
Alvorescer 2024 é o vinho de Garanhuns premiado que muda a perspectiva da produção vitivinícola do Brasil. Kaká Melo (nas três fotos) celebra as conquistas
Produzido a 900 metros de altitude no Agreste de Pernambuco, o vinho Alvorecer Malbec 2024, da vinícola Melo (Garanhuns), conquistou medalha de ouro no Catad’or Wine Awards 2025, realizado no Chile, um dos mais importantes concursos de vinhos das Américas. O vinho de Garanhuns também já havia recebido medalha de prata no Decanter World Wine Awards (Londres), com 92 pontos, além de 91 pontos da revista brasileira Adega e 89 pontos no Guia Descorchados, referência sul-americana.
O resultado confirma a consolidação da produção de vinhos de altitude no Nordeste, fenômeno que rompe a lógica tradicional das regiões vinícolas brasileiras concentradas no Sul. A Melo Vinícola, fundada por Kaká Mello, opera no sítio Mochila de Baixo, em Garanhuns, e vem se tornando referência nacional na elaboração de vinhos com identidade própria, marcados pelo clima ameno, noites frias e solo granítico da região.
Segundo Kaká, o prêmio é resultado de um trabalho experimental que começou pequeno e, em poucos anos, mostrou potencial internacional. Ele explica que o Malbec de Garanhuns surpreende jurados por unir frescor, acidez equilibrada e taninos sedosos, características pouco associadas ao clima do Nordeste. “Construímos um vinho que respeita o terroir daqui, sem tentar imitar o que já existe em outras regiões. O prêmio mostra que o Brasil tem muito mais território de vinho do que imaginava”, afirma.
O Alvorecer Malbec 2024 é descrito como um tinto frutado, com aromas de cerejas frescas, ervas e leve toque mineral. Passa por fermentação em tanque de concreto e seis meses de barrica francesa de segundo uso, com 13,7% de teor alcoólico, e temperatura ideal de serviço entre 16°C e 18°C.
Além do Alvorecer, outro rótulo da vinícola também foi premiado no Chile: o Sete Laços Reserva Malbec 2024, que recebeu medalha de ouro no mesmo concurso. O vinho tem passagem de 12 meses em barrica francesa, corpo médio, taninos macios e notas de frutas negras, baunilha e madeira integrada.
A viticultura de altitude em Pernambuco começou a ganhar visibilidade nacional nos últimos cinco anos, e tem atraído enoturistas, sommeliers e distribuidores. A safra 2024 da Melo Vinícola esgotou parte dos lotes antes mesmo da divulgação oficial dos resultados do concurso.
O Catad’or Wine Awards reúne jurados de diversos países e avalia milhares de rótulos da América do Sul e de outras regiões do mundo. A edição de 2025 reforçou o crescimento do vinho brasileiro em premiações internacionais, especialmente em categorias antes dominadas por Chile, Argentina e Uruguai.
Para Kaká, a medalha é um divisor de águas para a viticultura nordestina. “O vinho premiado nasce a poucos quilômetros de onde muita gente acredita que só se planta mandioca. Isso quebra preconceitos, abre mercado e mostra que o Brasil é um continente enológico ainda em construção”, diz.
A vinícola mantém vendas diretas ao consumidor e comercializa a linha Alvorecer a partir de R$ 110, e a linha Sete Laços a partir de R$ 195, além de outros rótulos como Pinot Noir em ânfora, branco blend de brancas e rosé de Malbec.
A produção de vinhos finos em Garanhuns só é possível por causa de um conjunto de fatores que foge do imaginário comum sobre o Nordeste. A cidade está localizada em uma área de altitude que ultrapassa 900 metros, com noites frias, alta amplitude térmica, boa drenagem do solo e incidência solar controlada, condições semelhantes às de regiões vitivinícolas do Chile, Argentina e parte da Europa. Esse microclima permite colher uvas com acidez preservada, maturação equilibrada e taninos mais finos.
Além disso, produtores da região adotaram técnicas específicas para o terroir, como fermentação em tanques de concreto, colheita no alvorescer, uso de barricas francesas de segundo e primeiro uso, e um processo de vinificação gradual, que evita excesso de madeira e prioriza frescor e elegância. O modelo de Garanhuns a segue a lógica das vinícolas tradicionais. O sítio Mochila de Baixo colhe as uvas brancas em janeiro e as tintas em fevereiro. No Vale do São Francisco, as condições são diferentes de Garanhuns e o clima permite duas colheitas anuais.
Com prêmios internacionais, visitas técnicas e interesse crescente de sommeliers, o Agreste pernambucano começa a despontar como nova fronteira do vinho brasileiro — não mais como exceção, mas como denominação emergente.
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