
Julires, irmã do artista plástico Juarez Lima, recentemente falecido, exibe um dos maiores peixes do Festival, esta pirarara com 90cm, . Foto: Ezildo Jacaúna
Este fim de semana, sexta (19/09) e ontem, a comunidade São José, no Paraná do Espírito Santo de Cima, viveu a 33ª edição do Festival do Peixe Liso. A festa une sabor, música, esporte e tradição ribeirinha. Mais do que um evento, ela reafirma a identidade de Parintins como cidade festeira, capaz de transformar cada mês em uma nova celebração.
No rio Amazonas, o maior peixe pescado foi da equipe de Genilson Jacaúna. No Paraná do Espírito Santo, o feito foi da equipe de Daniel Jacaúna. E na linha comprida, a modalidade mais artesanal, a equipe de Breno Jacaúna pegou o porrudo, como se diz no parintinês raíz.
O evento foi criado a partir da tradição cultivada por pescadores, no extenso Paraná do Espírito Santo – que é dividido nas partes de Baixo, de Cima e do Meio. Viram Jacaúna nos primeiros lugares da competição? Não é à toa. O pescador, agricultor, pecuarista e empresário Domingos Fonseca Jacaúna, seo Dominguinho, é o grande patriarca da festa. Ele comprava toneladas de peixe liso nessa época do ano, a da piracema. O filho, Ezildomar, conhecido como Ezildo, o acompanhava e acabou tendo a ideia de montar o Festival do Peixe Liso, tendo ao lado o tio, José Fonseca Jacaúna, que também trabalhava com seu Dominguinho. E lá se vão 33 anos.
Os peixes que dão nome ao festival, pirararas, surubins, piramutabas e filhotes, foram servidos em pratos típicos, mas também viraram mote para brincadeiras e competições que reúnem famílias e visitantes. Ao redor, a música, as danças e o encontro de gerações criam atmosfera em que o cotidiano vira espetáculo.

O Paraná do Espírito Santo do Meio, local onde se realiza o Festival do Peixe Liso. Foto: Yuri Pinheiro

A vice-prefeita de Parintins, Vanessa Gonçalves, confere uma pirarara durante o festival. Foto: Arleison Cruz
Parintins não deixa o calendário cultural esvaziar. A Prefeitura Municipal, em tradição iniciada pelo ex-prefeito Bi Garcia e seguida pelo sucessor, Mateus Assayag, incentiva, organiza e amplia cada evento, mantendo o espírito festeiro sempre aceso.
Em janeiro, as ruas se enchem com o Festival de Pastorinhas, que marca o Dia de Reis. Elas mantêm viva a memória de dona Sila Marçal, mãe do compositor Raimundinho Dutra. Ela sustentou um presépio, em barraco coberto de palha, de chão batido, até o fim. Quando partiu, a tradição quase se esvai, mas logo retornou e hoje está arraigada no calendário. É Dona Sila Marçal que dá nome, com toda justiça, ao anfiteatro onde as pastorinhas se apresentam hoje.
Logo depois, no carnaval, o CarnaIlha mistura ritmos e garante espaço para a toada de boi-bumbá, lembrando que a tradição está sempre presente. O que iniciou como uma brincadeira, com desfiles de pequenos blocos, hoje é uma festa estruturada, gigantesca, batendo este ano novo recorde de público.
Em junho, os olhos do mundo se voltam para o Festival de Parintins, quando Garantido e Caprichoso transformam o Bumbódromo em um palco de cores, sons e alegorias gigantescas. Os preparativos dos bumbás, com ensaios que iniciam cada vez mais cedo, após o CarnaIlha, atraem turistas. Escolha de toadas, ensaios, lançamento do trabalho de estúdio, com álbuns que são verdadeiras playlists das apresentações, fazem arder a chama da Festa dos Bumbás, ao longo do período que antecede o evento propriamente dito.
A capital do Amazonas, Manaus, claro, entra nessa dança, com o Bar do Boi e o Curral do Garantido, no Sambódromo. A Festa da Vitória do Garantido, este ano, bateu recorde de público. Além, claro, das tretas, muitas tretas, envolvendo a rivalidade, trocas de itens e o uso, pelas administrações, dos recursos de patrocinadores – este ano, em torno de R$ 25 milhões, rigorosamente iguais, para cada um.
Um mês depois, em julho, a fé toma a cidade com a Festa de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do município, que reúne milhares de fiéis em procissões e romarias, durante 10 dias. Comerciantes nordestinos, estabelecidos na cidade ou atraídos pelo evento, montam barracas oferecidas pela Arquidiocese. Há muitas guloseimas e jantar no arraial, entre um giro e outro, é quase obrigação.
Todos os dias, num palco instalado em frente à imponente Catedral de NS do Carmo, cantores se revezam em shows bem elaborados. Os artistas plásticos, recém-saídos da disputa dos bumbás, se revezam na construção do Andor da Santa, um item da curiosidade em torno do evento. Parece incrível, mas, na maioria das vezes, o movimento na Ilha, durante a Festa do Carmo, é até maior que o do Festival de Parintins.
No auge do solzão amazônico, as praias da região viram palco para o Festival de Verão do Itaracoera, no rio Uaicurapá, mesclando esportes, música e lazer à beira-rio. É quando a vazante revela as muitas praias do rio e as águas estão límpidas. Localizada a três horas em barco regional e a 30 minutos em lancha rápida, a praia do Itaracoera, com suas areias brancas e finas, é a grande atração.
E, ainda em setembro, são as comunidades ribeirinhas, como São José do Paraná do Espírito Santo do Meio, que dão o tom, mostrando que a tradição é viva e compartilhada. Parintins é uma cidade onde o consumo de peixe sempre foi alto, apesar de a cidade possuir o primeiro ou segundo maior rebanho pecuário do Amazonas. Toda festa que inclui pescaria, como o Festival do Peixe Liso, mexe fundo com a memória dos munícipes.
6 de janeiro – Festival de Pastorinhas (Dia de Reis)
fevereiro/março – CarnaIlha (carnaval com toadas)
último fim de semana de junho/ início de julho – Festival Folclórico de Parintins (Caprichoso x Garantido)
06 a 16 de julho – Festa de Nossa Senhora do Carmo
agosto/ setembro – Festival de Verão do Itaracoera
19 e 20 de setembro – Festival do Peixe Liso (comunidade São José)
Assim, Parintins segue em festa o ano inteiro, num calendário que mistura fé, cultura e tradição popular, afirmando sua vocação de cidade onde a vida se celebra em comunidade.
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