O Brasil está assistindo à chegada crescente de imigrantes haitianos. Fogem da miséria causada por um terremoto. Buscam abrigo no País que tanto se esforça para minorar seus males, comandando a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti, a Minustah. O espírito humanitário brasileiro, tendo a Igreja Católica à frente, os recebe de braços abertos. Mas eis que começam a surgir as primeiras contradições, que podem levar a confrontos e até intolerância, como diz hoje, em manchete, o jornal A Crítica.
Ocorre que Tabatinga, a cidade por onde os haitianos estão entrando no Brasil, é uma das mais carentes do País. Tem 56% dos seus habitantes dependentes do Bolsa Família e escassa oferta de emprego, disputada historicamente entre brasileiros, peruanos e colombianos. Agora, as vagas na construção civil e na estiva, localizada principalmente no porto da cidade, estão sendo ocupadas pelos haitianos, que são muitos, acordam cedo e chegam primeiro aos locais onde as vagas surgem.
Tabatinga tem ganhado visibilidade em todo o País, através da imprensa, e muitas promessas de ajuda para atender os haitianos. Mas a população tabatinguense convive com problemas antigos, relacionados à faixa de fronteira, como é o caso do tráfico de drogas, sem solução, apesar do clamor nacional.
Há 6 mil haitianos no Brasil, cerca de 1,5 mil dos quais ainda estão em Tabatinga, esperando pela análise de papéis por parte da Polícia Federal. É um risco que, morando em uma cidade onde até mesmo o abastecimento de víveres é difícil, haja o momento em que a população encare esse contingente como concorrente.
A ajuda tem que chegar antes que intolerância e xenofobia sejam exacerbadas e os haitianos acabem rechaçados pela população brasileira. Sem descartar o risco de cooptação pelo mercado do tráfico de drogas, que atua fortemente na região da tríplice fronteira e se alimenta da miséria, com grande capacidade de absorção de mão de obra.
O Estado Brasileiro precisa se debruçar com mais vagar sobre a questão dos haitianos. Tenho muita esperança na reunião do ministro do Trabalho, Paulo Roberto dos Santos Pinto, com os secretários municipais do Trabalho e Emprego de Manaus, Rio Branco e São Paulo, em busca de soluções. Não é possível que a autoridade nacional aprecie de braços cruzados essa entrada de estrangeiros no País.
É curioso que problemas tão antigos do Alto Solimões – tráfico, contrabando de peixe e madeira, desemprego, subdesenvolvimento – acabem ficando mais visíveis para o resto do Brasil justamente pela presença de cidadãos estrangeiros. Se os haitianos estão sofrendo por falta de infraestrutura, na contingência da passagem por Tabatinga, é óbvio que essa é a realidade cotidiana dos moradores da região. Se vamos resolver alguma coisa para evitar o sofrimento dos haitianos, o que é humano e justo, claro que precisamos resolver também para os brasileiros tabatinguenses.
Fiquemos atentos.
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* Marcos Rotta é deputado estadual, vice-presidente da Assembléia Legislativa e presidente da Com...