Houve ano em que foi uma guerra de foice a disputa entre os alunos do Amazonas e os do Tocantins para definir quem ficava com a lanterna no Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM. E olha que as questões colocadas não exigiam, nas exatas, um Einstein, nem, nas humanas, um Machado de Assis.
Por exemplo, na múltipla escolha, havia o seguinte item: O fundador de Brasília foi o presidente Juscelino Kubi… Opções: (a) letra de câmbio; (b) nota promissória; (c) cheque; (d) NDR.
Já sem nenhuma possibilidade de alcançar a zona de classificação, amazonenses e tocantinenses se empenharam acirradamente para ficar no último lugar, promovendo um festival de besteiras, talvez em homenagem à memória de Sérgio Porto, o imortal Stanislaw Ponte Preta.
Assim é que, indagado sobre a cidade em que nasceu Jesus Cristo, o amazonense, possivelmente na tentativa de minimizar o preconceito contra o vizinho Estado, respondeu com prontidão e ênfase: “Em Belém do Pará”.
Seu coleguinha do Tocantins não deixou por menos. Quando o professor perguntou para onde os ingleses levaram as seringueiras que roubaram da Amazônia, o gênio, que ouvira o galo cantar sem saber onde, tascou isto: “Para o Himalaia”.
Ainda nos domínios da História, o amazonense pontificou: “Quem foi Júlio César?”. Pronta resposta, com advertência: “Quem foi, não, professor. Quem é? É um dos melhores zagueiros do mundo”.
O concorrente não se deu por vencido. “Em qual continente vivem os portugueses?” Contestação cartesiana: “Lá perto de casa, mas o nome da taberna não é “continente”, não, professor, é “Viva Contente”.
De onde viemos e para onde vamos? Quando um aluno de curso médio não consegue distinguir “viaduto” de “veado adulto”, nem sabe que “pato no tucupi” não é a mesma coisa que “entupir o c… do pato”, estamos com certeza caminhando para a implantação definitiva da República dos Debilóides, cujas raízes já estão sendo fincadas a partir da afirmação de um Presidente da República, segundo o qual “ler é chato”.
Degradaram o ensino público, permitindo uma mercantilização que, sem sinais de melhoria significativa na qualidade, perdeu a noção do universal, limitando o aprendizado ao conhecimento do que está posto, numa ladainha repetitiva e estéril, em que não se faz a mínima questão de aguçar o senso crítico nem de estimular a criatividade.
E, como afinal, terminou a disputa entre o Amazonas e o Tocantins, lá pelas bandas do ENEM?
Foi pedido a todos os examinandos, de modo geral, que construíssem uma frase contendo uma verdade absoluta e indiscutível.
O tocantinense acabou ficando em último lugar porque respondeu: “O Lula, o PT e o PC do B são absolutamente honestos”, enquanto o nosso conterrâneo, na maior pavulagem, deu uma de ufanista: “No meu Estado, a segurança e a saúde públicas são ótimas”.
O desempate foi feito por sorteio.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...