21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Centenário do Nacional

Publicado em 17 de janeiro, 2013

Escrevendo sobre a catedral de Notre Dame de Paris, Victor Hugo pondera que, ao contrário do que acontece com as pessoas, o aumento da idade dos prédios não lhes tira a vitalidade, por isso que a vetustez só faz revesti-los de uma respeitosa dignidade. Tenho que o mesmo se pode aplicar às instituições que, se bem cuidadas, tendem a impor aos circunstantes um mínimo de respeito que seja, granjeando simpatia por seu próprio desenvolvimento e manutenção.

Sob tal aspecto, impossível deixar passar em branco o centenário do Nacional Futebol Clube, recentemente comemorado. Não lhe sou torcedor, sabem os que me conhecem. Como hão de saber muito bem, da mesma forma, da paixão que sempre nutri pelo Fast Clube, aliás, tido e havido pela imprensa como “filho” do primeiro, já que oriundo de uma dissidência. Mas a verdade é que o Nacional é uma espécie de Flamengo baré, ostentando o galardão de possuir a maior torcida do Amazonas, fato que, se não pode ser provado por estatísticas, sempre foi incontestado desde os tempos em que tínhamos um campeonato de futebol decente.

Mas não é para menos se tivermos que levar em conta a dedicação, quase fanatismo, com que se comportam os dirigentes do clube ao longo de toda essa centúria. Lembro-me do falecido desembargador Joaquim Paulino Gomes que, a par do exercício da magistratura, era incansável na assistência aos seus comandados durante o longo período em que exerceu a presidência. O professor Manoel do Carmo Chaves Neto, Maneca, é outro exemplo de amor incontido, sentimento que disputa palmo a palmo com o doutor Evandro Paes de Farias e com o doutor Roberto Caminha Filho, isto para não falar dos meus amigos Fernando Cardoso de Queiroz, que jamais esqueceu de levar sua bandeira ao estádio, e Eurivan Reis de Paula, que não tira a camisa do Naça.

São exemplos que me vêm aleatoriamente à lembrança, a qual, já cansada pelo inexorável e chato avanço da velhice, às vezes comete traições, implicando em esquecimentos deploráveis. Para evitar um destes, é imprescindível a referência a outro nacionalino “doente”, desses que são capazes de esquecer a refeição para não perder um compromisso com o time. Trata-se de Pedro Gomes, meu querido colega no Banco do Brasil e contador dos mais respeitados nesta terra de Ajuricaba.

Fui colher informações e confesso que fiquei impressionado com a folha de serviços prestados por Pedrinho ao Nacional. Só para ter uma ideia: nos idos de 1969/70, ele e seus colegas Álvaro da Silva e Antônio Gadelha Cavalcanti entenderam que era o momento de adquirir um imóvel destinado a servir de residência aos jogadores oriundos de outros Estados. Meteram a cara e criaram um consórcio, patrocinado pelo Nacional, para compra de automóveis. A realização foi um sucesso e, num pioneirismo impensável, o clube se fez proprietário de uma casa na rua Ferreira Pena, nas proximidades da rua Leonardo Malcher.

Dele também partiu toda a articulação para que, no momento mesmo em que a Caixa Econômica deliberou pelo funcionamento de casas lotéricas para a realização de apostas da loteria esportiva, um dos novos estabelecimentos fosse destinado ao clube que, então, era localizado na rua Saldanha Marinho.

Incansável Pedro Gomes. Quando ter carro em Manaus era quase tão difícil quanto acertar na Mega Sena, ele se empenhou pessoalmente para conseguir o primeiro transporte coletivo da história do clube. Logrou comprar uma Kombi zero quilômetro, para o que contou com a boa vontade de seus amigos Douglas e James Arnaud de Souza Lima, dirigentes da empresa Posto 7 Ltda., àquela altura concessionária da Volkswagen.

Essa tal Copa São Paulo de futebol júnior tem a participação do Nacional desde o ano de 1991. E não é que nisso também é possível encontrar a impressão digital de Pedro Gomes? Com recursos próprios, financiou duas passagens aéreas para os jogadores e ainda fez “vaquinha” para comprar outras seis.

Claro que o Nacional está de parabéns e não os transmitir, apesar da rivalidade, seria no mínimo uma descortesia. Mas, se aqui e agora os transmito, penso poder ponderar que para a festa centenária não perder nada de sua grandiosidade, seria mais do que justo o reconhecimento formal do papel e da importância de Pedro Gomes na vida do Clube. A sugestão de uma homenagem não parece descabida.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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