07/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Ao assumir cadeira imortal na ABL, Milton Hatoum leva a literatura da Amazônia ao centro do país

Publicado em 25 de abril, 2026

Ao assumir cadeira imortal na ABL, Milton Hatoum leva a literatura da Amazônia ao centro do país

A posse de Milton Hatoum na Academia Brasileira de Letras, nesta sexta-feira (24), não é apenas um marco individual — é um gesto simbólico que atravessa geografias, histórias e silêncios. Pela primeira vez, um escritor nascido no Amazonas ocupa uma cadeira entre os chamados “imortais”, levando consigo a densidade da memória amazônica, das cidades ribeirinhas e das vozes que moldam sua literatura.

Aos 73 anos, o autor manauara chega à cadeira nº 6 — antes ocupada por nomes como Cícero Sandroni — com a mesma discrição que marca sua trajetória. Sem alarde, sem pressa, sem concessões.

“Não estava no meu horizonte ser imortal”, afirmou, em entrevista antes da cerimônia. “Escrevi meus livros com muita honestidade. Não fiz coisas que não sentia profundamente, que não faziam parte da minha vida. E eu transformei minha vida em ficção.”

Escritor

A frase resume não apenas o escritor, mas a própria essência de sua obra: uma literatura que nasce da experiência, atravessa a memória e devolve ao leitor um Brasil complexo, desigual e profundamente humano.

Recebido pela acadêmica Ana Maria Machado — que, anos atrás, plantou a ideia da candidatura durante uma conversa despretensiosa — Hatoum chegou à ABL como quem amadurece lentamente uma decisão. “Fiquei de pensar, pensei muito e aqui estou. Quero dar minha modesta contribuição”, disse, com a serenidade que também marca seu processo criativo.

Serenidade, aliás, que contrasta com o tempo acelerado do mundo contemporâneo. Em meio à lógica da urgência, Hatoum segue escrevendo à mão, defendendo o tempo longo da literatura.

“O desafio para quem escreve é deixar um pouco de lado o celular. A literatura pede e exige tempo e concentração”, afirmou.

Tempo

Essa relação com o tempo — quase orgânica — talvez explique o ritmo de sua escrita, que ele próprio associa à origem. “Eu mesmo não entendo essa lentidão que, no entanto, não me exaspera. Talvez ela guarde relação com o ritmo da Amazônia”, refletiu, durante o discurso de posse.

E é justamente essa Amazônia — afetiva, urbana, contraditória — que atravessa sua obra. Desde “Relato de um Certo Oriente”, passando por “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”, todos vencedores do Prêmio Jabuti, Hatoum construiu uma das trajetórias mais consistentes da literatura brasileira contemporânea. Seus livros, traduzidos em 17 países e com mais de 500 mil exemplares vendidos, exploram temas como imigração, ditadura, identidade e emancipação feminina, sempre com a memória e a cidade como fios condutores.

Sem panfletarismo, sua escrita ilumina as desigualdades históricas do país — tema que também atravessou seu discurso na ABL, ao evocar Graciliano Ramos e o personagem Fabiano, de “Vidas Secas”. “Fabiano quer pensar, mas não sabe pensar. Esse é o impasse de milhões de brasileiros até hoje”, disse, apontando para uma ferida ainda aberta na sociedade brasileira.

Hatoum também refletiu sobre o próprio fazer literário, rebatendo a ideia recorrente de crise do romance. “Fala-se na crise do romance. Ora, o romance como gênero literário já nasceu em crise. Aliás, crise e crítica têm o mesmo étimo, e o romance sobreviveu a ambos. Enquanto houver vidas neste mundo em chamas, haverá histórias a serem narradas.”

Manaus

Nascido em Manaus, em 1952, com formação em arquitetura pela USP e passagens por cidades como Madri e Paris, Hatoum construiu uma carreira que transita entre a literatura, o ensino e o pensamento crítico. Foi professor universitário, colunista, escritor residente em instituições internacionais e segue atuando como uma das vozes mais relevantes da cultura brasileira.

Agora, ao ocupar uma cadeira fundada por Machado de Assis, Hatoum não apenas se junta à tradição — ele a expande. Leva para o centro do cânone literário uma Amazônia que escreve, pensa e resiste.

E, fiel ao próprio percurso, chega sem pressa — mas deixando uma marca que já é permanente.

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