
Foto: Reprodução/Boi Garantido
O compositor, poeta, escritor e multiartista parintinense Tadeu Garcia faleceu neste sábado (7), em São Paulo, aos 68 anos. O artista enfrentava um câncer agressivo, diagnosticado tardiamente.
A Associação Folclórica Boi-Bumbá Garantido confirmou a morte do compositor em nota oficial assinada pelo presidente Fred Góes e pelo vice-presidente Marialvo Brandão. Na manifestação, a agremiação lamentou a perda de um dos nomes mais marcantes da história musical do boi da Baixa do São José, conhecido entre torcedores e artistas como o “Mestre das Evoluções”.
Natural de Parintins e cria da Baixa da Xanda, Tadeu Garcia construiu uma trajetória profundamente ligada ao Festival Folclórico de Parintins. Agrônomo de formação e analista ambiental aposentado, encontrou na poesia e na música um caminho para traduzir o sentimento de pertencimento ao Boi Garantido e à cultura popular da ilha.
Ao longo de décadas dedicadas ao bumbá, reuniu uma discografia expressiva e deixou uma marca singular na história do festival. Entre mais de 214 músicas registradas, 79 foram compostas exclusivamente para o Boi Garantido. Sua obra ganhou destaque principalmente pelas toadas voltadas ao item Evolução — segmento que marca os primeiros momentos do espetáculo no Bumbódromo, quando o boi entra na arena e a nação encarnada é convocada a levantar a galera.
Tadeu Garcia tornou-se referência nesse tipo de composição. Ao todo, escreveu 18 toadas destinadas a esse momento da apresentação, ajudando a construir uma estética própria para o Garantido dentro da poética do festival. Sua sequência histórica de toadas de Evolução começou em 1995 e atravessou diferentes edições do espetáculo, passando por Segunda, Terceira, Quarta e Quinta Evolução e chegando à Décima Nona Evolução, que integrará o álbum do Garantido de 2026, “Parintins: Portal do Encantamento”.
Entre suas composições mais lembradas estão toadas como “Marca da Ausência” (1997), “Tempos de Cabanagem” (1998), em parceria com Paulinho Du Sagrado, “Luzes Rubras” (2001), “Alma de Guerreiro” (2002), “Sublimação” (2004) e “Canto do Sonho-Fantasia” (2009), entre outras que atravessaram gerações de torcedores encarnados.
As toadas de evolução escritas por Tadeu eram mais que músicas de abertura. Eram convocações poéticas. Versos que descreviam a força simbólica do boi em movimento e transformavam o instante da entrada na arena em ritual coletivo, de orgulho e pertencimento.
Além da música, Tadeu também se dedicou à literatura e à pesquisa sobre a cultura amazônica. Em 2025, lançou o livro “As Lendas e Tradições do Folclore de Parintins”, obra que reúne reflexões e estudos sobre as raízes culturais do boi-bumbá e as tradições populares da ilha.
Nos últimos anos, o compositor também vinha cultivando parcerias com o sambista Chico da Silva. Segundo o próprio cantor, diversas composições estavam sendo trabalhadas em conjunto. “Tem muita coisa vindo aí. O Tadeu tem umas letras muito boas”, afirmou Chico em uma das conversas sobre o projeto.
O material dessas parcerias ainda não foi divulgado e permanece como parte do legado artístico deixado por Tadeu Garcia — versos que continuam vivos na memória da cultura amazônica.
Reconhecido por muitos como um dos compositores que melhor traduziu em poesia o sentimento de pertencimento ao Boi Garantido, Tadeu Garcia deixa um legado profundo para o Festival de Parintins.
Sua obra permanece nas toadas, na memória da nação vermelha e branca e na história da cultura popular do Amazonas.

Foto: Reprodução/Boi Garantido
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