Por Augusto Bernardo Cecilio
Vacinação salva vidas. É a frase mais curta e mais verdadeira da saúde pública. No Brasil, ela tirou da circulação doenças que mataram gerações inteiras e garantiu que crianças de hoje cresçam sem medo de paralisia, sarampo ou tétano. Mas esse escudo está rachando. A cobertura vacinal caiu nos últimos anos, doenças já controladas voltaram a circular e a desinformação se espalhou mais rápido que vírus. Recuperar a confiança na vacina é uma urgência nacional.
Vacina não protege só quem toma. Ela protege o bebê que ainda não pode vacinar, o idoso com imunidade baixa, o paciente com câncer em tratamento. Isso se chama imunidade coletiva. Quando 95% de uma comunidade está vacinada contra sarampo, o vírus não encontra para onde ir e morre.
Para ter uma ideia, o SUS oferece 19 vacinas no Calendário Nacional, de forma gratuita. É um dos maiores programas do mundo. E funcionou: Poliomielite, o Brasil está livre desde 1989. O Sarampo, eliminamos a circulação em 2016. A Rubéola e Síndrome da Rubéola Congênita foram eliminadas em 2015. A Varíola foi erradicada do planeta. O Tétano neonatal está praticamente zerado, e a Febre Amarela, Hepatite B, HPV, Meningite, Pneumonia, Gripe, Covid-19 cujas mortes e internações despencaram após as campanhas. Sem vacina, essas doenças voltam. E voltam rápido, porque vírus não pede visto.
Infelizmente convivemos com a ameaça do retorno de doenças já controladas. Os números acendem alerta. A cobertura da vacina tríplice viral caiu de 95% para menos de 80% em muitos municípios. A da pólio está abaixo da meta há 5 anos seguidos. Consequência: em 2018 e 2019 tivemos surtos de sarampo com mais de 20 mil casos e 15 mortes. Em 2021 o Brasil perdeu o certificado de país livre do sarampo. Casos de coqueluche e difteria voltaram a subir. E a poliomielite ronda a fronteira.
O principal motivo hoje é a queda na procura. Pai e mãe deixaram de levar os filhos ao posto. E quando uma criança não se vacina, ela vira ponte para o vírus voltar para a escola, para o ônibus, para a família inteira.
Doenças que achávamos do passado podem voltar a lotar UTI infantil, e é mais caro tratar um caso de meningite do que vacinar 1.000 crianças. É mais doloroso enterrar uma vítima de sarampo do que aplicar uma gotinha.
A desinformação é um dos nossos principais inimigos. Ela ataca a mente das pessoas e prejudica toda a sociedade. Se o vírus biológico ataca o corpo, a fake news ataca a confiança. E ela se espalha no WhatsApp, TikTok e Instagram em segundos.
O problema é que medo viraliza. Um vídeo de 30 segundos com “doutor” falso assusta mais que 10 páginas do Ministério da Saúde. O resultado é pai com medo, mãe em dúvida e criança sem vacina. Famílias inteiras deixam de ir à campanha por causa de uma corrente de mentiras.
Essa desinformação mata. Mata porque atrasa dose, porque cria dúvida e porque desgasta profissionais de saúde que passam o dia explicando o que já é ciência.
O Calendário do SUS protege contra: Tuberculose, Hepatite A e B, Pneumonia e Meningite por Pneumococo, Poliomielite, Difteria, Tétano, Coqueluche, Rotavírus, Febre Amarela, Sarampo, Caxumba, Rubéola, Catapora, HPV, Meningite C, Gripe e Covid-19.
Para adultos temos vacinas para Hepatite B, Febre Amarela, Tríplice Viral e doses de reforço. Para idoso: Pneumonia e Gripe. Para gestante: para proteger o bebê de coqueluche.
Manter a vacinação em dia é importante porque sem o reforço a imunidade cai com o tempo. tétano e difteria precisam de reforço a cada 10 anos. As novas vacinas como para HPV e Covid entraram recentemente e muita gente perdeu a janela. Com os surtos em época de chuva voltam a dengue e a leptospirose. Em época de frio, gripe e pneumonia. Estar vacinado evita colapso. E para completar, a da Febre Amarela é obrigatória para ir a vários estados e países.
A caderneta de vacinação é o RG da sua imunidade. Levar na UBS para atualizar leva 10 minutos. Tratar uma internação leva 10 dias. O que podemos fazer? As famílias devem verificar as cadernetas para saber quais vacinas estão faltando para os seus familiares. As escolas devem exigir comprovante de vacinação nas matrículas. O governo deve fazer campanhas permanentes e realizar busca ativa, além de responsabilizar quem espalha fake News, inclusive políticos e seus simpatizantes.
O que mais podemos fazer? Os influenciadores devem espalhar boas notícias e combater a desinformação, e os profissionais de saúde devem ter paciência para explicar, tirar dúvidas e acolher bem quem procura um posto de saúde.
Por fim, o Brasil já provou que sabe vacinar. Erradicamos varíola. Tiramos a pólio das ruas. Vacinamos 200 milhões contra Covid em tempo recorde. Temos ciência, estrutura e SUS. O que não podemos perder é a memória. Memória de como era viver com medo de paralisia. Memória de sala de aula vazia por causa de sarampo.
Vacinação é ato de amor e ato de cidadania. Quando você vacina seu filho, você protege o filho do vizinho. Quando você toma a dose de reforço, você desafoga o hospital. É questão de inteligência!
*Auditor fiscal e professor
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* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.