
Moro queria o STF e deixa o Ministério da Justiça em clima bem diferente dos sorrisos da posse (foto)
O presidente Jair Bolsonaro falou nesta sexta (24/04), por 47 minutos, sobre a saída do ministro Sérgio Moro. Ele ocupou uma cadeia de imprensa, comandada pela TV Brasil. “Moro aceitou demitir Valeixo (diretor geral da PF), mas só em novembro, quando fosse nomeado para o STF”, revelou o presidente. “O dia que eu tiver que submeter minha autoridade a um ministro, eu deixo a Presidência da República”, enfatizou.
Bolsonaro se mostrou indignado porque o agora ex-ministro da Justiça insinuou que ele pressionou a PF para conhecer investigações. E que Maurício Leite Valeixo não pediu demissão. “Ontem, à tarde, falei com Valeixo pelo telefone e ele concordou com a demissão. Chamar de mentiroso a alguém de formação militar e cristão, como eu, é a pior coisa”, disse o presidente.
A carta enviada por Valeixo aos 27 superintendentes, dizendo que estava cansado, foi outro argumento para mostrar que o diretor-geral saiu por vontade própria.
O presidente falou de improviso por mais de 40 minutos e, no final, leu uma carta de três laudas, letra graúda, em menos de três minutos. Bolsonaro demonstrou que as divergências com Sérgio Moro se deram em torno da ênfase na investigação da morte da vereadora Marielle Franco, do Rio de Janeiro, e a falta de elucidação da tentativa de assassinato que sofreu na campanha. “Coisa mais fácil era investigar esse crime. O autor, afinal, está preso”, disse.
Jair Bolsonaro revelou o diálogo entre ele e o ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). “Vamos implodir o Inmetro”, teria dito.
O órgão, segundo revelou, “queria trocar 1,6 milhão de tacógrafos, todos os taxímetros – só no RJ são 40 mil – e colocar um chip em cada bomba de combustível. Agora a gente sabe que esse chip não serviria para nada”, acusou. “Esse dinheiro não saiu do bolso do brasileiro”, disparou.
Inmetro e Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) têm muita história para contar. Até hoje ninguém sabe como surgiram e como desapareceram necessidades de kits de primeiros socorros e a fúria da fiscalização da validade de extintores de incêndio. Também não está explicada a utilidade da troca de todas as tomadas elétricas.
Bolsonaro não poupou intimidades. Sobre a proximidade dele com sargento envolvido no ‘Caso Marielle’, porque o filho teria namorado a filha do militar, ele explicou: “Cheguei com meu filho 04, Renan, que agora tem 21 anos, e disse: ‘Abre o jogo’. Ele me disse: ‘Pai, eu fiquei com metade do condomínio'”.
Por um pedido pessoal, o sargento foi alcançado em Mossoró (RN) e interrogado. “O resultado do interrogatório está comigo. Ele afirma que meu filho não namorou a filha dele, porque ela mora nos Estados Unidos há muito tempo”, revelou.
Em outro momento, entre estocadas e elogios à PF, Bolsonaro disse: “60 policiais trabalhavam comigo, durante a campanha, e não conseguiram evitar a tentativa de assassinato”. E depois: “Eles tinham um esquema de evacuação para mim e ajudaram a salvar minha vida. Policiais militares, do Rio e de Brasília, voluntários, ajudaram também”, contou.
Sobre o “Caso Queiroz”, que teria empréstimos e cuidaria da “caixinha” da família Bolsonaro, o presidente contou que são amigos há 24 anos. “Ele me pagou não R$ 24 mil, mas R$ 40 mil de dívidas e os cheques eu deixei no Rio de Janeiro”, afirma.
“Nunca pedi pra blindar ninguém da minha família. Jamais faria isso. Lamento que aquela pessoa que mais deveria defender a legalidade, não faz”, disparou.
“Sempre abri meu coração para ele (Moro) e agora desconfio se ele abriu o coração para mim. Digo sempre aos ministros: confiança tem que ter dupla mão”.
“Está na hora de por um ponto final nisso. Pessoalmente não tenho nada contra ele. Conversei poucas vezes com ele e, na maioria das vezes, estava o Sérgio Moro do lado”, disse o presidente, sobre a troca na PF.
“Mas o nome tem que ser o meu”, teria dito Moro. “Vamos conversar. Por que tem que ser o teu e não o meu? Por que não podemos pegar os nomes que têm condições e fazer um sorteio (sic)? Por que não pode ser um nome de consenso? O dia que tiver de me submeter a qualquer subordinado, eu deixo a Presidência da República”, enfatizou, sobre o diálogo com o ex-ministro.
“Quero um delegado que eu possa interagir com ele. Eu interajo com a inteligência das Forças Armadas, se preciso for, ou com a Abin (Agência Brasileira de Inteligência). Sempre procuro o ministro, se preciso for, mas, de vez em quando, falo com diversos escalões do ministério”, revelou.
“Você pode trocar o Valeixo, mas em novembro, depois que me indicar para o STF”, teria dito Moro, segundo Bolsonaro. “Reconheço suas qualidades em um dia chegar lá, se chegar. Mas eu não troco. É desmoralizante, para um presidente, ouvir que não troca. Sugeri a troca de dois superintendentes, em 27. RJ, no clamor da questão do porteiro e do caso Adélio, dos dois policiais”, disse.
