“David Nasser, turco que gostava de ser chamado de turco, compôs uma beleza de batucada: “Nega do Cabelo Duro”. Oswaldo Santiago e Paulo Barbosa brincaram com os chineses (“Lá vem o seu China na ponta do pé/ lig, lig, lig, lig,lig, lig lé (…) “chinês, come somente uma vez por mês”), Adoniran Barbosa falou dos judeus (“Jacó, a senhorr me prometeu/ uma gravata, até hoje ainda não deu/ faz trrinta anos, que esto se passarr/ e até hoje o gravata não chegarr”). Lamartine Babo disse que a cor da mulata não pegava. Racismo? Racismo é a mãe!”
O texto acima é do jornalista Carlos Brickmann e foi publicado no Observatório de Imprensa. Faço-lhe apenas uma ressalva: a deliciosa marcinha “O teu cabelo não nega mulata” foi apenas adaptada por Lamartine Babo para o carnaval carioca, mas seus autores foram os irmãos pernambucanos João e Raul Valença, nos idos da década de 30 do último século. No mais é impecável, ao se insurgir contra verdadeira mania de encontrar racismo e discriminação em tudo o que se faz atualmente neste país. É, salvo engano, a psicose do “politicamente correto”.
Na mesma linha de raciocínio do jornalista, fico imaginando a quantos anos de cadeia seriam condenados Roberto Faissal e João Roberto Kelly se compusessem hoje a marcha “Olha a cabeleira do Zezé”. Dizendo que o tal Zezé parecia bossa nova ou Maomé, mas que “isso eu não sei se ele é”, estariam fatalmente enveredando pela trilha que os levaria a serem considerados “homofóbicos”, palavra que em si mesma é ininteligível, já que “homo” sempre foi “igual” e fobia significa pavor.
Um curumim gordo não pode mais ser chamado de baleia, nem o compridão de “vara de dar em doido”. Seria, se não me equivoco, uma forma do tal de “bulling”, termo de origem inglesa utilizado “para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (do inglês bully, tiranete ou valentão) ou grupo de indivíduos causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder”. (Wikipédia).
Convenhamos em que é muita frescura. Nenhum ser humano normal pode concordar com violência ou discriminação de qualquer tipo. Daí a vê-las nos atos mais triviais da vida de relação vai uma distância abissal.
Meu filho Luís Carlos, com o tom jocoso que o caracteriza em família, me disse abismado: “Pai, o Caquinho, com doze anos, ainda não sabe o que é cachuleta”. É que está proibido também. Para os mais novos: cachuleta (ou caçuleta, não encontrei nenhum dos termos no dicionário) consistia em dar uma petelecada na orelha, principalmente quando esse acessório lateral do corpo humano se apresentava em proporções avantajadas, como é o caso do meu amigo Alfredo Cabral. Na minha época, não houve menino que tivesse escapado da prática. Hoje, “cachuletar” haveria de ser considerado “bulling” dos mais perversos. Tudo leseira.
Figura mais bondosa que dona Olga Rocha era difícil de encontrar. Foi minha professora no Grupo Escolar “Princesa Isabel”. A boa senhora estaria na cadeia hoje porque em sua sala de aula, como, de resto, em todas as salas, a palmatória era instrumento indispensável para chamar à responsabilidade a criançada que insistia em não compreender que dois mais dois são quatro.
Nem se fale nisso hoje em dia. Não faltará um jurista mais ou menos emproado, com laivos de psicologia de beira de igarapé, que haverá de encontrar na palmada todas as características típicas do crime de tortura, na forma mais qualificada em que se possa apresentar a conduta. Novos tempos. Enquanto isso o ENEM continua produzindo pérolas e revelando o estágio perverso do ensino no Brasil.
Obs.: Estarei ausente nas próximas quatro semanas. Aos poucos que me leem, até breve.
* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...