14/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Enchente, planejamento e contenção

Publicado em 04 de junho, 2012

Um grande – e louvável – esforço está sendo feito para a retirada das casas que foram invadidas pelas águas, nas margens dos rios, lagos e igarapés. De uma parte, pelo Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim). De outra, como esforço extra das diversas esferas governamentais. São medidas que a enchente exige e há muito se fazem necessárias. O problema que se impõe agora é o que fazer das áreas desimpedidas, que nunca deveriam ter sido ocupadas e podem transformar-se em enormes espaços vazios, verdadeiro convite a todo tipo de atividade degradante, inclusive lixão e esgoto a céu aberto.

O Prosamim, que vem sendo executado há alguns anos, optou por construir equipamentos urbanos, principalmente ruas, praças e quadras esportivas, atendendo a uma parte da demanda manauara. Não sei o que está planejado para as demais áreas, submetidas à ação emergencial da atual alagação. Tomara que seja evitada a justificativa de que o importante no momento é o socorro aos flagelados e tudo fique para depois. Sem destinação, essas áreas serão novamente ocupadas por moradias e outra vez se realimentará o círculo que tanto adoece Manaus.

Sugiro que seja incluída, além das praças, ruas e quadras, uma coisa bem mais simples, chamada mata ciliar. Nada mais que o replantio de árvores nativas, nas margens dos cursos d’água, criando-se belos igapós, com toda a diversidade biológica que costumam atrair, no período da enchente, e grande auxílio à arborização da cidade, o tempo inteiro.

Os cientistas ambientais podiam incluir alguma discussão sobre isso, nos seminários, palestras e workshops destinados a marcar a Semana do Meio Ambiente, a partir de amanhã, segunda-feira.

Os ecologistas poderiam estudar um pouco o exemplo da veneranda Martha Falcão, que dá nome à Instituição de Ensino Superior de sua família, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) que muito lutou para dar um pouco de verde a Manaus. Ela estudou e apresentou às autoridades projetos palpáveis de arborização. Aplicou a teoria de forma objetiva e muito contribuiu para o que temos hoje nesse campo na cidade.

Vejo que o Prosamim parte agora para os bairros Presidente Vargas (Matinha), São Raimundo, Glória e São Jorge. Ótimo. Eleve-se a cota da margem do igarapé, antes de chegar ao rio Negro, mas o ideal seria não transformar aquele colosso que se vê hoje num simples córrego. O amazonense está acostumado a muita água. Crie-se uma minifloresta de igapó nas margens e quando a enchente vier terá para onde ir, além de se acrescentar beleza natural ao local.

Ouvi que plantar árvores nas margens de igarapés é criar abrigo para marginais. Ora, se fosse para eliminar ou evitar criar locais onde eles se escondem a gente teria que botar abaixo quase a cidade inteira e começar tudo de novo.

O que sugiro, como contribuição à cidade que é de meus pais, minha, de meus filhos e de meus netos, é que o planejamento presida os trabalhos de contenção das próximas enchentes. Não é tudo que se justifica pelo mal que a água grande traz. E um toque de humanização sempre faz muito bem.

 

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Arthur Virgílio Neto

* Arthur Virgílio Neto é diplomata, ex-líder do PSDB no Senado e prefeito de Manaus

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.