
O dia que Manaus ficou sem oxigênio completa 1 ano e a capital vive dias tensos com explosão de novos casos. Fotos: Arquivo
Um ano atrás, Manaus vivia cenas de guerra, mas não aquelas tradicionais, travadas com armas, em campos de batalha, contra um inimigo visível. A guerra em questão, que teve mortes, dores, perdas e danos, era travada quase silenciosamente, contra um inimigo invisível a olho humano, quando nos hospitais da capital-metrópole faltava oxigênio para garantir a sobrevivência de pacientes internados, a maioria entubados, com Covid-19. Era o ápice da crise de oxigênio, na pandemia de janeiro de 2020, quando médicos clamavam por ar para seus internados, entre a vida e a morte.
14 de janeiro, Amazonas na fase roxa (a pior) da pandemia, dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Universitário Getúlio Vargas, o médico cardiologista e intensivista Anfremon D’ Amazonas, usou as palavras que marcaram aquele dia: “Foi dramático, foi assustador. A deterioração do corpo sem o nível de oxigênio é muito rápida. O doente morre de uma forma muito rápida”. Aquele data entrou para uma parte da trágica história da pandemia da Covid na capital.
Quando falta o oxigênio medicinal para quem está entre a vida e a morte, numa UTI, totalmente dependente dele, não há para quem pedir socorro. Com alto risco de transmissão pelo vírus, recordes batidos de internações, sepultamentos e novos casos diários, Manaus vivia uma crise sem precedentes, que foi anunciada, poderia ter impactos reduzidos e mobilizou o Brasil em busca de ar para Manaus. Hoje, 13 de janeiro de 2022, a capital vive outro pico do Covid com a variante Ômicron. Milhares de casos, centenas de pessoas buscando testes e vacinação, mas com menos internados e muito menos mortes. Mas o medo permanece. A pandemia segue.
Naquele período do ano passado, a demanda de oxigênio chegava a 76.500 metros cúbicos (m³) diariamente. No entanto, a capacidade de entrega das empresas era de apenas 28.200 m³/dia, menos da metade. Operações para buscar o produto em diversos pontos do país foram montadas com apoio da Força Aérea Brasileira (FAB) e de empresas aéreas.
As dificuldades de transporte e logística apenas tornavam mais dramática a necessidade de ar de pacientes entubados e que necessitavam de oxigênio imediato para superar o vírus. O que se viu foi desespero de médicos, profissionais e gestores para salvar vidas. “Foi um momento desesperador, tinha muita gente chorando, porque os pacientes morriam e não tinha o que fazer. Cada uma dessas das perdas chocou demais a equipe porque é aquela sensação de impotência. Sabe que aquele doente, naquele momento, precisa de oxigênio e você não tem”, relatou o intensivista em 2020.
E infelizmente não havia ar para todo mundo. Naquela data, o Amazonas registrou 82 mortes por Covid, 76 só em Manaus. No dia trágico em que começou a falta de oxigênio em hospitais da capital amazonense, o registro da Prefeitura nos cemitérios apontava 213 sepultamentos, 102 vítimas da pandemia.
Dados oficiais do Governo do Amazonas apontavam que a demanda por oxigênio nos hospitais cresceu 11 vezes. As empresas fornecedoras, como a White Martins, estavam no limite de produção e sem escape. Não havia como gerar mais O2, não a tempo de salvar vidas. Artistas conhecidos do público fizeram vaquinhas virtuais, doações próprias, pediam cilindros e fretavam voos para trazer oxigênio para os amazonenses, aqueles que tanto os aplaudiam em shows e apresentações.
