
Reatamento de líderes do crime organizado, Carnaúba (esquerda) e Zé Roberto (centro), para massacrar homens de João Branco, mostra que briga de criminosos pode ser encenação
O crime, organizado, estaria encenando um racha para melhorar o “ambiente de negócios”. Zé Roberto, João Branco e Gelson Carnaúba estariam fingindo uma briga que não existe. A trama teria como objetivo afrouxar o combate que o grupo está recebendo nas ruas. Eles perdem líderes, com os quais “pombos correios” têm contato mais estreito, e encontram dificuldade para restabelecer pontos. As mortes nos presídios atingiram indesejáveis e “efeito colateral”, ou seja, quem estava no lugar errado, na hora errada. É essa a teoria com que um grupo da segurança pública começou a ver os episódios recentes. Ainda mais com o reatamento entre Zé Roberto e Carnaúba. Comprovar a tese é difícil. Nenhum dos três chefes falaria, mas ela ajuda a destrinchar o novelo da crise atual.
“Tem muita gente do Zé Roberto e do João Branco que morreu porque demonstrava ódio demais do Gelson Carnaúba. A mesma coisa gente do Carnaúba: foi assassinada ao demonstrar sede de vingança demais contra Zé e João”, relata um policial. “No massacre morreu apenas o pessoal do João”, disse.
Os chefes perderam redutos significativos. O Buritizal, no bairro União, é um exemplo. Depois de “estourado”, ano passado, estava se reestruturando quando foi atingido este ano. A mesma coisa Compensa, Mutirão, Cidade das Luzes e Viver Melhor.
O Buritizal é ponto distribuidor de droga da populosa Zona Centro-Sul. Compensa atende a Zona Oeste e parte do Centro. Mutirão fica na estratégica confluência das Zonas Leste e Oeste. Cidade das Luzes era um paraíso das milícias. E Viver Melhor tem toda a expansão da Zona Norte para trabalhar.
A encenação do grupo iniciou, segundo esses policiais, com o aumento do número de mortes em confronto com a polícia. O policial que atira, mesmo respondendo a fogo, cria uma bronca para o resto da vida. A atual gestão da segurança tem oferecido suporte, tornando mais letal o confronto com criminosos. Na linguagem das ruas, a polícia amazonense agora tem “dedo leve”. Eles teriam percebido o perigo e decidido agir para criar clima de insegurança e atingir a cúpula atual.
O investimento do crime nos presídios só vale a pena quando se reflete em mais lucro nas ruas. Com o sistema de segurança asfixiando pontos de distribuição e venda, o lucro caiu.
O massacre do Réveillon 2016-2017 estabeleceu o predomínio do grupo Família do Norte (FDN). O de 2019 estaria fortalecendo Zé Roberto e Carnaúba. E, se a tese de encenação da briga dos chefes for real, João Branco também emergirá mais forte.
O jornal Folha de S. Paulo teve acesso ao resultado da investigação que levou à Operação Muralha. O secretário estadual de Segurança, Louismar Bonates, é acusado de fazer acordo com Zé Roberto. O criminoso garantiria a paz na cadeia, em troca de regalias. Bonates já havia deixado a Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (Seap), no massacre de 2017. O secretário era o policial federal Pedro Florêncio.
O relatório da Muralha seria a razão do jogo duro de Bonates, na gestão atual, contra pontos nevrálgicos do crime. O plano do secretário seria mostrar, internamente no governo e à sociedade, que não tem leniência com criminosos. Essa postura fere de morte a atuação do crime organizado nas ruas. Daí a necessidade de enfraquecer o “xerife”.
Quando Bonates, ainda titular da Seap, mandou Zé Roberto para presídio federal, ele o ameaçou de morte. Uma equipe de TV registrou o fato.
Uma comissão de cinco deputados federais visitou o Compaj e outros presídios nesta sexta (31/05). Os deputados amazonenses Delegado Pablo Oliva e Capitão Alberto Neto compõem o grupo. Foi Alberto, aliás, quem pediu a criação da comissão. A ideia é fazer relatório, sobre o massacre e o presídio, para entregar às autoridades federais.
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da prorrogação de mandatos está pegando vento. Prefeitos e vereadores teriam os mandatos prorrogados até 2022. Naquele ano ocorreriam eleições gerais, de presidente da República a vereador. O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, já disse que deixa o mandato em 31/12/2020. Mesmo se a PEC 56/2019 passar.
O general Hamilton Mourão é a linha de frente do Governo Federal na investigação do massacre. Ele veio a Manaus para a Semana do Guerreiro de Selva. Mas conversou com o governador Wilson Lima sobre as mortes e ofereceu ajuda. O general foi um dos mais destacados no curso de Guerra na Selva do Cigs.
Está surgindo em Manaus o Parque Mosaico. O primeiro empreendimento do complexo está quase no fim. Será um bairro moderno, inteligente, planejado. A previsão é que 100 mil pessoas, 5% da população de Manaus, vivam ou trabalhem no local. Mixcon Incorporadora, DPC Empreendimentos e MRV Engenharia estão à frente. A última é a maior construtora da América Latina. A primeira etapa do projeto, para se ter ideia, prolongará a Estrada dos Franceses até a Avenida do Turismo. Sem um centavo do poder público. Tudo privado.
O bairro planejado, que se chamará Parque Mosaico, será lançado no Teatro Amazonas. O evento, dia 18/06, terá show de Fábio Jr. e será restrito a grupo seleto de convidados.
A reinauguração do Mercado Leopoldo Neves, de Parintins, trouxe à tona histórias memoráveis. Elas foram lembradas por grupo de parintinenses, entre muitas gargalhadas. Havia, por exemplo, a fila de cestas e tijolos. Quando a carne escasseava, a população chegava de madrugada, hora que o mercado abria. E, no lugar de ficar na fila, colocava uma cesta ou um tijolo para marcar e garantir o espaço. Todos respeitavam e o dono da vaga podia ir tranquilo tomar uma garapa no “seo” Laureano, do lado de fora.
A melhor história, porém, é de uma figura conhecida em Parintins. Trata-se do “carne pro prefeito”. Ele encontrou uma forma de levar para casa carne da melhor qualidade… e de graça. Apresentava-se aos magarefes com a frase: “Vim buscar a carne pro prefeito”. O prefeito da época, daqueles políticos antigos, comprava a própria carne. Demorou um tempão para que o golpe fosse descoberto?.