
O prejuízo do Festival de Parintins, que no auge coleciona imagens como essa, da orla fluvial e ruas principais lotadas, é revelado por Prefeitura e bumbás
A Prefeitura de Parintins acompanhou, até o ano passado, com auditagem feita pelo Datafolha, os valores do Festival de Parintins. A conclusão é que a economia parintinense movimenta cerca de R$ 80 milhões/ ano com o Festival Folclórico de Garantido e Caprichoso. Estão incluídos aí os mais de R$ 11 milhões recebidos em patrocínio por cada um dos bumbás. Desde 2020, no entanto, a festa foi interrompida por conta da pandemia de coronavírus.
“O Município de Parintins tem um orçamento anual de R$ 233 milhões, mais os R$ 80 milhões dos bumbás. Estamos dois anos sem a parte dos bumbás e isso tem sido duríssimo”, diz o prefeito Bi Garcia. O valor corresponde a cerca de um terço do orçamento, embora não faça parte dele.
Os bumbás, para completar, estão com as contas bloqueadas pela Justiça Trabalhista. “Todo recurso que entra é confiscado para pagamento de dívidas. Estamos lutando para fazer um acordo global, antes do Festival de 2022, para acabar com isso”, diz o presidente do Caprichoso, advogado Jender Lobato.
“Perdemos mais de 100, entre artistas, colaboradores e torcedores do Garantido. É doloroso saber que, em breve, voltaremos a brincar de boi, mas, sem eles”, lamenta o presidente do Garantido, Antônio Andrade. Ele próprio ficou entre a vida e a morte, semanas, numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Samel, em Manaus, por conta da Covid-19 e comorbidades.
O Caprichoso, segundo Jender, perdeu 95% das receitas que seriam apuradas se houvesse Festival. E, mesmo assim, pagou R$ 1,8 milhão, de R$ 13 milhões, em dívidas trabalhistas. O valor foi apurado em rumorosa auditagem promovida pela atual diretoria. Feitas as contas, a dívida deveria estar em R$ 11,2 milhões, certo? Errado: “Há juros e multas por débitos atrasados e descobrimos novas dívidas, depois disso”, revela o presidente. O resultado? O bumbá deve, ainda, R$ 12,5 milhões.
As “novas dívidas” vieram do ex-presidente e hoje vereador Babá Tupinambá. Numa delas, ele negociou com artista um valor por alegorias e outros R$ 50 mil/ ano, durante três anos. Detalhe é que foram acertados 100% de multa e juros de 5% por atraso. Feito isso, o vereador ex-presidente simplesmente não pagou o valor mensal, gerando juros e multas. “O boi deve mais de R$ 1 milhão para esse artista e ninguém sabe o que é esse outro contrato”, diz Jender.
O bumbá, no entanto, tem obtido vitórias na Justiça. O escritório Lyra Góes, de Manaus, tem mantido rotina de, pelo menos, uma audiência por semana para reverter débitos. “Antes, o comum era o Caprichoso faltar a essas audiências e ser condenado e multado. Agora não faltamos e não contraímos um centavo de dívida nova”, diz Jender. “Até a reforma do curral foi feita com apoio de simpatizantes e empresas privadas, como a Suvinil, que doou toda a tinta”, diz.
“O Caprichoso deve muito aos advogados Victor Góes e Rennalt Lessa. Eles têm sido verdadeiros heróis do bumbá e sem cobrar nada, apenas os honorários obtidos nas causas”, revela o presidente.

Jender Lobato (azul) entre os advogados do escritório Lyra Góes, que estão revertendo a farra de dívidas trabalhistas do Caprichoso
Entre as dívidas anuladas na Justiça está outra com artista. No ano 2000, a diretoria acertou pagamento de um Salário Mínimo/ mês, ao longo de 30 anos.
“O Garantido perdeu mais de R$ 15 milhões em patrocínios, nesses dois anos. E muitas oportunidades de crescimento, novos negócios que não vieram, por conta da pandemia”, diz o presidente Antônio Andrade.
Andrade lembra que, todos os anos, 400 famílias alugam as casas (no projeto Cama e Café da Manhã) e ficaram sem essa renda. “A economia criativa do Município, que gira em torno do Festival, comércio, turismo, hotéis, todo mundo perdeu.
Andrade calcula entre 60% e 70% da economia de Parintins girando em torno do Festival Folclórico. “Grandes investimentos em infraestrutura da cidade vêm por conta do Festival”, enfatiza. “Só a vacina permitirá que o Festival volte em 2022. A grande indústria de Parintins é o Festival”.
Muitos empregos, a maioria informal, foram perdidos com a não realização da festa. “Um taxista ganha, durante o Festival, o dobro do que recebe no resto do ano inteiro”, diz Bi Garcia. A eles se somam os tricicleteiros, mototaxistas e até carroceiros, que faturam transportando turistas.
“A gente emprega, por ano, umas 900 pessoas, diretamente, mais 3,2 mil que trabalham indiretamente para o boi. São costureiras, aderecistas, gente de galpão etc. Tudo isso parou”, explica Andrade.
“O Caprichoso deixou de ofertar 4 mil empregos diretos, dois mil a cada ano, por conta da pandemia”, revela Jender Lobato.
A live dos bumbás, realizada no dia 26/06, trouxe cerca de R$ 350 mil em patrocínio privado para cada bumbá. O Governo do Estado ofereceu outros R$ 1 milhão para Garantido e outro R$ 1 milhão para Caprichoso. Metade do valor governamental é destinado diretamente a 450 artistas de cada boi, que receberão pouco mais de R$ 1 mil. “Somos gratos ao governador, que se sensibilizou com um pleito nosso”, diz o prefeito Bi Garcia.
O Festival de Parintins acontece desde a década de 1960. Surgiu quando a Juventude Alegre Católica (JAC) se engajou na arrecadação de recursos para construção da Catedral de Nossa Senhora do Carmo. A festa cresceu e passou a ser administrada pela Prefeitura Municipal. Hoje, o principal gestor é o Governo do Amazonas, por intermédio da Secretaria Estadual de Cultura (SEC).
A Festa de Boi Bumbá é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).