
Para muitos parintinenses, o sonho de ser item começa ainda na infância. (Foto: Acervo Pessoal)
Para alguns, esse sonho ganha vida na arena.
Ser tripa do boi é muito mais do que interpretar um personagem. É dar alma e movimento a um boi de pano e espuma, transformando arte em emoção.
O que começou como um sonho de criança hoje se torna realidade diante de milhares de pessoas. E aquele boi que um dia foi apenas brinquedo nas mãos de um menino é o mesmo que hoje contagia o mundo para Denison Piçana, de 35 anos, filho do ex-tripa Denildo Piçana.
Denison lembra que ganhou seu primeiro boi aos 10 anos de idade. “Como as crianças não podiam participar das festas, a diversão acontecia na Rua Armando Prado ali no São José as crianças se reuniam pra brincar”, conta..
Sua trajetória dentro do Boi Garantido foi construída passo a passo. Passou pela Batucada Mirim, integrou a Batucada oficial, foi artista no galpão ao lado de Vandir Santos. Cada experiência serviu para aprofundar o conhecimento sobre a cultura do boi e fortalecer ainda mais sua paixão.
Hoje, Denison se sente honrado por vestir a mesma “segunda pele” do pai e dar continuidade a essa história.
“ Não é só uma evolução para os jurados. É a realização de um sonho e a certeza de ter me tornado vitorioso por conseguir ocupar o lugar que sempre admirei”, conta.
Aos 16 anos estreou como tripa e em 2025 assumiu o item oficial e o aprendizado acontece da forma mais simples e verdadeira: observando o pai.
“Ele é a única pessoa que me ensina. Eu olho e aprendo. O bailado tradicional que faço hoje veio dele”, conta o jovem, mostrando que, em Parintins, a cultura é transmitida pelo exemplo e pelo amor.
Evoluir com o boi e dar vida ao símbolo maior da festa é a essência de uma tradição que atravessa gerações na família Azevedo.
Há mais de cinco décadas, nomes como Mariozinho Azevedo, Rei Azevedo ( amo) Marquinho Azevedo ( tripa ) e Edson Azevedo ajudaram a construir uma história de dedicação e amor pelo Boi Caprichoso.
Hoje a tradição continua com Alexandre e Edson Junior, tripas oficiais.
Para os herdeiros dessa trajetória, ser um Azevedo é um privilégio e também uma grande responsabilidade.
“A paixão nasceu cedo. Aos seis anos de idade na Rua Cordovil eu já brincava com o boi já era o tripinha. A inspiração era o mestre Marquinho Azevedo, responsável por revolucionar a arte da evolução” conta. Com o passar dos anos, Edson veio a participação na Marujada e, posteriormente, a oportunidade de assumir oficialmente o item, substituindo uma trajetória construída ao longo de oito anos de preparação intensa.
“Nossa família também tem a missão de confeccionar o boi e nesse ano teremos quatro bois na arena. Já estão prontos” conta Jr.
Alexandre Azevedo, desde que se entende por gente, via o pai Marquinho Azevedo como o grande herói e tripa do Boi. “Meu sonho era ser tripa também e fui cultivado em silêncio até o momento em que assumi a missão. Quando o papai encerrou sua trajetória, chegou a minha vez de dar continuidade ao legado da família” enfatiza.
Há dez anos vivendo essa responsabilidade, construiu uma trajetória vitoriosa. “ Desde 2017, faço parte de um período de conquistas marcantes, perdemos apenas dois campeonatos. Em 2023, o meu pai ainda estava presente para testemunhar a continuidade da história que ele ajudou a construir”, recorda.
Para a família Azevedo, mais importante que os títulos é a preservação da tradição. Porque, em Parintins, dar vida ao boi é muito mais do que uma função dentro da arena: é uma herança afetiva, uma missão de amor e a representação da alma do festival.