Nem mesmo o câncer, meliante predador da mais alta periculosidade, deveria ser tão ousado a ponto de praticar um atentado contra um monumento como Angelina Jolie. Que ofensa à estética! Que crime de lesa-beleza! A atriz, em comovente depoimento publicado pelo New York Times, revela sua angústia: “Quando soube da minha situação, decidi ser proativa e minimizar o risco o mais completamente possível. Decidi fazer uma mastectomia dupla preventiva. Comecei pelos seios, pois minha probabilidade de desenvolver câncer de mama era mais elevada do que a de contrair a doença no ovário, e a cirurgia é mais complexa”.
E pondera, em judicioso entendimento: “O câncer de mama mata aproximadamente 450 mil pessoas por ano, segundo a OMS, principalmente em países de renda média e baixa. É preciso dar prioridade e garantir que mais mulheres tenham acesso a testes genéticos e a tratamentos preventivos que salvem vidas. O custo do teste com os genes BRCA1 e BRCA2 continua sendo um obstáculo para muitas mulheres. Decidi não guardar minha história em segredo porque existem muitas mulheres que não sabem que podem estar vivendo sob a ameaça de desenvolver um câncer. Espero que também elas consigam examinar seus e, caso também tenham risco elevado, saibam que existem opções muito boas”.
Além de bela (só isso?), generosa e humanitária. Não é desprezível a preocupação que manifesta com as dificuldades financeiras que envolverão a grande massa mundial de mulheres que se encontre em situação semelhante à sua e que decida ter a coragem de enfrentá-la pelos mesmos procedimentos médicos. Impensável para a maioria esmagadora.
No nosso grande e querido país, onde Lula e Dilma implantaram o paraíso das “bolsas”, se uma senhora decidir por fazer a prevenção já sabe o calvário que enfrentará, a partir das filas intermináveis do Sistema Único de Saúde – SUS. O médico requisita os exames e a moça se apresenta no laboratório, talvez um do tipo que conseguiu encontrar secreção vaginal numa ferida em abdômen masculino. A atendente, por vezes em crise de delicadeza, dir-lhe-á gentilmente: “Se for particular, a senhora estará sendo atendida dentro de quarenta e oito horas. Se for pelo SUS, a senhora, por favor, volta daqui a oito meses, que eu vou estar agendando seu exame para logo depois das férias do doutor”.
E por aí seguirá a “via crucis”. Mesmo que a pessoa esteja “protegida” por um plano de saúde, a situação não sofrerá modificação substancial, porque a preferência pelo “particular” sobre o público e sobre os planos parece ter profundas raízes em todos os estabelecimentos do ramo. É simplesmente estigmatizado quem não pode pagar de seu próprio bolso um exame ou uma consulta, tendo que esperar a boa vontade da doença para agendar seu desenvolvimento em consonância com o calendário burocrático e lucrativo de laboratórios e consultórios.
Para a realização de uma cirurgia, a coisa fica ainda pior, se é que é possível. Em sendo pelo SUS, o uso da enfermaria é de científica certeza e a data de efetivação do procedimento, assunto a ser resolvido pelos oráculos “daquela Grécia esplêndida e tranquila”. Se o seu “plano” só lhe garante enfermaria, mas você economizou um dinheirinho e quer fazer “upgrade” para um apartamento, não fique pensando que é assim tão simples. O trabalho técnico vai ser exatamente o mesmo porque a sala de cirurgia nunca perguntou de um paciente se ele está internado em enfermaria ou apartamento. Mas, para sair daquela para este último, você terá que pagar não só a diferença de hospedagem, e sim, também, de honorários e materiais. Incrível, não é mesmo? Mas é verdade.
E vamos dançando assim, conforme a música, sem que o maestro dê nenhuma indicação de que pretende mudar o ritmo ou o estilo. Adoecer gravemente no Brasil ainda é um caso de polícia, ou do Ministério Público, ávido em investigar procedimentos irregulares de quem quer que seja. O certo é que, nesse quadro desolador, não seria sonho, mas terrível pesadelo, uma mulher pensar em manifestar e ter a coragem da atriz americana, para quem “a vida traz muitos desafios. Não devemos nos assustar com aqueles que podemos enfrentar e controlar”. Enfrentamento e controle inviáveis por aqui, restando-nos esperar, de longe, que a cirurgia estética logre nos devolver Angelina Jolie como ela sempre foi. Um monumento. A humanidade merece.
Veja mais notícias em Colunas
* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...