07/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Fim do mundo

Publicado em 14 de dezembro, 2012

O mundo, dizem, vai acabar daqui a uma semana. E há tolos com a certeza de que ouvirão as trombetas do juízo final, enquanto o apocalipse se abate sobre o planeta, destruindo terras e mares e não deixando pedra sobre pedra. Será a consumação dos séculos, quando retornaremos ao nada e o infinito universo terá que esperar novo bigue-bangue para que algo semelhante à velha Terra volte a existir. Não será para já e, assim, mesmo os adeptos da reencarnação podem ir tirando o cavalo da chuva que não voltarão aos prazeres e agruras deste vale de lágrimas.

Sempre tive curiosidade de saber onde e como surgem essas besteiras que acabam ganhando dimensões universais. Quem terá sido o primeiro gozador a bolar essa história mirabolante e que mórbido sentimento há de tê-lo movido? Talvez a certeza que o cancioneiro popular brasileiro traduziu na afirmativa de que “neste mundo tem bobo pra tudo”, dizendo ser essa a causa de “camelô vender algodão por veludo”. E o autor complementa: “A mulher que é bonita consegue o que quer, não me iludo/Está provado porque neste mundo tem bobo pra tudo”.

A coisa ganhou tamanha proporção que a agência espacial americana – NASA – emitiu comunicado demonstrando a impossibilidade científica de ocorrência do fenômeno. Fê-lo, afirmou, na tentativa de evitar um surto de homicídios e suicídios, já que alguns pais, cuja crendice só é menor que a leseira, estariam dispostos a assassinar seus filhos, ao fito de impedir que eles presenciem o horrendo espetáculo. E, depois desse ato de duvidosa caridade, poriam fim às próprias vidas. Quanto heroísmo!

Ao que me consta, nenhum dos arautos da catástrofe conseguiu demonstrar por quais meios o notável povo maia teve acesso ao calendário gregoriano, que nos rege há séculos, para nele poder situar a data da tragédia. Claro que isso é o de menos, já que até por comparação seria possível transpor os dias de um calendário a outro. O ponto nevrálgico da questão, portanto, não é esse. Está, penso, na absoluta falta do que fazer da parte de quem se dá à pachorra de priorizar a astrologia em detrimento da astronomia, para daí extrair conclusões absurdas.

Da minha parte não estou nem um pouco preocupado com o assunto. Acredito nele tanto quanto creio na inocência do Lula. Não tenho, pois, que fazer testamento, até porque este seria inócuo diante da extinção de tudo, não sobrando ninguém para herdar o quase nada que consegui amealhar depois de tantos anos de implacável perseguição do imposto de renda.

Mas se o mundo acabasse mesmo, assim tão de repente, confesso que eu me iria com inúmeras frustrações. Por exemplo: por mais que pareça longínqua, quase impossível, sempre sonhei com a ideia de um mundo repleto de igualdade, sem discriminação de qualquer espécie e sem as injustiças sociais que permitem milhões de seres humanos ainda morrerem de fome.

Não terei eu visto um mundo sem guerras que se autoalimentam, porque produtos da ganância pura e simples, ou, quando nada, da intolerância e do fundamentalismo religiosos. Batalhas se travam e vidas são suprimidas por conta do fanatismo dos que criam deuses belicistas, os quais se empenham numa disputa insana por uma supremacia jamais alcançada e que só pode existir mesmo em mentes embotadas pelo anestésico da ignorância.

Não poderei ver meu glorioso Fast Clube voltar a ser campeão amazonense, nem terei o prazer de ver a Argentina ser derrotada pelo Brasil na final da próxima Copa, em pleno Maracanã. Também não terei o prazer de ver a derrocada final do petismo e da corrupção tsunâmica que ele implantou no país ao longo dessa década de implacável dominação, onde os dirigentes são surdos e cegos e onde é preciso a atuação do mais elevado tribunal brasileiro para afirmar a obviedade da roubalheira.

Finalmente, o lamento dos lamentos: não poderei desfrutar do nascimento da minha sexta neta, cujo advento está programado para março. Aí também já é demais. Uma ova que o mundo vai acabar. Ruim com ele, pior sem ele, e em março estarei carregando a Heleninha no colo, pronto para continuar desempenhando o papel de todos os avós que se prezam: fazer a vontade dos netos, aceitando-lhes incondicionalmente a atuação ditatorial. O resto é conversa pra boi dormir.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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