
Concessão da Gleba Juma (ao fundo)é sensível para praticantes da pesca esportiva, um mercado que cresce e aparece no turismo amazonense, por se tratar de área cobiçada na procura do tucunaré (destaque)
A Gleba Juma, localizada entre Careiro Castanho e Autazes, é uma das áreas mais conhecidas do Amazonas pela pesca esportiva de tucunarés, especialmente nos rios Juma e no lago do Tracajá. A região, repleta de pousadas e destinos turísticos, entrou no radar do governo federal como uma das florestas públicas passíveis de concessão florestal, despertando preocupação entre comunidades locais, pescadores e empresários do setor. Começa nos próximos dias a temporada de pesca esportiva do tucunaré. E o rio Juma, com o vizinho lago do Tracajá, também parte da Gleba Juma, estão entre os principais destinos.
Nos últimos meses, circularam informações de que a área já teria sido leiloada, o que significaria permitir a exploração de madeira e até mesmo de serviços vinculados à imagem da natureza. A apuração, entretanto, mostra outro cenário.
De acordo com documentos oficiais do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), a Gleba Juma aparece como área planejada para possível concessão, mas não houve leilão nem definição de vencedores até agora. O que existe são contratações de inventário florestal e estudos logísticos e econômicos, dentro do projeto Paisagens Sustentáveis da Amazônia (GEF ASL), que servirão de base para um futuro edital.
No Congresso, a questão já gerou reação. Um requerimento apresentado no Senado pede informações ao Ministério do Meio Ambiente sobre a regularidade do processo, reforçando que, até aqui, o debate está na fase de preparação.
O leilão realizado recentemente em São Paulo, na B3, foi para outra área: a Floresta Nacional do Jatuarana, no sul do estado, vencida por três empresas madeireiras. A Gleba Juma não fez parte desse certame.
Pela legislação que rege as concessões florestais (Lei 11.284/2006), o governo não “vende” a floresta nem seus rios. A concessão dá direito ao manejo sustentável de madeira, produtos não madeireiros (como óleos e sementes) e à prestação de serviços, como o turismo. Porém, a lei é clara: não entram na concessão recursos hídricos, pesca, fauna ou mineração.
Isso significa que a pesca esportiva — hoje uma das atividades mais importantes da região — não deve ser prejudicada diretamente por uma futura concessão. O acesso aos rios e lagos permanece livre, assim como o direito de uso turístico e recreativo.
Especialistas alertam, no entanto, para possíveis impactos indiretos. A abertura de estradas para manejo florestal, mudanças na circulação de pessoas e veículos ou eventuais restrições de acesso a determinadas áreas terrestres podem afetar operadores turísticos e pescadores. Por isso, a publicação do edital e a realização da consulta pública serão momentos cruciais para esclarecer as regras e prevenir conflitos.
O Município de Careiro também está em processo de criação de uma Área de Preservação Ambiental (APA). A proposta, que havia enfrentado resistência de pecuaristas — receosos de restrições a suas atividades — foi interrompida na tramitação. Técnicos lembram, porém, que a constituição de uma APA não impõe limitações além das já previstas na legislação ambiental vigente.
Com a notícia da possibilidade de concessão florestal na Gleba Juma, moradores e empresários locais passaram a considerar a criação da APA como uma alternativa positiva para dar maior segurança jurídica e proteger os interesses da comunidade diante das futuras decisões do governo federal.
A publicação do edital da concessão florestal da Gleba Juma será acompanhada de uma consulta pública, na qual comunidades, pescadores e operadores de turismo poderão apresentar contribuições. Para não serem surpreendidos, é importante observar alguns pontos:
Mapas de exclusão: verificar se rios, lagos, igarapés e áreas de uso turístico foram devidamente protegidos da exploração florestal.
Faixas de proteção: garantir que margens de rios e lagos mantenham Áreas de Preservação Permanente (APPs) intocadas.
Compatibilização com turismo: cobrar que o edital reconheça a atividade de pesca esportiva e turismo de base comunitária como usos prioritários da região.
Logística de manejo: acompanhar como será a abertura de estradas e ramais, para evitar impactos negativos no acesso de visitantes e pescadores.
Regras de circulação: exigir clareza sobre eventuais restrições em áreas terrestres, para que não prejudiquem comunidades locais ou empreendimentos turísticos já instalados.
Monitoramento ambiental: pedir indicadores claros de impacto, com relatórios periódicos acessíveis à população.
Participação social: reforçar a necessidade de assentos para representantes locais nos conselhos de acompanhamento da concessão.
Com essas medidas, a sociedade pode garantir que o modelo de concessão seja compatível com o desenvolvimento sustentável da região, sem comprometer o potencial turístico e pesqueiro do Juma e do Tracajá.
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