
Fotos: Elinaldo Tavares
PETA CID
Especial para o Portal do Marcos Santos
O Festival de Parintins se tornou referência nacional e cada vez mais movimenta a cultura, a economia da cidade, mas também, ao longo das décadas, deu origem a profissões que praticamente só existem dentro do universo bovino. São funções que vão desde o “poerinha”, pessoas que fazem a limpeza dos galpões, até aquelas altamente especializadas como os que trabalham com robótica e nasceram das necessidades dos bois e foram aperfeiçoadas de geração após geração.
Por trás do espetáculo que encanta milhares de pessoas no Bumbódromo, existe uma cadeia de trabalhadores com conhecimentos únicos. São profissionais que dominam técnicas, linguagens e habilidades raramente encontradas em outros eventos culturais do país.
No “dialeto” de Parintins eles são paikcés (empurrador de alegoria do Caprichoso), kaçauerés (empurradores do Garantido), operador de mecanismo alegórico, artista de ponta, artista de figurino, tripa (o homem que dança debaixo do boi) soldador artístico, pastelador, pearas (maestros da Batucada e Marujada), poeirinhas (limpadores de galpão) e tantas outras ocupações que só a inventividade do parintinense é capaz criar.
No Boi Garantido, os pearas são Marcelo Bilela Ivoney Sopa, Baleinha e Francinaldo. No Caprichoso, Marcio Cardoso, Caio Vinicius e Yuri Machado.
Quem vive o boi desde a infância tem a oportunidade de crescer e ganhar destaque, como o mestre peara da Marujada, Yuri Machado. “Eu comecei tocando caixinha na Escolinha de Arte com o mestre Capela, aprendi percussão, fui pra Marujada e em 2002 comecei como substituto. Agora estou nessa função com muito orgulho. Pra mim é muito importante a gente comandar por duas horas e meia um grupo de 400 ritmistas. É uma responsabilidade muito grande, não podemos errar”, conta Yuri.
Uma profissão fundamental é o soldador artístico. Diferente da soldagem industrial convencional, o soldador artístico cria estruturas metálicas complexas que precisam unir resistência, leveza e acabamento artístico para sustentar as gigantescas alegorias do festival.
O soldador de alegorias do Garantido, Adson Mega, está há mais de 20 anos na profissão. “Comecei com o Júnior de Souza, o considerado e agora com Rogério Azevedo. É um trabalho minucioso, desde a planta baixa, a confecção da ferragem, a robótica. Eu sou feliz no que faço”, disse Mega, que faz o trabalho invisível que é soldar as estruturas.
Outro profissional do Garantido é Mauro dos Santos, escultor de alegoria. “Nosso trabalho é no detalhe, com amor e compromisso”, disse ele, enquanto esculpia a imagem de uma santa. Ele está na função há vários anos e disse que o trabalho tem um cronograma e divisão de tarefas.
As mulheres também estão nos galpões ganhando cada vez mais espaço. É o caso da pasteladora de alegoria, outra profissão que abriu as portas para muitos trabalhadores e para as mulheres. A Mara Oliveira tem só 25 anos, mas já capricha na pastelagem das estruturas no galpão do Caprichoso.
“Eu aprendi a pastelar trabalhando pra uma escola de samba em São Paulo. Aí cheguei aqui e já consegui o trabalho”, explicou ela, mostrando como usa a cola, tinta e água para molhar o tecido ou papel para iniciar o processo. “Também faço decoração, pra trabalhar aqui tem que estar disposto a aprender tudo”, disse.

Foto: Elinaldo Tavares
Uma função primordial nos dias da finalização do boi de arena é a do empurrador de alegorias, que conduz enormes estruturas pela arena, exigindo força, coordenação e trabalho em equipe.
Quem ganha destaque também é o tripa, o artista que dá vida ao boi de pano, exigindo resistência física, interpretação e sincronia com a apresentação.
Outro trabalhador importante é responsável por movimentar módulos e partes das alegorias durante as evoluções, assegurando que os efeitos visuais aconteçam no momento exato. O profissional domina sistemas de movimentação capazes de fazer personagens voarem, ou surgir e se transformar diante do público.

Foto: Divulgação
Essas são apenas algumas das profissões que surgiram e se desenvolveram em Parintins. Muitas delas não possuem formação técnica formal nem reconhecimento em classificações profissionais tradicionais, mas representam conhecimentos altamente especializados construídos na prática, dentro dos galpões dos bois Caprichoso e Garantido. Mais uma magia que só Parintins é capaz de produzir.