08/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Canções e histórias

Publicado em 02 de maio, 2025

Canções e histórias

Por Felix Valois

Dia desses, a Lucinha me chamou a atenção para uma coisa no mínimo curiosa: as canções de ninar ou de roda, consagradas no Brasil, têm (pelo menos grande parte delas) ingredientes que estão longe de parecerem adequados para os objetivos a que se destinam. Com certeza não vai ter o sono tranquilo o curumim que for ninado, ouvindo a repetição de “boi, boi, boi/boi da cara preta/pega esse menino que tem medo de careta”. Ora, se o pequeno já não fica muito feliz com uma simples careta, como vai ter tranquilidade sendo ameaçado pelo ente bovino? Isso sem falar no preconceito, ínsito na alusão à cor da cara do boi, o que de resto, é uma grande tolice porque o Caprichoso, sendo preto, tem muito mais charme e beleza do que o contrário, com toda a sua branquelice e sua estrela petista na testa.

Fico também pensando na situação da garotinha, cuja mãe, toda cheia de ternura e carinho, a embala nos braços, entoando esta ameaça policialesca: “Sapo cururu, da beira do rio/Vem pegar esta menina que não quer dormir”. Já imaginou? O cururu é um bicho monstruosamente feio, capaz, nos ditos d’antanho, de dar nó em pingo d’água. A única explicação que me vem à cabeça é a de que a genitora já tenha explicado à sua cria que, mesmo horrendo, o tal sapo pode se transformar em um príncipe, desde que, como indica a lógica, seja beijado com amor. Se a criança conseguir superar o asco inerente a esse procedimento de mutação, pode ser que consiga sonhar com o batráquio já transformado e devidamente paramentado para as cerimônias da realeza. Em outra versão, é o murucututu que ocupa o lugar do sapo. O que seja um murucututu, não me perguntem porque eu não sei.

Lembro-me de uma composição com que as crianças se divertiam e que, se a memória não me falha, continha o seguinte trecho: “Meu anel de ouro/Que papai me deu/Quem achou, achou/Mas quem perdeu fui eu/Quem achou o meu anel/Faz favor de me entregar/Por causa do meu anel/Eu não quero apanhar”. Nos tempos de hoje isso soa quase como um discurso do Bolsonaro. Se não é mais possível aplicar uma simples palmada num curumim mal-educado, o que dizer da ideia de espanca-lo só pelo fato de ter perdido um anel? De ouro, é verdade, mas o valor da joia não há de ter o condão de permitir que o genitor, por mais avaro que seja, extravase sua insatisfação, moendo de porrada o pobre menino. Que vá reclamar do seguro.

No campo das historinhas, a coisa também não é lá das mais promissoras e edificantes. O lobo mau, por exemplo. Que padrão de vilania e burrice, engolfadas em um mesmo ente. Se seu objetivo era devorar a Chapeuzinho, por que não o fez logo início, quando ela estava sozinha na floresta? Mas, que nada! Tinha que primeiro ir à casa da vovó, traçar a velhota. E fê-lo em grande estilo, comendo-a por inteiro, para depois, num requinte de perversidade, envergar as roupas da anciã e, placidamente, deitar-se na cama, à espera da sobremesa. A menina da touca vermelha dá, então, uma demonstração de miopia ou de debilidade mental, ou, quem sabe, das duas coisas misturadas. Como é que, estando à beira do leito, conseguiu se confundir, imaginando que se encontrava ao lado da vovozinha querida? Ou era muito lesa ou estava necessitando de uma urgente consulta com o doutor Denis, esse excelente oftalmologista amazonense.

Os caçadores que matam o lobo e salvam a menina são um caso especial de impunidade, palavra hoje tão em voga nos arraiais punitivistas. Presunçosos, saíam por aí cantando que usavam a espingarda para matar pacas, tatus e cutias. E com que cara ficam o IBAMA e os ecochatos? E olhem que eu não estava querendo mencionar o exercício ilegal da medicina veterinária, escancarada quando os tais heróis dão pelo menos quatro talhos na barriga do lobo, para de lá extrair a velha inteirinha e ainda usando os óculos que portava quando serviu de banquete para a feroz criatura.

E a Branca de Neve, minha gente? A maneira explícita pela qual ela seduziu os anões, especificamente o Dunga, que era uma criança anã, levaria a gentil princesa a se envolver num rumoroso processo de pedofilia, desses que aparecem no Fantástico e que fazem com que a justiça brasileira não respeite as garantias individuais,  apenas por medo da mídia e da opinião pública. Estaria ela enjaulada, cumprindo prisão preventiva.

A Cinderela tinha toda uma vocação para o estelionato. Depois que a fada-madrinha, coautora na prática do ilícito com o emprego de métodos que a levariam ao tribunal do Santo Ofício, ela aplica o golpe no besta do príncipe, deixando para trás o sapato de cristal, único dos seus ornamentos que não perdeu o encanto depois da meia-noite. Então, viveram felizes para sempre.

Concluo, lembrando que o Pica-Pau é um mau caráter de padrão internacional, enquanto o Pernalonga é capaz de fazer inveja ao mais escolado dos malandros. E o Ali Babá conseguiu vivenciar o ditado popular, segundo o qual “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. No Brasil de hoje, está difícil saber quem merece ser perdoado. E assim, entre tantas monstruosidades, nossas crianças vão dormindo e se distraindo, ao som da mais surreal orquestra de loucuras.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.