Na ditadura militar, quem não pensava rigorosamente igual aos donos do poder era considerado inimigo do Brasil. Não foi à toa que proliferaram adesivos e cartazes com o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o que remete a duas vertentes de considerações. Primeiro a incontrolada subserviência ao pensamento e interesses estadunidenses, que, à época, se encontravam em nível elevado de expansão imperialista. De tal forma, que o slogan nada mais era que uma tradução direta e literal do mesmo que se usava na república do norte, qual seja “America, love it or leave it”. Literal e tola porque, no original, existe uma aliteração que explica e sustenta o espírito da afirmativa, coisa que não se podia dar na versão em língua portuguesa. Por isso mesmo, o incomparável Millor Fernandes sugeriu que os militares poderiam ter tentado o mínimo de originalidade, divulgando “Brasil, ame-o ou mame-o”.
Ao depois, e parece-me o principal, é no mínimo curiosa a opção posta. Quem não ama o país deve procurar o exílio. A voo de pássaro, pode parecer correta. Se não amo minha terra, que a deixe e vá à cata de outra onde possa me sentir bem. Acontece, porém, que a coisa não pode ser encarada dessa forma maniqueísta, precisamente porque não se esclarece o conceito de amor à pátria. Ora, como dito, os militares tinham como inimigos todos os que não lhes seguissem a cartilha, o que impõe a conclusão de que, por simples divergência ideológica, milhões de brasileiros, eu inclusive, teriam que se escafeder, deixando a “doutrina da segurança nacional” em campo e livre e aberto para se expandir.
Mas, na verdade, patriotismo, entre nós, nunca teve a dimensão conceitual que seria de se esperar. Mesmo antes da ditadura, havia uma noção errônea e difusa de que ser patriota era cultuar os símbolos nacionais, como a bandeira e o hino. É isso, também, mas está longe de ser só isso. Fora apenas isso e estaríamos muito bem servidos, pelo menos em tempos de Copa do Mundo, quando as cores do pavilhão enchem ruas e estádios, a partir de uma vibração quase histérica, e o hino é ouvido com a emoção que deve provocar mesmo que não se esteja diante de uma bola de futebol.
Tenho que, antes das manifestações formais de respeito aos símbolos, deveria de haver o cultivo incessante de um sentimento de orgulho pelo só fato de ser brasileiro. Aí, cuido, está o busílis da questão. É simplesmente ridícula, por exemplo, a forma como se ensina História do Brasil em nossas escolas, de tal maneira que se mostra impossível despertar no jovem o interesse pelo que fomos e pelo que somos, e, acima de tudo pelo que pretendemos ser e queremos. Uma disciplina chamada Organização Social e Política do Brasil (OSPB), chegou a tal ponto de tolice que os próprios estudantes a apelidaram de “Alô, Brasil”, numa clara demonstração de entendimento de que havia uma prevalência da forma em prejuízo do conteúdo. Algo assim: respeite a bandeira porque ela é a nossa bandeira, sem entrar em explicações sobre por que efetivamente ela merece ser respeitada.
Eduardo Galvão, jornalista do mais alto coturno, lançou recentemente um dos livros mais importantes e interessantes sobre nosso país. “Brasil – Uma História” é compêndio que não deveria faltar em nenhuma biblioteca minimamente decente e haveria de ser leitura obrigatória para quem pretende uma visão realista sobre como nascemos e nos desenvolvemos, e como chegamos até aqui. O autor faz uma curiosa observação: o brasileiro tem uma tendência quase irreversível para a autodepreciação. O que é dos outros sempre parece melhor e o que fazemos e produzimos está sempre em comparação negativa com o que os outros fazem e produzem. A casimira inglesa era melhor só porque era inglesa. E pronto.
Contributo relevante para essa postura niilista foi a divulgação de que De Gaulle teria afirmado que “o Brasil não é um país sério”. Se disse, o velho guerreiro poderia ter se poupado de pronunciar uma universal besteira. Se não disse, a lenda serviu para alimentar um complexo de inferioridade que hoje grassa principalmente entre os “escritores da internet”, como chamo aqueles que se dedicam a tecer pequenos comentários sobre notícias e sobre o que escrevem os outros. Assim, diante de um texto que divulgue algo reprovável acontecido em terras tupiniquins, o tal “escritor” pondera, com sisudez e verve incomparáveis: “Isso é Brasil”. É Brasil, uma ova. É falta de vergonha, que nunca foi, nem será, monopólio de nenhum país.
Dos meus filhos esse tipo de besteira foi afastado. Acho que os netos seguem pelo mesmo caminho. Basta ver o exemplo da Helena Beatriz que, com apenas dois meses de idade, já consegue chorar no português mais castiço, com acordes do Hino Nacional.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...