17/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Difícil escolha

Publicado em 05 de outubro, 2018

Felix Valois

De acordo com os jornais, o segundo turno da eleição presidencial vai ser decidido entre um órfão da ditadura e um filhote do PT. É o mesmo que dar ao condenado a opção entre a forca e a guilhotina. Ou, como fazia a Inquisição, conceder ao herege a graça de ser esganado antes da fogueira, desde que renunciasse a satanás. Caso contrário, era churrasco humano ao vivo e a cores.

É difícil compreender como chegamos a essa situação. Faz apenas trinta e três anos que a ditadura acabou. Parece assim que ela nunca existiu e mesmo os que dela se lembram com angústia e medo (é o meu caso) são obrigados a ouvir sua relativização, assim como se ela não tivesse sido nada demais na história do país. Basta ver que o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, declarou, ainda esta semana, que os militares fizeram em 64 apenas “um movimento”. Levou uma reprimenda da Associação dos Juízes para a Democracia. E com razão. É certo que Sua Excelência não era nascido naquela época. Mas os fatos, não é preciso vivê-los para conhecê-los. Se assim fora, não haveria evolução.

Vamos tolerar a minimização do magistrado. Foi um movimento. Acontece que esse movimento tem denominação específica na ciência política, que o conhece, desde longas datas, como “golpe de Estado”. E o que se viu na sequência deste também tem nome muito claro e inconfundível: ditadura, com o adjetivo militar. O presidente constitucionalmente empossado foi deposto; mandatos populares foram cassados e os direitos civis jogados no lixo, inclusive com a suspensão da garantia do habeas corpus. Se isso não era ditadura, minha velha e veneranda avó seria uma bicicleta.

Adicione-se a isso o ambiente soturno imposto pelo medo, Prisões arbitrárias viraram rotina, ocorrendo pelo simples mau humor do coronel de plantão. Pessoas desapareciam. Nunca mais foram vistas, como foi o caso de nosso conterrâneo Tomás Meireles. A tortura nos cárceres oficiais era prática do cotidiano, com cidadãos sendo submetidos à mais vil e cruel violência física e psicológica. Tudo isso quando não ocorria o assassinato puro e simples do dissidente do regime.

Foi assim por mais de duas décadas. Saímos finalmente e logramos implantar uma ordem constitucional que, mesmo com seu viés democrático-burguês, representa um mínimo de segurança jurídica, a permitir que direitos sejam exigidos e obrigações legalmente cobradas. Por incrível que pareça, depois dessa reviravolta monumental, já dentro da nova ordem jurídica, ascende ao poder, com legitimidade e amplo apoio popular, o Partido dos Trabalhadores.

Deste nos livramos ainda não faz três anos, depois de sua permanência por treze. Seria, sem dúvida, exagero dizer que a desgraça foi tão grande quanto na ditadura. Mas não foi por falta de vontade e dedicação dos dirigentes da agremiação. Se já não se viam as manifestações explícitas de violência policial e oficial, a desonestidade passou a cavalgar sem freios, sem peias, num espetáculo de libertinagem corrupta, capaz de fazer corar o mais empedernido dos gângsteres.

Ali despontava o mensalão, com a desatinada compra de votos de parlamentares para satisfazer objetivos imediatos do governo. Mais adiante surge o maior esquema de paternalismo e populismo que o Brasil já conheceu, difundindo-se, qual a bubônica, a praga das cotas e das bolsas. A meritocracia foi pro brejo porque se deliberou que era necessário dar primazia a critérios de raça e posição social na escolha de quem poderia desfrutar de serviços oficiais no campo da educação.

Campo, aliás, em que vimos uma queda monumental, exibindo professores com salários aviltados e um ensino fundamental de qualidade mais do que deplorável. A ordem era não reprovar ninguém para que as estatísticas oficiais pudessem se vangloriar de um êxito tão fictício quanto criminoso. E ainda, de permeio, o enriquecimento assustador de alguns indivíduos, como foi o caso de um filho do Lula, gênio que logrou deixar de ser lavador de bunda de elefante no zoológico para brilhar no mundo das finanças como um grande e corajoso investidor. Sem esquecer a nescidade da Dilma, com a sua estocagem de ventos e a sua mulher sapiens.

Pois muito que bem. São os representantes de uma e outra dessas linhagens que se apresentam como possíveis vencedores do pleito. É demais para a minha velhice. Quem me dera pudesse eu caminhar singelamente para a morte, mantendo elevada a crença que sempre tive neste meu grande país. Não mais os ares ou eflúvios da ditadura ou do PT. São eles fétidos e infectos. O Brasil merece coisa melhor. Vou continuar acreditando nisso. E, de qualquer maneira, recuso-me a optar entre a corda e a lâmina. Se for o caso, que me deem a cicuta.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.