“A mídia me colocou de cabeça para fora. Chacoalhou. Levantaram que, com cinco anos de idade, eu chamava uma mulher de gorda. Fiquei sabendo que a mãe da senhora Michele cometeu crime de falsidade ideológica. Em vez de fazer cirurgia plástica, pra ficar mais jovem e bonita (sic), diminuiu em dez anos a idade na Certidão de Nascimento”, pilheriou.
“Na última reunião de ministros cobrei dele uma posição sobre prisão e algema usadas contra mulheres na praia. E o ataque policial a um humilde trabalhador do comércio no Piauí. Ele tinha que mostrar sua cara porque tem amparo na Lei de Abuso da Autoridade. Lei não tem que ser questionada, mas cumprida. Quem for contra que apresente uma ADIN (Ação Direta de Inconstitucionalidade)”.
“A resposta foi o silêncio. Boas matérias ele aparece, mas se omite quando tem problema. A minha vida, as minhas ações, muitas vezes, elas são num arrebento de explosão. Não posso admitir cercear o direito de ir e vir. Decisão de medidas coercitivas cabe a governadores e prefeitos, como decidiu o STF. A mim não cabe questionar mais. Prefeitos e governadores, porém, estão cometendo absurdos. Governo tem que se posicionar. E quem tem que fazer isso? O presidente ou o ministro da pasta responsável?”
“É um ministro desarmamentista. Foi uma dificuldade facilitar a compra de armamentos e de munição. Aquilo que eu defendi durante a campanha ou pré-campanha os ministros têm a obrigação de estar comigo. Ou não estão no governo certo”, atacou.
“Hoje, pela manhã, sete ou oito deputados tomaram café comigo. Eu disse: ‘Hoje vocês vão conhecer quem não me quer na cadeira presidencial. Não está no Judiciário, nem no parlamento. Não disse o nome. Vocês vão conhecê-lo às 11h da manhã. Ele podia vir candidato em 2018, se queria ter a independência e autoridade que eu tenho”, disparou. “Fica difícil a convivência com uma pessoa que pensa diferente de você”.
“Iloná Szabó, nomeada suplente de um conselho, tem várias publicações defendendo aborto e ideologia de gênero. Completamente contra as bandeiras que eu, cristãos e até ateus defendemos. Foi uma dificuldade exonerar a mulher. Ele sempre falava que eu tinha dado o ministério com a porteira aberta. Não se lembrava do meu poder de veto”, acrescentou.
“Infelizmente ou felizmente, no dia de hoje, após a conversa, até fui sinalizado que ele iria à presidência comunicar o afastamento. Seria bem recebido, como foi o senhor Mandetta. Ele resolveu marcar uma coletiva e fez acusações infundadas, que eu lamento. Pra muitos isso vai deslustrar a sua tão defendida biografia. Nós, que estamos na linha de frente, eu e os ministros, temos uma meta, que é o bem-estar do povo e o futuro da Nação. Vamos levar muito tiro na cara, no sentido figurado, mas vamos cumprir a missão”, disse o presidente.
“Tem ministro que apanha todo dia, como Abraham Weintraub, que luta contra doutrinação de décadas e vem demonstrando que a educação do Brasil nunca esteve tão mal. Provas do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) mostram que estamos atrás na América do Sul e até em último lugar no mundo”, disse.
“Não vale seu filho ter um papel escrito diploma, que é uma figura decorativa (sic). Ele tem que ser um bom profissional e não um bom militante”, afirmou.
Bolsonaro, depois dos mais de 40 minutos, dos 47 que falou, leu um texto de três páginas, letra graúda. Abaixo, os principais trechos:
“Meu compromisso é com o Brasil e com a democracia. Sempre dei liberdade aos ministros, sem abrir mão do poder de veto. Sempre mantive diálogos republicanos. Temos discordâncias e divergências, mas mantive o respeito à opinião de todos. Sempre fui leal a eles.
“Ontem, mais uma vez, conversamos (com Moro) sobre a substituição na Polícia Federal. Esperava definir um nome para dirigir a instituição, embora, pela Lei, essa seja prerrogativa exclusiva do presidente da República. Estou surpreso com seu comportamento. Não se dignou a me procurar e preferiu coletiva de imprensa para comunicar a decisão. Não são verdadeiras as insinuações de que eu queria saber sobre investigações em andamento. Sérgio Moro sabe que jamais o procurei para interferir em investigações que estavam sendo realizadas. A não ser sobre Adele, Porteiro e meu filho 04.
“Exoneração de Valeixo é prerrogativa do presidente da República. Conversei por telefone, com o senhor Valeixo, e ele concordou com a exoneração. (Desculpe, senhor ministro, mas o senhor não vai me chamar de mentiroso. Como militar e cristão é a pior coisa).
“Houve comunicado de Valeixo, aos 27 superintendentes, dizendo que queria sair. A demissão não causou surpresa. PF é instituição do Estado e precisa ser conduzida pelas leis e Constituição. Não existe possibilidade de interferência na PF. Seus profissionais garantem isso. Não posso aceitar minha autoridade confrontada por qualquer ministro. Assim como respeito a todos, espero o respeito de todos.
Confiança é uma via de mão dupla. Seguirei no combate à corrupção, organizações criminosas e criminalidade.
Governo não pode ter alguém que te antecipa planos futuros outros.
Confio nos meus ministros, nos servidores públicos. O Brasil é maior do que qualquer um de nós. Este é o nosso compromisso. Nosso dever de servir à Pátra. A Pátria terá nosso empenho e sacrifício e se for necessário, o teu sangue para defender a Democracia, a tua liberdade.”
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