“O Hércules C-130 da FAB, um dos maiores cargueiros do mundo, é capaz de transportar o equivalente a 6 mil metros cúbicos [por viagem]. Um Boeing cargueiro pode transportar entre 200 e 300 cilindros de oxigênio gasoso, ou o equivalente a 3 mil metros cúbicos. Precisamos de 70 mil metros cúbicos diários. Por isso, além de uma ponte aérea, temos uma ponte fluvial [o transporte por rios]. E ainda precisamos ter uma ponte terrestre, com carretas”, alertava o então ministro da Saúde, o carioca-amazonense Eduardo Pazuello, general de reserva que se mostrou um gestor meia bomba. Falava, informava que o Amazonas estava sendo atendido em todos os pedidos, mas nos hospitais faltava o básico para salvar pessoas: o ar.
Durante o transporte de cilindros, eles eram escoltados pela polícia. Temia-se que poderia ocorrer alguma tentativa de furto. Centenas de famílias estavam atrás para parentes que enfrentavam o vírus em casa, mas que também precisavam do produto. A demanda saltava de todos os lados. Socorro era a palavra mais ouvida.
Mas foi pior. Não só o ministro tinha todos os dados sobre a crise antes dela se instalar, como anunciou publicamente durante os balanços das ações da sua pasta. Pazuello voltou Brasília e passou a ficha ao chefe, ao presidente da República, Jair Bolsonaro, como se a questão estivesse resolvida. Tanto que Bolsonaro, numa das declarações na porta do Palácio do Alvorada, disse que o governo havia feito “tudo o que pode” pelo Amazonas e que “foi preciso uma intervenção” para “resolver o problema”, que levou à crise atual. Não houve salvador da Pátria naquele momento. Houve uma mobilização nacional, humanitária, para buscar oxigênio onde ele estivesse, pelo ar, estradas e pelos rios.
Um dia antes do colapso de oxigênio na rede hospitalar de Manaus, a Força Nacional do SUS enviou um relatório informando a escassez de oxigênio, inclusive com a previsão de quando ocorreria o colapso.
“Prioridade ZERO do Estado do Amazonas é a falta de oxigênio. Nível muito crítico”, diz o relatório da Força Nacional do SUS do dia 13/01. “O colapso vai acontecer na madrugada de hoje. Não existe O2 para repor durante a madrugada. Todas as médias de projeção foram quebradas hoje durante o dia”. No dia seguinte, 14/01, vários hospitais de Manaus, inclusive o Getúlio Vargas (HUGV), de gestão federal, amanheceram sem oxigênio, levando à morte vários pacientes.
Posteriormente, a Advocacia-Geral da União (AGU) referendou que o Ministério da Saúde teve conhecimento da escassez no estoque de oxigênio no estado no dia 8 de janeiro.
Os relatórios de técnicos da Força Nacional do SUS mostram, dia após dia, a evolução da crise de escassez de oxigênio na cidade. Foram encaminhados relatórios ao Ministério da Saúde nos dias 8, 9, 11, 12 e 13/01.
O primeiro relatório da Força Nacional do SUS, do dia 8, já continha uma anotação sobre a crise de oxigênio. “Foi mudado o foco da reunião, pois foi relatado um colapso dos hospitais e falta da rede de oxigênio”. O relatório também aponta “dificuldade crítica nos respiradores (oxigênio)” dos hospitais que atendem pacientes com covid-19. Aqui cabe perfeitamente a constatação de “morte anunciada”.
Com o colapso instalado e sem previsão imediata de solução, pacientes moderados e estáveis começaram a ser transferidos para outras cidades para receber tratamento e, principalmente, oxigênio para manutenção da vida. “A demanda surpreendeu um dos maiores conglomerados de gás medicinal do mundo, que está tendo dificuldade”, disse o na época secretário de Saúde do Estado, Marcellus Campêlo.
Carretas cruzavam e atolavam na BR-319 para trazer mais oxigênio, o que levaria dias. Mais dezenas de pacientes entubados não poderiam esperar. Era preciso liberar O2 para eles, transferindo outros doentes menos críticos.
Na mesma época, havia 60 recém-nascidos (neonatais) que seriam transferidos para outros Estados, mas, os médicos avaliaram que o risco da viagem era muito grande e decidiram mantê-los na capital amazonense.

