14/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Leia antes do exame de coronavírus: organismo pode reagir diferente. Live aborda volta às aulas segura

Publicado em 29 de junho, 2020

Leia antes do exame de coronavírus

Leia antes do exame de coronavírus para entender um pouco mais sobre os métodos de detecção. Médica que fez estudo (esquerda) será moderadora em live sobre volta às aulas com segurança infantil

O organismo pode reagir de forma distinta ao coronavírus e os exames podem apresentar resultado não confiável. A afirmação, feita para alunos do curso de Medicina da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), é da pediatra e neonatologista Rossiclei Pinheiro, professora de Saúde da Criança do curso de Medicina. “Estamos trocando o pneu com o carro andando, mas a ciência se caracteriza por mudar pelas evidências”, disse.

A conclusão da médica, que não está no material enviado aos alunos, é de que o RT PCR é o único exame que faz diagnóstico correto. Os outros, de sorologia e teste rápido, dizem que a pessoa teve contato, mas precisa ver se teve a doença.

O trabalho é técnico – e está transcrito abaixo –, mas só faz sentido completo para os iniciados.

 

Volta às aulas com segurança

Rossiclei Pinheiro será a mediadora de uma live, nesta quarta (01/07), sobre “Retorno às aulas com seguranca e saúde mental infantil”. Participarão o prof. Dr. Evandro Baldacci (SP), especialista em Pediatri Geral e Infectologia, livre docente do Deparetamento de Pediatria da USP. E Marília Abtibol, Neuropediatra, membro do Departamento Científico de Neurologia da Sociedade Amazonense de Pediatria (Saped).

A live acontecerá às 19h, horário de Manaus, na página do Facebook da Saped.

 

Detalhes do estudo sobre exames do novo coronavírus

A dúvida principal quanto aos exames para o novo coronavírus está, segundo a médica, na resposta de anticorpos. “Apresentamos, normalmente, dois tipos de resposta imune: a inata, inespecífica e típica dos bebês, e a adaptativa. Esta tem dois braços, o humoral, dos anticorpos, e o celular, composto pelas células T ou linfócitos T, que se conectam e geram memória. São os braços que vão reagir, rapidamente, se o vírus atacar novamente”, explica.

Anticorpos são produzidos pelas células B. “O primeiro que aparece é o IgM, que indica uma infecção recente e depois vai sendo substituído pelo IgG, que indica que já faz mais tempo que a pessoa teve a doença. O IgM pode durar uns três meses e o IgG mais tempo e, por isso, é muito usado como bom marcador de imunidade. Em geral, na maioria das doenças é assim: tem IgG? Está protegido”.

 

Dúvidas quanto ao IgG para o novo coronavírus

O novo coronavírus, porém, apresenta variações. “Não basta ter IgG. Eles precisam ser do tipo neutralizantes, que realmente impedem que o vírus entre na célula. Independente disso, o IgG serve para medir a prevalência da doença na população. Rastrear com testes de sorologia para ver quem já foi exposto ao vírus parecia ser boa idéia, porém existem 2 trabalhos que colocam em dúvida se o IgG é um bom marcador”, diz Rossiclei.

O primeiro trabalho avaliou 37 pacientes assintomáticos para Sorologia de IgG, comparando com 37 sintomáticos. Esse trabalho mostrou que os níveis de IgG caíram abaixo do detectável, após 60 dias, para 40% dos assintomáticos e 13% dos sintomáticos.

Clinical and immunological assessment of asymptomatic SARS-CoV-2 infections

“Isso não quer dizer que não desenvolvemos imunidade, nem que estamos susceptiveis a uma reinfecçao. Anticorpos não são nossa única resposta imune. Vocês podem ler um pouco mais no estudo abaixo”, escreveu:

https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/index.php/questao-de-fato/2020/05/06/sistema-imune-vai-alem-dos-anticorpos

 

Sem fabricação de anticorpos

“Existem algumas doenças que a pessoa não fabrica anticorpos (agamaglobulinemia) ou produzem pouquíssimos. Essa pessoas são extremamente suscetíveis a infecções bacterianas, mas costumam lidar bem com infecções virais, pois a resposta aos vírus não é somente com a produção de anticorpos. Então nestes casos é o outro braço que vai defender, a imunidade celular (resposta adaptativa, que cria memória)”, continua.

