18/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Hackers que ameaçaram Felca faziam parte de 700 suspeitos monitorados pela polícia por abuso infantil

Publicado em 31 de agosto, 2025

Hackers que ameaçaram Felca faziam parte de 700 suspeitos monitorados pela polícia por abuso infantil

Dois hackers detidos nesta semana por ameaçar matar o influenciador Felca e uma psicóloga faziam parte de um grupo no Discord e no Telegram com mais de 700 suspeitos monitorados pela Polícia Civil de São Paulo por crimes virtuais. Um terceiro suspeito preso não era investigado.

De acordo com o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) da Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo, o grupo se chama “Country”.

Nele, seus membros divulgam, compartilham e vendem imagens de abuso sexual infantil. Também cometem estupros virtuais, maus-tratos a animais e ataques a moradores de rua e fazem apologia ao nazismo. E promovem desafios de automutilação, instigando as vítimas, a maioria delas meninas e adolescentes, ao suicídio.

Ainda segundo a investigação, as mensagens com ameaças enviadas por WhatsApp e e-mail ao youtuber Felipe Bressanim, conhecido como Felca, e à psicóloga Ana Beatriz Chamati foram feitas por Cayo Lucas Rodrigues dos Santos, de 22 anos, e um adolescente de 17 anos.

Ataque

O motivo do ataque? O fato de Felca ter produzido o vídeo “Adultização” e Ana ter participado dele. O documentário viralizou desde que foi postado nas redes sociais, em 6 de agosto. Ele mostra como outros influenciadores digitais ganham dinheiro produzindo conteúdos que exploram e sexualizam crianças e adolescentes. O youtuber demonstrou como esse material é compartilhado por pedófilos.

Após a repercussão de “Adultização”, a Justiça da Paraíba decretou as prisões de Hytalo Santos e Euro, casal de influenciadores citado no vídeo de Felca. Os dois foram presos acusados por exploração sexual de menores, trabalho infantil e tráfico humano entre outros crimes.

Já Cayo foi preso pela polícia paulista na segunda-feira (25) em Olinda, Pernambuco. O adolescente foi apreendido na quinta-feira (28) em Arapiraca pela polícia de Alagoas. Por causa das mensagens enviadas a Felca e a Ana, eles vão responder por ameaça.

Crimes

Mas também foram acusados de terem cometido outros crimes, como invasão de dispositivo informático, perseguição e associação criminosa em ambiente virtual.

Os dois foram identificados pela polícia porque já estavam nesse grupo criminoso e intolerante na internet, o “Country”, que era vigiado, desde novembro de 2024, por agentes infiltrados.

Os policiais levantaram uma lista com 708 usuários, muitos deles usando apelidos. Esses membros trocavam fotos e vídeos de garotas menores nuas, algumas delas eram chantageadas depois que suas imagens íntimas eram vazadas e caíam na web.

As identificações de Cayo e do adolescente pela polícia não foram possíveis à época. Mas depois que os dois passaram a ameaçar o youtuber e a psicóloga, deixaram pistas de onde estavam.

Perigoso

“Nós não tínhamos ainda a qualificação completa, a localização, mas tínhamos conhecimento de que esse indivíduo já era um indivíduo perigoso”, disse Artur Dian, delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, sobre Cayo.

O delegado explicou que só chegou à identificação de Cayo e do adolescente após eles fazerem as ameaças a Felca e Ana. “[Cayo] já era uma pessoa conhecida da polícia por conta de material pornográfico infantil veiculado por ele mesmo e monetizado, vendido outrora para o público em geral”, falou Artur, que também confirmou o monitoramento do adolescente.

Cayo é considerado um dos líderes do “Country”. De acordo com a polícia, ele usava codinomes como Lammer, F4llen ou Lucifage. E decidiu com o adolescente mandar mensagens eletrônicas e digitais com ameaças para Felca e Ana. Eles queriam que o youtuber e a psicóloga retirassem do ar o vídeo “Adultização”.

Felca e a psicóloga, que moram em São Paulo, não atenderam aos pedidos do criminoso e procuraram a polícia para relatar e registrar boletins de ocorrência sobre as ameaças.

Crimes cibernéticos

As informações do Noad acabaram compartilhadas com a Divisão de Crimes Cibernéticos (DCCiber) no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). O órgão pediu então mandados de prisão contra Cayo e de apreensão do adolescente. A Justiça de São Paulo concordou.

No dia em que foi preso, Cayo estava com Paulo Vinicius Oliveira Barbosa, de 21 anos, que também acabou detido, mas em flagrante. Ele não havia sido detectado antes.

Os dois estavam numa residência com o computador usado para fazer as ameaças. Segundo os policiais, no momento das prisões, ambos estavam acessando ilegalmente sistemas do governo pernambucano.

Assim como Cayo, Paulo também foi indiciado por ameaça, invasão de dispositivo informático, perseguição e associação criminosa em ambiente virtual.

Mandado falso e ameaças

Segundo a investigação, Cayo ainda forjou um mandado de prisão contra Felca e pretendia incluí-lo no sistema do Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP), mas foi impedido antes pela polícia. Ele divulgava nas redes uma tabela que cobrava por seus serviços criminosos, que variavam de R$ 20 a R$ 50 mil.

“Você tem até 23:00 para apagar o seu perfil no Instagram e cortar laços com o felca. A country vai atrás de TODA a sua família”, diz um dos trechos das ameaças feitas à psicóloga por Cayo e o adolescente.

Prisão

Como Cayo e Paulo foram detidos tentando invadir um órgão público de Pernambuco, ficarão presos naquele estado à disposição das autoridades locais. 

Em seu interrogatório, Cayo negou que tenha ameaçado alguém, mas admitiu que vendia dados de sistemas governamentais nas redes sociais. Admitiu ter recebido mais de R$ 500 mil pelo que chamou de “serviço”.

O adolescente apreendido permanece sob custódia da Polícia Civil de Alagoas, à disposição da Justiça alagoana.

280 vítimas salvas

Segundo a Polícia Civil de São Paulo, a maioria dos mais de 700 suspeitos de crimes virtuais monitorados pelo Noad nas redes sociais ainda não foi presa porque precisa ser identificada. Muitos usuários dessas redes criminosas usam apelidos, o que dificulta saber quem de fato é.

Desde novembro de 2024, o núcleo da SSP ajudou a prender cerca de 20 desses suspeitos que eram monitorados e usam a internet para cometer crimes. Segundo a polícia, as operações ajudaram a salvar vidas de mais de 200 vítimas.

“Monitoramos 24 horas por dia redes sociais e plataformas digitais. Temos aproximadamente 280 vítimas salvas de suicídio infantojuvenil, estupros virtuais e automutilações em lives”, falou a delegada Lisandrea Salvariego Colabuono, coordenadora do Núcleo de Operações e Articulações Digitais.

Ameaças

Esta não foi a primeira ameaça que Felca recebeu após a divulgação do vídeo “Adultização”. No último dia 17 de agosto, a Justiça de São Paulo aceitou pedido de seu advogado para determinar que o Google quebre o sigilo de uma outra pessoa que ameaçou o youtuber por e-mail.

Entre as mensagens que Felca recebeu estão ameaças como: “Você acha que vai ficar impune por denunciar o Hytalo Santos?”; “Você tá enganado você vai ferrar muito sua vida”; “Prepara pra morrer” e “Você vai pagar com a sua vida”. Este usuário ainda não foi identificado pela polícia paulista, que investiga a denúncia.

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