04/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Um dia de domingo

Publicado em 18 de julho, 2011

As manhãs de domingo são especiais, principalmente quando acompanhadas de um belo dia de sol, daqueles de céu azul. E isto não escapou à percepção do Poeta. Nos Estatutos do Homem, obra prima de Thiago de Mello, está assim consignado: “Artigo II –  Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo”.

Pois foi assim o dia de ontem. E saí rumo à feira para comprar um tambaqui e demais ingredientes, a fim de prepará-lo na brasa. Na vida, estamos sempre fazendo umas coisas por obrigação e outras por prazer. Ficar à beira do fogo e depois servir à família e amigos esse prato tradicional da nossa culinária, preparado por mim, se inclui entre as últimas.

Mas não é assim de ir comprando logo o primeiro peixe que encontro pela frente. Na verdade, a coisa segue um determinado ritual.

Primeiro dou uma passada geral em todas as bancas, pergunto o preço dos peixes, prioritariamente dos tambaquis, é claro, mas as matrinchãs, os pacus, as mantas de pirarucu, também interessam. Se encontrar uns tamuatás graúdos, daquelas que aprendi a apreciar em Humaitá, compro na hora.

Ando, ando e ando, mas termino sempre comprando o peixe do mesmo peixeiro de sempre, o Sandro, de quem já sou freguês.

Assado que se preza tem que ter um molho vinagrete, então, vou direto à banca da dona Adriana e, depois de conversarmos algumas amenidades, digo: “Veja pra mim o de sempre, por favor”. E ela separa os tomates, as cebolas, as pimentas de cheiro, as murupis etc.

Claro que não compro essas farinhas de supermercado, a verdadeira uarini-ova só se encontra nas feiras.

Cumpridas essas etapas, é hora de ligar pra casa e perguntar se todos já estão prontos e, acredite, nunca estão. As três mulheres da minha vida, com quem divido o teto, os sonhos, as alegrias e as tristezas são Sylvia Laureana, minha companheira da vida inteira (passado, presente e futuro), Luiza Lydia, minha adolescente, Manoella Lorena, a alegria em pessoa, e o Luis Filho, o mais novo nacionalino da família. Costumam me acompanhar à feira a Manoella ou o Luis, alternadamente, porque reparar os dois, sozinho, não consigo.

Neste último domingo, mudei o itinerário. Não sei o porquê, mas ao invés de ir à feira do Dom Pedro com Alvorada, decidi realizar o ritual na Panair. E, subindo a avenida Leopoldo Péres, principal do bairro do Educandos, na altura da avenida Presidente Kennedy, em frente ao Banco do Brasil, tomei um susto: não é que estavam pendurados uns papagaios de papel com o escudo do Nacional e outros com o do Rio Negro, lado a lado?!!!!.

De repente, era como se o tempo não tivesse passado e eu era um menino de novo a dizer: “Papai compra um papagaio do Naça pra mim?”

Nosso futebol era forte e vivo outra vez. Por um breve momento, vislumbrei nossa juventude  desimbecilizada, cultivando seus valores e sua cultura. E, imediatamente, percebi: agora eu era o pai. E parei o carro, comprei uns papagaios, do Naça, obviamente, e tiramos uma fotos juntos. E pra informação de todos que passaram sua infância nesta terra, registro: esses papagaios são fabricados pelo filho do Russo, o que dispensa comentários. E domingo que vem eles estarão lá, de novo, à espera dos que, como eu, cultivam a melhor memória do ser humano, a da infância.

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Autor
Luis Cláudio Chaves

* Luis Cláudio Chaves é juiz de direito.

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