo mês de outubro, quando ocorrem as eleições, o caminho, que levamos 45 minutos para percorrer de voadeira, só pode ser feito uma parte em canoa, com motor rabetinha e, a outra, a pé mesmo, em alguma horas. Mas antes, é preciso vencer o enorme barranco que se forma e, também, a lama pelo caminho, com bastante cautela e atenção para não se atolar até o meio da perna. Há muitos jovens de 16, 17, 18 anos. E idosos também. Em comum, muitas coisas, mas destaco apenas uma: quase ninguém vota. Os mais jovens porque não têm título de eleitor, e os mais velhos porque não conseguem se deslocar até suas respectivas seções eleitorais, invariavelmente, situadas na cidade.
Explicamos: nossa presença ali era oficial, representávamos o TRE-AM, cuja intenção era consultá-los a respeito da criação de uma seção eleitoral na região para diminuir a distância entre suas casas e o local de votação, o que, uma vez implementado, por um lado ajudaria a reduzir as elevadas taxas de abstenção apresentadas nas sucessivas eleições e, por outro, permitiria nos anteciparmos a problemas bastante comuns nos pleitos, sobretudo nos municipais, como oferecimento de transporte e alimentação em troca de voto por parte de maus políticos.
A lógica é simples e óbvia: a melhor maneira de combater a oferta é diminuindo a demanda. Esperamos evitar, com isso, o deslocamento de 3 mil eleitores da zona rural para a sede de Município, no dia da eleição.
Há os que não concordam e apresentam argumentos do tipo: mas pra quê criar seção eleitoral para 200, 300 pessoas nesses lugares de difícil acesso? Isso é muito caro, é melhor colocar esses eleitores pra votar em locais onde já existe seção.
A esses eu digo: não são os cidadãos que devem resolver os problemas da Justiça Eleitoral, mas justamente o oposto. Caro é as pessoas não terem sua dignidade respeitada. É serem condenadas ao abandono, ao esquecimento e ao atraso.
Visitamos ao todo oito localidades e incontáveis comunidades. E as histórias se repetiram. E “se eu fosse dizer o que sei levaria três noites” como diz Álvaro Maia, que não me canso de citar. Por fim, apenas mais um registro. Esses brasileiros visitados por nós, como de costume, nos receberam bem, nos agradeceram e disseram não mais se esquecer do ocorrido. Eles estão enganados: nós é que jamais esqueceremos os seus rostos de satisfação e alegria de quem, apesar da dureza da vida, insiste em mais do que ter, eles mantêm a esperança.
* Luis Cláudio Chaves é juiz de direito.