17/SET 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Governo americano buscava ‘dissidentes’ nas eleições brasileiras para negociar tarifaço

Publicado em 17 de setembro, 2026

Governo americano buscava ‘dissidentes’ nas eleições brasileiras para negociar tarifaço

O governo brasileiro recebeu, em 16 de outubro do ano passado, uma proposta de negociação comercial dos Estados Unidos que incluía a garantia de participação de “dissidentes políticos” nas eleições de 2026, a exigência de compra de aeronaves da Boeing por companhias aéreas brasileiras e um direito de preferência dos americanos na aquisição de jazidas de minerais críticos no país.

O documento chegou ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enquanto ele estava em Washington se preparando para um encontro com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o chefe do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), Jamieson Greer. A reunião funcionava como uma espécie de retomada de diálogo entre os dois países, após um esbarrão entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Assembleia Geral da ONU.

Segundo apurado, a proposta foi enviada pela área técnica do governo americano durante as conversas preparatórias, como sugestão de temas para a pauta da reunião entre o chanceler brasileiro e os representantes do Departamento de Estado. Vieira, no entanto, informou o Palácio do Planalto sobre os pedidos e rejeitou os termos propostos. Na reunião com Rubio e Greer, esses pontos não chegaram a ser discutidos e não voltaram à mesa nas negociações seguintes.

Avaliação do governo

A avaliação do governo brasileiro é que a rejeição de Vieira não prejudicou as tratativas posteriores — pelo contrário: nos meses seguintes o governo Trump recuou tanto nas tarifas quanto nas sanções baseadas na Lei Magnitsky. Reservadamente, o Itamaraty classificou os pedidos iniciais da Casa Branca como uma tentativa de pressão diplomática, considerando que a proposta “nasceu morta” por nunca ter integrado, de fato, a lista de negociações oficiais.

Um dos pontos rejeitados de imediato foi justamente a menção a “dissidentes políticos”, termo sem validade jurídica no contexto de uma democracia. A exigência de compra de aviões da Boeing também foi descartada, por ser vista como interferência indevida em decisões comerciais privadas — já que companhias aéreas brasileiras têm liberdade para escolher seus fornecedores de aeronaves.

Propostas

Outros pontos da proposta incluíam a adesão do Brasil a um “princípio de neutralidade competitiva” sobre o papel do Banco Central na regulação de meios de pagamento eletrônico, como o Pix, além da eliminação de tarifas de importação sobre etanol, produtos químicos, máquinas, veículos e bens de alta tecnologia fabricados nos Estados Unidos. Os americanos também pediam que o Brasil informasse previamente sobre eventuais transferências de controle de ativos ligados a minerais críticos, dando às empresas dos EUA um direito de preferência antes de qualquer venda a outros países.

Negociadores brasileiros que acompanharam as tratativas avaliam que a proposta se assemelhava a modelos de acordos já firmados pelo governo Trump com outros parceiros comerciais. Diplomatas também demonstraram preocupação com a divulgação do conteúdo, já que o governo americano costuma exigir sigilo nas negociações e reage de forma dura a vazamentos.

Tags: ,

Veja mais notícias em Geral

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.