De volta aos corredores do Hospital Universitário Getúlio Vargas, no dia 14 de janeiro de 2020, médicos que não estavam de plantão, ao saberem que o oxigênio estava acabando, dentro de horas e minutos, foram para a unidade. Solidariedade e resposta ao pedido de socorro. A equipe tomou condutas rápidas e eficientes na falta de O2. Primeiro colocaram todos de bruços (pronar, no linguajar médico), para melhorar a oxigenação. Depois, a corrida para trazer pequenas quantidades de oxigênio usadas em outros setores do hospital, as chamadas balas, que são usadas para transporte intrahospitalar, quando o paciente precisa se deslocar para fazer exame ou cirurgia.
E muitos foram mantidos e salvos no esforço físico, quando profissionais ambuzam os pacientes, com os respiradores manuais, que precisam das mãos e da força humana. Ambu é o nome da empresa que desenvolveu o respirador manual e a sigla em inglês para “Artificial Manual Breathing Unit” (Unidade Manual de Respiração Artificial).
Foi feito racionamento, foi dramático, assustador. Essa frase ecoa ainda hoje, em meio a lembranças de profissionais que fizeram juramento para salvar vidas, que no colapso corriam atrás de válvulas, balas de oxigênio e ficavam ao lado dos doentes. A então segunda onda da Covid parecia estar ganhando aquela batalha. Combinações perigosas de aglomeração, vírus mais agressivo, doentes piorando rapidamente, clima pesado com as chuvas. Havia um cheiro de morte no ar naqueles dias, de desesperança.
E naquele cenário sombrio e crítico, todos os hospitais seguiam lotados. Ainda não havia vacinação e sobravam os discursos de tratamento precoce e a cloroquina. E a corrida desesperada tanto para transportar cilindros de oxigênio na própria capital como para importar o insumo até via fluvial e área, de outras partes do país, seguiu por dias. Num loop infinito.
Hoje, 13 de janeiro de 2022, com uma nova variante, a Ômicron, a rede de saúde em breve pode entrar em situação crítica e os números de contaminados novos pularam de quase 300, na segunda-feira, para mais de 1.200, 24 horas depois.

O engenheiro Roberto Magno Ramos de Oliveira, 66 anos, foi um dos responsáveis pelo transporte de oxigênio por terra para Manaus. Foram 160 mil metros cúbicos do produto, suficientes para abastecer a capital por dois dias, naquele janeiro bem sombrio de 2020. “Pensei que já tinha vivido tudo nessa BR, mas o que vivemos nesses quatro dias foi demais”, disse.
O comboio, que contou com apoio de policiais rodoviários federais e retroescavadeiras da empresa que faz manutenção, viajou quatro dias. As carretas tiveram que ser arrastadas por atoleiros, no chamado “trecho do meio”. São cerca de 400 quilômetros sob intenso lobby ambientalista, que trabalha contra o asfaltamento.
A rodovia BR-319 liga Manaus a Porto Velho. A capital rondoniense tem ligação rodoviária com o resto do Brasil. O asfaltamento completaria a ligação por estrada dos dois únicos Estados brasileiros sem essa infraestrutura, o Amazonas e Roraima, este ligado a Manaus pela BR-174, que é asfaltada.
“O pulmão do mundo está sem oxigênio. Isso é uma vergonha. E nós temos uma rodovia que poderia facilitar. A gente poderia gastar um dia (de viagem) e gastamos quatro, com tanto sacrifício”, disse à época, o engenheiro.
Vídeos da chegada das carretas que traziam oxigênio para Manaus via BR-319 (Manaus-Porto Velho) circularam nas redes sociais e durante a passagem delas pelas cidades do Careiro e Careiro da Várzea os moradores aplaudiam. O comboio de sete carretas, transportando 160 mil metros cúbicos de oxigênio, entrou para a história do enfrentamento à pandemia.

Por Cláudia do Valle