As manhãs de domingo são especiais, principalmente quando acompanhadas de um belo dia de sol, daqueles de céu azul. E isto não escapou à percepção do Poeta. Nos Estatutos do Homem, obra prima de Thiago de Mello, está assim consignado: “Artigo II – Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo”.
Pois foi assim o dia de ontem. E saí rumo à feira para comprar um tambaqui e demais ingredientes, a fim de prepará-lo na brasa. Na vida, estamos sempre fazendo umas coisas por obrigação e outras por prazer. Ficar à beira do fogo e depois servir à família e amigos esse prato tradicional da nossa culinária, preparado por mim, se inclui entre as últimas.
Mas não é assim de ir comprando logo o primeiro peixe que encontro pela frente. Na verdade, a coisa segue um determinado ritual.
Primeiro dou uma passada geral em todas as bancas, pergunto o preço dos peixes, prioritariamente dos tambaquis, é claro, mas as matrinchãs, os pacus, as mantas de pirarucu, também interessam. Se encontrar uns tamuatás graúdos, daquelas que aprendi a apreciar em Humaitá, compro na hora.
Ando, ando e ando, mas termino sempre comprando o peixe do mesmo peixeiro de sempre, o Sandro, de quem já sou freguês.
Assado que se preza tem que ter um molho vinagrete, então, vou direto à banca da dona Adriana e, depois de conversarmos algumas amenidades, digo: “Veja pra mim o de sempre, por favor”. E ela separa os tomates, as cebolas, as pimentas de cheiro, as murupis etc.
Claro que não compro essas farinhas de supermercado, a verdadeira uarini-ova só se encontra nas feiras.
Cumpridas essas etapas, é hora de ligar pra casa e perguntar se todos já estão prontos e, acredite, nunca estão. As três mulheres da minha vida, com quem divido o teto, os sonhos, as alegrias e as tristezas são Sylvia Laureana, minha companheira da vida inteira (passado, presente e futuro), Luiza Lydia, minha adolescente, Manoella Lorena, a alegria em pessoa, e o Luis Filho, o mais novo nacionalino da família. Costumam me acompanhar à feira a Manoella ou o Luis, alternadamente, porque reparar os dois, sozinho, não consigo.
Neste último domingo, mudei o itinerário. Não sei o porquê, mas ao invés de ir à feira do Dom Pedro com Alvorada, decidi realizar o ritual na Panair. E, subindo a avenida Leopoldo Péres, principal do bairro do Educandos, na altura da avenida Presidente Kennedy, em frente ao Banco do Brasil, tomei um susto: não é que estavam pendurados uns papagaios de papel com o escudo do Nacional e outros com o do Rio Negro, lado a lado?!!!!.
De repente, era como se o tempo não tivesse passado e eu era um menino de novo a dizer: “Papai compra um papagaio do Naça pra mim?”
Nosso futebol era forte e vivo outra vez. Por um breve momento, vislumbrei nossa juventude desimbecilizada, cultivando seus valores e sua cultura. E, imediatamente, percebi: agora eu era o pai. E parei o carro, comprei uns papagaios, do Naça, obviamente, e tiramos uma fotos juntos. E pra informação de todos que passaram sua infância nesta terra, registro: esses papagaios são fabricados pelo filho do Russo, o que dispensa comentários. E domingo que vem eles estarão lá, de novo, à espera dos que, como eu, cultivam a melhor memória do ser humano, a da infância.
* Luis Cláudio Chaves é juiz de direito.