06/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Armando e o resto

Publicado em 12 de abril, 2012

A Amazonas Energia parece ter mórbida predileção pela área onde fica meu escritório para exercer sua incompetência e sua irresponsabilidade. Escrevo usando a bateria do laptop porque o fornecimento foi cortado a partir das nove da manhã. São doze e trinta e a resposta que dão aos telefonemas é a de que não há previsão para o restabelecimento e que estão enviando um carro para verificar a origem do problema. É dose pra elefante. Tudo isso depois de ler nos jornais que um vereador desta cidade sorriso declarou em alto e bom tom que tem saudades da ditadura. Coitado. Não deveria ainda ter nascido ou é um caso de urgência psiquiátrica. Mas a lei das compensações marcou presença e pude me deleitar com o belíssimo texto do professor Odenildo Sena, pondo no seu devido lugar as chorosas viúvas do golpe de 64, que, à míngua de argumentos, encetam batalha verbal para transmudar em “revolução” o nome da quartelada que infelicitou o país.

São coisas deste nosso imenso e querido país, onde é necessária a intervenção do Supremo Tribunal Federal para dirimir uma “dúvida” sobre o óbvio. Com que, então, é preciso ouvir eruditos votos para saber que feto anencéfalo não tem possibilidade de sobrevivência? E que as hipócritas invocações sobre o “direito à vida” não levam em conta o elementar direito da mulher de não se submeter a nove meses de gestação inútil e traumática? Vamos convir em que tamanha insensatez chega a ser espantosa, remetendo à possível compreensão do quadro geral em que se desenvolve a política tupiniquim.

Agora, por exemplo, não se fala em outro assunto que não seja a história do senador goiano e seu suposto relacionamento com uma cachoeira contravencional. Grande coisa! Se o homem errou que arque com as consequências do seu erro. Não carece de transformar isso num “casus belli”, assim como se tivessem sido abalados os alicerces da nacionalidade e o país se encontrasse à beira do apocalipse. Ademais, se a questão é encontrar corruptos e ladrões, não há de ser necessária a lanterna do sábio grego, eis que as espécies são mais prolíficas do que preá, dando mais do que chuchu na serra e jaraqui na piracema.

E tivemos uma palhaçada local. Alguns mentecaptos e irresponsáveis (se me é permitida a redundância) simplesmente tiraram os ônibus de circulação, causando um transtorno de proporções impensáveis. Como é mais fácil, os apressadinhos não tardaram a transformar a administração municipal em bode expiatório, como se a Prefeitura (qualquer Prefeitura) tivesse o condão de controlar atitudes insanas, oriundas da singela falta de compromisso com o bem-estar comum e da parte de um tipo de gente, cujos interesses pessoais sobrelevam qualquer consideração com o povo, com a sociedade, com o mundo.

Como se não bastasse, ainda me morre o português Armando. Também já é demais. Aguentemos a falta de energia, olhemos sobranceiramente a corrupção, tenhamos paciência com a eventual falha nos ônibus. Mas a ausência definitiva do Armando é algo que está acima disso tudo. Não mais a Bica? Mário Adolfo defende que ela continue a sair. Modestamente, também eu. Outra coisa não haveria de querer o portuga que, mesmo azafamado, não podia esconder a alegria dos olhos quando a multidão lotava a praça e a banda descia com sua irreverência e seus mamulengos. Armando era a Bica. Por que a Bica não pode continuar sendo o Armando? Vamos lá gente. Porque se é certo que a dona Lourdes ficou viúva, Ana Cláudia e Ana Lúcia não são as únicas órfãs. Todos os que amamos a vida estamos relegados a essa orfandade perpétua. É falta de difícil suprimento. Grande Armando!

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.