21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

24 de Maio

Publicado em 24 de maio, 2012

Na minha infância, a predominância da Igreja Católica, como religião, era indiscutível, sem necessidade de recorrer a institutos de pesquisa para estabelecer essa verdade. Éramos todos envolvidos pela aura de misticismo das pregações e dos ritos, a maioria deles de pompa e beleza inexcedíveis, como era o caso das missas cantadas no Natal e no domingo de páscoa. Na pequena igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, fincada ali na esquina das ruas Leonardo Malcher e Luis Antony, disputávamos o privilégio de participar das celebrações, envergando nossas batinas brancas, com faixas vermelhas, e sob o comando seguro de padre Leão, redentorista dos melhores e figura humana da alta qualidade.

Os cânticos enterneciam e empolgavam, misto de beleza e simplicidade, sem embargo da rigorosa observância do latim. Quando o celebrante entoava, no altar, o “Gloria in Excelsis Deo”, ouvia-se, do coro, comandado pelas irmãs Feitosa (Didi e Dadá), a pronta e misericordiosa reposta do “Et in terra pax hominibus bone voluntatem”. A maioria por certo não entendia o significado, mas era tamanha a fulgurância do momento que os participantes acompanhavam com a mais contrita e respeitosa admiração.

No calendário católico, o dia 24 de maio era dedicado a Nossa Senhora Auxiliadora. Suponho que ainda seja, mas as coisas já não são como na época a que me estou referindo. Lá na nossa paróquia nada tínhamos a ver com os festejos. Estes ficavam por conta dos salesianos, responsáveis pelos colégios Dom Bosco e Auxiliadora, que abrigavam, respectivamente, rapazes e moças. Nem pensar nessa história de escola mista.

O ponto alto era a procissão, que saía da igreja localizada na rua Silva Ramos. Minhas irmãs (“Ó se me lembro, e quanto!”) envergavam suas fardas de gala, rigorosamente passadas e engomadas por minha madrinha Irene, e, com orgulho pouco disfarçado, subiam a Leonardo em direção ao local da concentração. A boina azul e as luvas brancas davam o indispensável toque de solenidade ao uniforme com que as jovens iam prestar reverências à santa de sua devoção.

O cortejo abria com a banda do colégio Dom Bosco. Os moços, devidamente engalanados e concentrados, eram parte indissociável dessa festa salesiana. Competia-lhes, não sem um namorico aqui e outro acolá com suas colegas auxiliadoras, dar o acompanhamento musical para a ocasião, já que nunca ninguém imaginou uma procissão sem os hinos respectivos.

A imagem da virgem vinha em destaque absoluto, com paramentos rigorosamente cuidados e luxuosos. Uma coroa reluzia na cabeça e um manto de veludo lhe pendia dos ombros, num envolvimento completo. Das fileiras, erguia-se a exaltação, que a memória ainda me permite lembrar: “Mais que aurora tu surges radiosa/Toda a terra a teus olhos sorri/ Mesmo os astros que os céus embelezam/Perdem todo o fulgor junto a ti”.

A cidade parava para ver. A procissão seguia pelas ruas sem carros daquela Manaus de antigamente e nossa gente se persignava à passagem da santa, enquanto as moças entoavam o estribilho: “Brilhas qual sol radiante/Pura és como a lua/E a estrela mais bela/Tem inveja à beleza tua”, para logo em seguida estender a louvação nestes termos: “Doze estrelas circundam-te a fronte/O teu cetro é de ouro e marfim/O teu manto cerúleo e esplendente/É refúgio de paz para mim”.

Disso tudo só me resta a lembrança. Mergulhei no mundo ou o mundo me tragou. Não sei. Sei apenas que estive nesse passado e nele conheci as duas criaturas amorosas que foram minha mãe e meu pai. Nem mesmo sei por que recordei tudo isso. Talvez simples falta de assunto. Que seja. Não me arrependo.

Tempos de ingenuidade e ternura. Saudosos tempos.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.