18/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Jejum Federal e Estadual

Publicado em 28 de maio, 2021

Artigo do advogado Felix Valois

Estamos salvos: a Assembleia Legislativa do Estado vem de aprovar projeto de vital importância para o desenvolvimento local. Trata-se do projeto de lei número 47/2021, de autoria do pastor João Luiz que institui o dia estadual de oração e jejum pelo Amazonas. Pronto: esqueçamos a pandemia, olvidemos os ataques à Zona Franca, deixemos de lado as preocupações com a enchente do Rio Negro, eis que agora, contra tudo isso, podemos orar e jejuar. E isso em pleno segundo domingo de fevereiro, sendo certo que em algum ano o nosso jejum vai coincidir com o carnaval. Quero ver quem sai ganhando.

Lembrei-me de que coisa semelhante já tinha ocorrido em nível federal, eis que na Câmara dos Deputados projeto parecido havia sido apresentado em 2019. A respeito disso escrevi, então, o seguinte: “pois não é que um deputado federal, coincidentemente eleito pelo Amazonas, estado onde a tal miséria foi descortinada, apresentou projeto de lei cuja aprovação talvez resolva todos os problemas da humanidade? A proposta de Sua Excelência traz esta ementa esclarecedora e autoexplicativa: “Institui a data nacional de jejum, Oração, arrependimento e perdão”. Estamos salvos. Vamos lá, deputados e senadores, esqueçam a lerdice e cuidem de trabalhar com afinco para que o inspirado e piedoso projeto rapidamente se transforme em lei e venha dar um fim ao quadro de miséria”. A miséria de que cuida o texto diz respeito aos 13,8% da população amazonense que, segundo o IBGE, vivem estado de extrema pobreza.

E agora? Como ficamos? Teremos um jejum federal e um jejum estadual? Sim, porque as duas proposições não são idênticas no que diz respeito à data. Enquanto a local estabelece, como visto, o segundo domingo de fevereiro, a nacional preferiu o dia 12 de outubro para jejum e oração, sendo de notar que no projeto federal o dia será não apenas de jejum e oração, mas ainda de “arrependimento e perdão”.

Acho que é pertinente voltar ao texto que escrevi quando do primeiro projeto (o federal). Lá, eu disse o seguinte: “mas fico pensando que, uma vez sancionada e publicada a lei em que se há de transformar o projeto, o Supremo vai ter que dedicar alguma parte do tempo de suas excelências para uma atividade interpretativa. Por exemplo: será obrigatório orar naquele dia? Os ateus estaremos fritos e, o que é pior, sem saber a que tipo de sanção estaremos sujeitos. De igual modo, um decreto haverá de explicitar por qual forma devemos manifestar arrependimento. E se o infeliz não tiver de que se arrepender? Quanto ao perdão, vou logo avisando que não preciso de um dia específico para perdoar todos aqueles que, por brincadeira, ofendem a inteligência de todo um povo. Resta o jejum: instituída essa verdadeira lei seca de comida, o degas aqui, mesmo estando longe de ser um glutão, vai pregar a desobediência civil. E, além disso, para aquela gente que morre com sete reais por dia, todos os dias são dias de jejum.

Pensei que não veria o apocalipse das ideias. Ledo engano”.

Diante de tanta tolice e falta do que fazer, acho legítimo sugerir alguns temas para debate e posterior apreciação pela Assembleia Legislativa e (quem sabe?) pelo parlamento nacional. Por exemplo: por que não discutir um projeto que institui o Dia do Pecador Arrependido”? Teríamos aí uma dupla vantagem: o homem em pecado abriria seu coração para o mundo e daria às novas gerações o exemplo da humildade, consistente num sincero arrependimento.

Olhem, ainda, que coisa espetacular: podemos instituir o Dia do Controlador da Alavanca do Sol. Estaríamos com isso homenageando aqueles que o vulgo chama de vagabundos, mas que, na verdade, estão em permanente contemplação da natureza, observando o movimento dos astros.

Finalmente, por que não criar o Dia do Adestrador de Pulgas? Quando nada, a lembrança poderia passar como uma homenagem ao imortal Chaplin, de tal sorte que seu autor prestaria duplo serviço à coletividade.

Vamos puxar pela criatividade e, em surgindo a ideia de homenagear com um dia próprio alguma ocupação, vamos enviá-la à Assembleia e/ou à Câmara Federal, para que seja deflagrado o devido processo legislativo.

Francamente

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.