“Este tipo de resposta é mediado por linfócitos T, pois são criadas no Timo (uma glândula). Neste caso, quando há invasão da célula pelo vírus (ficam intracelulares), os anticorpos não conseguem visualizar dentro da célula. Então quem vai defender é o Linfócito T”, diz o trabalho.

“Relembrando que bactérias, com raras exceções, não entram nas células. Não precisam do RNA da nossa célula para sobreviver. Os vírus, porém, precisam para se reproduzir. Assim, as bactérias, do lado de fora, produzem anticorpos. Os vírus, do lado de dentro, induzem a resposta da imunidade celular. A célula infectada é marcada pelo Linfócito T (TCD8) para morrer, liberando citoxinas (proteínas tóxicas) que desencadeiam uma resposta inflamatória. Essa resposta mata as células infectadas, impedindo a proliferaçao do vírus. Essas células T também funcionam produzindo Apoptose (morte celular programada)”, diz o estudo da médica Rossiclei.

“Isso não quer dizer que infecções virais não produzam anticorpos. As respostas do tipo celular e de anticorpos não são eventos isolados, ocorrem concomitantemente. Além disso, moléculas produzidas pelo vírus dentro da célula são capturadas por outra célula apresentadora de antígeno (APC). Os APCs também colocam esses pedaços virais em exposiçao e alertam outras células do sistema imune, inclusive produzindo anticorpos”.

“O fato dos títulos de IgG baixarem rapidamente, não quer dizer que não temos resposta celular – de células T – ou que não tenhamos desenvolvido células de memória, capazes de mostrar uma resposta rapidamente, caso o vírus infecte novamente”.

“Outro trabalho recente, ainda preprint, mostra exatamente isso”:

Intrafamilial Exposure to SARS-CoV-2 Induces Cellular Immune Response without Seroconversion doi

“É um estudo pequeno, com uma abordagem bem interessante. Acompanharam famílias com um paciente contaminado, e mediram resposta de anticorpos e de células T nos pacientes e nos contatos. Esse estudo demonstrou realmente a presença de infecção, sem produção de anticorpos, mas com resposta de células T, nos contatos dos pacientes. Cinco, dos seis contatos que desenvolveram resposta de células T, eram sintomáticos, mas não produziram anticorpos ou não foi possível detectá-los, mas produziram resposta de células T. Isso medido depois de 69 dias. Ainda não se sabe se essas células T produzem memória e quanto tempo dura. Também não sabemos se, mesmo sem anticorpos detectáveis, essas células B de memória poderiam produzir anticorpos, quando provocadas”.

“Com relação à reinfecçao, não estamos vendo casos de forma consistente. Então, por enquanto, parece que quem teve a doença e se recuperou está protegido. Mas, isso não pode ser fator para relaxar as medidas de prevenção. Lembrando que, mesmo protegidos de ficar doentes, ainda não sabemos se ficamos realmente livres de transmitir o vírus”.

 

Os motivos pelos quais algumas pessoas parecem se livrar do vírus mesmo sem anticorpos?

“Temos várias hipóteses, nenhuma resposta ainda.

“Pode ser a carga viral baixa.

“Pode ser que a quantidade de anticorpos neutralizantes, mesmo baixo, seja bom, como sugere esse outro trabalho, que demonstra boa proteção mesmo em quantidades baixas.

Robbiani, D.F., Gaebler, C., Muecksch, F. et al. Convergent antibody responses to SARS-CoV-2 in convalescent individuals. Nature (2020).

“Pode ser que respostas cruzadas de células T com outros coronavírus estejam dando uma vantagem para algumas pessoas, de uma memória para esses outros coronavirus de resfriado comum, que esteja montando uma resposta de células T rapidamente, como mostrado neste trabalho:

Targets of T cell responses to SARS-CoV-2 coronavirus in humans with COVID-19 disease and unexposed individuals

“Resumindo, parece que IgG não é um bom marcador, porque muitos pacientes se recuperam do Covid-19 sem produzir quantidade significativa de anticorpos, ou eles decaem rapidamente após a recuperaçao. Isso não quer dizer que as pessoas não estão imunes porque existem células de memória e também resposta celular que não depende de anticorpos.

“Devemos pensar bem sobre medir prevalência da doença na população só com IgG, pois podemos estar subestimando a prevalência. Isso também tem implicações no recrutamento de pacientes para doação de soro de convalescente, se existe um pico de produção de IgG”.

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